perspectivas

Domingo, 10 Abril 2011

O mistério da mentecapcia minoritária que ainda apoia José Sócrates

Pergunto-me como é possível que depois do descalabro da governança socratina, as sondagens ainda lhe dêem 30% das intenções de voto. Esses 30% não podem ser todos de militantes do Partido Socialista; e também não aceito a ideia de que sejam todos gente que depende de esmolas ou de prebendas do Estado. Poderia aceitar a ideia de que as sondagens estão erradas, mas então, e por uma questão de coerência, não estaria a escrever este postal.


No século XVIII viveu um pensador francês obscuro e de quem hoje praticamente ninguém fala, de seu nome Vauvenargues (Luc de Clapiers). É uma daquelas muitas personagens esquecidas pela História — e graças a Deus que assim é. E se eu não concordo com os princípios e, por maioria de razão, com as conclusões teóricas do dito Vauvenargues, concordo com ele num ponto: a razão e o sentimento (ou instinto) aconselham-se e suprem-se mutuamente.

O Homem é composto de razão e instinto. Até aqui estou de acordo. Mas já não estou de acordo que transformem a razão em uma espécie de instinto, como fez Hume — por um lado — e que apregoem a superioridade valorativa do instinto sobre a razão, como fez Vauvenargues e muitos iluministas — por outro lado.

Quando vejo alguém a defender a superioridade do instinto sobre a razão, esse alguém ou é, invariavelmente, gay praticante (por exemplo, Hume), ou é gay recalcado (por exemplo, Nietzsche), ou um libertino de alto coturno (por exemplo, La Rouchefoucauld). Não foi por acaso que os principais dirigentes fundadores do partido nazi alemão eram homossexuais praticantes: era necessário colocar o instinto do povo alemão acima da razão.


À parte as considerações acerca dos iluministas que pretenderam transformar o ser humano em um animal irracional (e, em parte, já o conseguiram), Vauvenargues tem razão quando diz que não podemos desprezar o papel que o instinto desempenha na vida em sociedade.

Não é suficiente que as evidências sejam de tal forma gritantes que não seja possível, de uma forma racional, reconduzir José Sócrates como primeiro-ministro deste país. Diz Vauvenargues que quando o cidadão não tem uma mínima capacidade de obter conhecimento por via da razão, o instinto supre o raciocínio com enorme vantagem. “Aquilo que a reflexão demasiado débil não se atreve a decidir, o sentimento (entendido como expressão do instinto) força a crê-lo” — escreveu Vauvenargues.

Portanto, não chega que a oposição ao Partido Socialista socratino se apoie na evidência insofismável da razão. A debilidade mental de uma minoria da população seguirá sempre uma espécie de “instinto suicida”. A oposição ao Partido Socialista socratino tem que jogar em dois carrinhos: no da razão e no do instinto.

5 comentários »

  1. Viva!

    Muito bom post.

    Acresce que há uma fatia considerável da populaça, aquela de quem se ouve “coitado do homem” na rua, que não sabe o que faz e que ainda e sempre viverá presa a atavismos descalços.

    Resta encarar a erupção.

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    Comentar por fms — Domingo, 10 Abril 2011 @ 10:11 am | Responder

  2. Não estou nada de acordo. Os admiradores de Sócrates e das políticas seguidas nos últimos anos fornecem baterias de argumentos que, em termos racionais, enfrentam, pelo menos num primeiro embate, os dos detractores. De resto, este facto pode ser uma das razões de o apoio ao PS com este PM continuar tão elevado. A imensa massa de apoiantes do sistema socrático julga mesmo que os outros têm défice de inteligência.

    Estamos habituados a presenciar debates que terminam de modo inconclusivo.

    Eu diria que, pelo contrário, são as intuições, os instintos, que funcionam de modo defeituoso em muitos de nós; mas todos formamos as nossas convicções e tomamos partido de uma maneira mais instintiva do que racional.

