perspectivas

Quarta-feira, 20 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (3)

Antero de Quental atacou a Igreja Católica com violência e brutalidade inauditas, responsabilizando o catolicismo por aquilo a que ele chamou de “atraso” por parte da Europa do sul em relação à Europa do norte. Deveria ser permitido a Quental ver a Europa actual, e verificar que os eventuais avanços em algumas áreas da sociedade implicaram necessariamente o retrocesso em outras áreas. Sob ponto de vista humano, a Europa retrocedeu e muito; a Europa sacrificou o valor das relações humanas em favor do chamado “progresso protestante do dever social” que evoluiu paulatinamente, e desde a Reforma, para uma espécie de “Estado do Sol” de Campanella.

Face à Reforma de Lutero, Tomás Campanella advogou a ideia de se utilizar o próprio catolicismo para reformar o catolicismo e transformá-lo em uma “religião natural”, ou naturalista. No fundo, era esta mesma a ideia de Antero de Quental quando criticou a Igreja Católica pelo facto de esta não ter cedido às mesmas pressões culturais a que o protestantismo da Europa do norte não resistiu. E essas pressões culturais traduzem-se na redução da religião cristã a uma espécie de religião natural, na senda de Campanella e de outros gnósticos, não só os do Renascimento como anteriores como é o caso de Joaquim de Fiore.

Campanella era bipolar; Quental também era bipolar, e acabou por dar um tiro na cabeça em pleno dia e em um banco de jardim. A história da influência neognóstica na nossa cultura resume-se a uma história da influência cultural esdrúxula e desproporcionada por parte de alguns semi-loucos.

Do protestantismo da revolta de Lutero, o que resta hoje na Europa do norte é uma espécie de religião naturalista de Campanella, segundo os cânones do “Estado do Sol”. O luteranismo foi essencial para reduzir o Cristianismo a uma religião naturalista, em que a transcendência foi eliminada e, através da Nova Teologia de Bonhoeffer, evoluiu para um naturalismo da imanência de Deus. Por fim, até mesmo Deus foi erradicado dessa religião naturalista procedente do luteranismo, ou seja, o luteranismo evoluiu ou para o ateísmo cultural, ou para uma religião naturalista cuja metafísica é imanente e a divindade coincide com a Natureza.

Será que podemos considerar isto um “avanço” civilizacional?

Com a alienação da Teologia transcendental, o pensamento filosófico empobreceu drasticamente e, por isso, o filósofo Antero de Quental terá defendido exactamente um futuro para a Europa que era o oposto daquilo que julgava defender em fins do século XIX: o fim da filosofia, a imposição pós-luterana de um determinismo cultural, a erradicação progressiva da liberdade individual em nome de uma religião naturalista e imanente, a construção de um leviatão político na esteira da “República” de Platão, do “Estado do Sol” de Campanella, e do “Leviatão” de Hobbes.

Será isto “progresso” ?

Uma das grandes contradições da cultura proveniente da Reforma luterana consiste em sempre ter escolhido um determinado caminho cultural e antropológico, ao mesmo tempo que recusou a escolha livre do Homem — o que significa que passou a existir uma elite neognóstica que se atribuiu a si mesma a exclusividade da liberdade, por um lado, e determinou o fim da liberdade em relação à maioria dos cidadãos, por outro lado. Para conseguir esse desiderato, a elite neognóstica que emanou da Reforma luterana embruteceu a cultura e embotou o pensamento, e reduziu a filosofia e a religião à própria natureza. O resultado disto foi o movimento revolucionário que eclodiu primeiro no século XVII em Inglaterra com a revolta dos puritanos protestantes, e evoluiu depois para a revolução francesa, e finalmente para o movimento revolucionário dos séculos XIX e XX que são responsáveis por mais de 200 milhões de vítimas mortais inocentes.

A Reforma de Lutero conseguiu realizar o sonho de Campanella descrito no seu livro “Estado do Sol”, que este tinha profeticamente destinado ao catolicismo mas que a Igreja Católica recusou seguir. Porém, e quando avaliamos aquilo a que chamamos de “progresso”, temos que ter em consideração o que de positivo existia e que o “progresso” destruiu, por um lado, e temos que saber distinguir as “probabilidades pesadas” (segundo o conceito de Karl Popper) que apontam os caminhos do futuro da sociedade europeia inserida neste “progresso”.

E desse “progresso” protestante que descambou na actual Europa do norte que contamina a Europa do sul, vislumbramos o embotamento espiritual do Homem, o retrocesso do humanismo cristão, a imposição de uma religião naturalista, a restrição progressiva e paulatina do livre-arbítrio e da liberdade do Homem, e a apologia do embrutecimento do cidadão. Esta é a verdadeira e actual herança da Reforma luterana na Europa.

(segue)

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