perspectivas

Quinta-feira, 21 Abril 2011

Mestre Eckhart e Amit Goswami

São interessantes as analogias entre as teorias filosóficas actuais, por um lado, e as que herdamos da escolástica medieval, por outro lado; não só porque podemos encontrar muitos aspectos comuns entre elas, mas também porque podemos chegar à conclusão de que pouco de substancial se acrescenta, hoje, às especulações dos antigos filósofos.

Por exemplo, Amit Goswami, com a sua teoria quântica, acrescenta muito pouco à teoria de Mestre Eckhart (1260 – 1327). E embora eu seja um apologista da filosofia quântica, discordo dos dois. Tanto Amit Goswami como João Eckhart abraçam um “panteísmo espiritualista”, em contraponto ao vulgar “panteísmo naturalista”, por exemplo, de Campanella ou de Espinoza.

As duas principais teses de Mestre Eckhart, e que caracterizam toda a sua especulação, são basicamente as seguintes: 1) o universo — que inclui o ser humano e todas as criaturas — não existiria nem por um segundo se a consciência divina não se debruçasse sobre ele, ou seja, o universo desapareceria no olvido se Deus e a Sua consciência não lhe prestasse atenção; esta é a noção de Mestre Eckhart das criaturas como “puro nada”; 2) o ser autêntico das criaturas, e por consequência, a alma humana, são idênticos ao ser de Deus — o que significa que a alma humana não foi propriamente criada por Deus, mas apenas participa do ser de Deus.

Amit Goswami aceita implicitamente ambas as teses supracitadas, que aliás têm origem em algumas religiões orientais, como é o caso do Hinduísmo. Nós aceitamos a primeira, mas negamos a segunda que é, de facto, aquilo que caracteriza o “panteísmo espiritualista” tanto de Goswami como de Eckhart.

O papel desempenhado pela consciência humana, no que respeita aos fenómenos quânticos, não merece grande dissensão: a onda quântica “materializa-se” em partícula, quando “observada” por uma consciência humana.

E, de certa forma, entronca aqui a diferença entre a consciência humana, que tem a capacidade de exercer a sua influência em relação às ondas de probabilidades (= ondas quânticas) que “observa”, por um lado, e a consciência divina, que “observando” o universo inteiro mantém a realidade quântica desse mesmo universo dentro dos paradigmas da Complementaridade Quântica (princípio da complementaridade), por outro lado.

Dentro desta capacidade divina de “observar” o universo inteiro, reside a Sua possibilidade de alterar o curso dos acontecimentos e por Seu puro livre-arbítrio — ou seja, aquilo que Deus se “esquece” de “observar” (no sentido de não querer “observar”) continua como onda de probabilidade à espera da “atenção especial” da Sua consciência, para que os novos acontecimentos a nível do universo possam ter lugar na realidade entrópica do macrocosmos.

Porém, coloca-se o problema de saber se a diferença entre a consciência humana e a consciência divina é apenas uma questão de quantidade, e não de qualidade — como defendem Amit Goswami e Mestre Eckhart.

Ou seja, estando a consciência humana entrosada com a realidade entrópica da matéria causada pela acção da força da gravidade, e através da qual a consciência humana se expressa e se manifesta por via do meios materiais em que se encontra (cérebro) e que a delimita — então poderíamos dizer que a diferença essencial entre a consciência humana e a consciência divina reside apenas na delimitação material em que se encontra aquela (as limitações materiais que condicionam e limitam a consciência humana).

Eu penso que existe, de facto, uma diferença de qualidade entre a consciência humana e a consciência divina, e que a consciência humana (vulgo “alma”, ou “espírito”, o que quisermos chamar, porque o que está subjacente a todos esses conceitos é a consciência e a autoconsciência) teve uma causa, isto é, foi criada.

A principal razão porque a consciência humana foi causada — e que por isso difere substancialmente da consciência divina — tem a ver talvez com a sua própria condição delimitada e delimitável, o que lhe permite a entrosão com a realidade entrópica da matéria que a condiciona e limita. Porém, e devido aos diferentes graus de consciência existentes dentro da própria consciência humana, podemos dizer que existem algumas consciências humanas mais próximas da consciência divina (ou consciência causal) do que outras — o que não significa que as duas realidades conscientes se confundam e/ou se misturem.

Enquanto que tanto Amit Goswami como Mestre Eckhart defendem uma visão imanente da realidade (panteísmo espiritual) , em que a consciência divina (o Ser) é idêntica à consciência/ser das criaturas, a minha opinião é a da manutenção da (no mínimo) tripla noção da realidade: 1) a materialidade entrópica (macrocosmos), 2) a realidade imanente, que abrange a realidade quântica das ondas de probabilidades, por um lado, e a Singularidade Quântica do “Além-espaço-tempo” que se aproxima da transcendência, por outro lado, 3) e, por último, a realidade transcendental de onde a consciência divina — essencialmente diferente da consciência humana — “observa” o universo, transformando as ondas de probabilidade (imanentes por sua natureza ao macrocosmos) em acontecimentos à escala universal ou local, e segundo o Seu puro livre-arbítrio e liberdade.

Quanto maior for o grau de consciência humano, maior a possibilidade da consciência humana se aproximar da essência da consciência divina ou causal — o que não significa que tenham ambas uma essência idêntica, ou “ser idêntico”.

Quanto maior é o grau de consciência humano, mais a consciência humana (enquanto na sua condição delimitada pela realidade material) se aproxima da pura transcendência — o que significa que o grau de consciência humano pode ditar a sua posição “próxima” da estrutura imanente da realidade material/entrópica, por um lado, ou conduzi-la à pura transcendência onde, porém, nunca se confundirá com a consciência divina, por outro lado.

A consciência humana, enquanto livre da realidade material e entrópica (enquanto “alma”, ou “espírito”, não sujeita à realidade da matéria), obedece a esses mesmos princípios, embora, nesta última condição, a sua razão seja mais ou menos próxima da condição absoluta, e a sua afinidade em relação à realidade sensível mais ou menos preponderante, dependendo do seu grau de consciência.

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3 comentários »

  1. […] seguimento deste postal, penso que é conveniente adicionar-lhe algumas […]

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    Pingback por Ainda sobre Amit Goswami e Mestre Eckhart « perspectivas — Sexta-feira, 22 Abril 2011 @ 6:50 am | Responder

  2. Muito interessante sua perspectiva : se somos partes separadas de uma grande Consciência , nossa existência é uma quimera e nada acrescentamos ou acrescentaremos ao Universo pois ele é totalmente regido pela Consciência Suprema, se somos consciências autônomas consentidas e podemos alterar a realidade através de nosso livre arbítrio, então não existe Consciência Suprema e há um perigoso jogo de poder entre todas elas, configurando talvez o que os arquétipos religiosos já pregam há muito, uma já não tão eterna luta entre o Bem e o Mal, já que não há mais poder absoluto, e passível de resolução.

    Poderiamos então ser resultado do terror de Deus? Morto de tédio em sua eterna solidão, Ele decide arriscar-se num jogo de divisão de seu absoluto poder criando consciências separadas com potencial de criação e destruição equivalentes, esperando entronizar um novo equilibrio de forças, mais rico e menos monótono – Quem sabe o ponto ômega de Teilhard de Chardin ou mais modernamente com Capra no ponto de Mutação ou então teses mais próprias da Termodinâmicas do equilibrio entre Entalpia & Entropia ?

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    Comentar por Julio Giampá Scheibel — Segunda-feira, 20 Junho 2011 @ 2:01 am | Responder

  3. Não foi isso que eu quis dizer.

    1. Desde logo, o termo “consciência” não tem (para mim) um mero significado biológico, no sentido do evolucionismo darwinista. A consciência identifica-se com o espírito, ou com a dimensão transcendental da realidade, mas acrescenta ao espírito um determinado estado de “awareness”, que pode ser traduzido para o português como “noção da realidade”. Quanto mais consciência existe em um espírito, mais evoluída é a sua noção da realidade.

    2. Ao contrário de Eckhart e de Amit Goswami, eu sigo S. Agostinho que defende a ideia de que o espírito humano — com os respectivos graus de consciência inerentes à espiritualidade humana — é criado! O espírito humano é consubstancial a Deus (ou seja, tem semelhanças com Deus) mas não é da mesma essência de Deus.

    3. Sendo consubstancial a Deus, o espírito humano tem algumas potencialidades outorgadas por Deus. Ou seja, o espírito humano não é divino, mas tem algumas características emanadas de Deus. Por exemplo, o livre-arbítrio segundo S. Tomás de Aquino, embora enquadrado na condição existencial.

    Quando fazemos uma retrospectiva dos nossos actos, parece que tudo foi determinado e que não poderia ser feito de outra forma. Porém, se olharmos para o presente em que actuamos, verificamos que as possibilidades estão abertas e o nosso futuro depende das nossas acções. Portanto, a análise do passado induz-nos em um erro determinístico.

    4. A capacidade de livre-arbítrio e da consciência do ser humano não coloca em causa o Ser da consciência divina (e não a “existência” da consciência divina, porque esta não existe: antes, é. Só “existe” o que pertence exclusivamente à realidade do macrocosmos do nosso universo).

    A consciência do ser humano tem uma capacidade muito limitada de acção sobre a realidade. Em contraponto, é a consciência de Deus que mantém a existência do universo que não existiria nem mais um segundo se Deus não o “observasse” constantemente.

    5. Deus não é um objecto ou uma coisa, porque Deus não pertence à realidade da nossa dimensão de sujeito/objecto. “Eu Sou Aquele Que Sou!”, é a afirmação de Deus no Antigo Testamento; e não, “Eu Sou Aquele Que Existe”. Deus não existe no sentido de que uma coisa ou uma pessoa existe. Deus é o Englobante, ou seja, é o que está para além da totalidade de que nós somos apenas partes.

    Portanto, não podemos atribuir características antropomórficas a Deus. Não podemos dizer que Deus é louro ou moreno, que tem barbas ou é careca, ou que vive em tédio ou que vive em solidão. A crítica a esta noção antropomórfica de Deus foi feita há cerca de 2500 anos atrás pelo grego Anaximandro Xenófanes, e ainda hoje parece que pouca gente compreendeu o velho grego.

    6. A entropia, a entalpia, e as leis da termodinâmica aplicam-se exclusivamente no macrocosmos. Portanto, é absurdo trazer estas noções à discussão. A matéria do universo existe em função de uma força entrópica que se chama “força da gravidade”; essa força entrópica da gravidade decorre da existência de uma outra força que lhe é anterior, e que chamamos de “força quântica”.

    No mundo das partículas elementares indivisíveis (ou Partículas Elementares Longevas), ou realidade quântica, não existem a entalpia, entropia e as leis da termodinâmica. A realidade quântica é imanente, e não é matéria propriamente dita. Uma onda quântica pode ser totalmente não-matéria na medida em que pode ser totalmente desprovida de massa. Segundo o princípio de separabilidade de Bell, uma Partícula Elementar Longeva, quando viaja pelo universo em forma de onda, pode transpor distâncias de milhões de anos-luz em apenas um instante do nosso tempo terrestre.

    Parece-me que você não entendeu o que foi exposto no postal — mas não o critico por isso, porque o assunto é muito complexo.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 20 Junho 2011 @ 10:18 am | Responder


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