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    Comentar por Lino — Domingo, 10 Abril 2011 @ 10:41 am | Responder

  3. Comentário “2 em 1” :

    FMS:

    O “coitado do homem” faz parte do sentimento que, como a paixão, fazem parte do mundo do instinto referido no postal.

    ******************

    Lino:

    1. Se Sócrates não fosse aclamado, a polarização do instinto em torno do Partido Socialista falharia. Em vez de 30%, e por ausência do apoio do instinto (sentimento, sentimentalismo, paixão, emoção), a percentagem de apoio ao Partido Socialista estaria hoje muito longe dos 30%.

    2. As vozes dissidentes dentro do Partido Socialista (Ferro Rodrigues, Carrilho, Ana Gomes, etc. etc.) revelam que eu tenho razão: o que junta a máquina do Partido Socialista em torno de José Sócrates é a pura sobrevivência política (que os 30% garantem) que, de outro modo, seria drasticamente afectada. O Partido Socialista apela ao instinto porque não lhe é possível apelar à razão.

    3. O argumento racional passa pela constatação de factos. E não só os factos que conhecemos, mas aqueles que o Partido Socialista de José Sócrates conhece e que o país ainda não conhece.

    Não basta falar de “políticas seguidas nos últimos anos fornecem baterias de argumentos que, em termos racionais, enfrentam, pelo menos num primeiro embate, os dos detractores”. É necessário dizer quais são esses “argumentos racionais” socialistas que surgem do congresso do Partido Socialista. Será que um desses “argumentos racionais” é o de que “a culpa é do Partido Social Democrata”?

    4. Lino, você não leu o que eu escrevi. Eu escrevi “instinto suicida”.

    O instinto, não sendo, obviamente, racional, pode parecer que não é defeituoso ao mesmo tempo que é suicida. O instinto de sobrevivência, por exemplo, sem o apoio da razão, pode dar em uma acção negativa que conduz ao oposto daquilo que deveria conduzir.

    Dizer que “o instinto é defeituoso” como se o instinto fosse uma condição autónoma no ser humano, é um absurdo, porque a noção de “defeito” ou “não-defeito” é eminentemente racional. É a razão que julga o instinto; o instinto não tem capacidade de se julgar a si próprio.

    *********************************************

    Adenda: a intuição não é a mesma coisa que instinto.

    A intuição é uma forma de conhecimento (de inteligência) que coloca o ser humano em presença directa (sem mediação) do objecto de conhecimento.

    O instinto (no ser humano) não é uma forma de inteligência: é um modo de adaptação de carácter genético e cultural próprio da espécie humana (estamos a falar da espécie humana).

    No ser humano, o instinto tem características próprias. Embora o instinto tenha — como é o caso da inteligência ou da razão — a função de adaptação ao real, o instinto humano é um comportamento adaptador estereotipado, dependendo de um condicionamento genético e cultural (aquilo a que Hume chamou de “hábito”).

    Adenda 2

    O “hábito”, segundo Hume, não é mesma coisa que “costume”. Estive a consultar o Google e constatei muita confusão acerca do conceito de “hábito” de Hume.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 10 Abril 2011 @ 11:41 am | Responder

  4. Ao menos uma boa noticia amigo Orlando Braga, o referendo feiro na Catalunha pela plataforma barcelona Decideix foi um sucesso.

    Os gaijos não contavam com mais de 10% e na volta tiveram quase 22 %, destes com 45 % contados 91, 6 % são favoráveis á independencia da catalunha.

    http://www.europapress.es/nacional/noticia-914-vota-si-barcelona-445-escrutado-20110410234935.html

    Não foi por acaso que tivemos uma sondagem iberista no económico a meio da semana.

    Em relação a essa sondagem que saiu no inicio da semana, é um embuste. Não tivesse lá a radio publica, fui uma sondagem “porreira pá” feita a medida do cliente.

    Não é possivel que os 6 % que o PS subiu tenham vindo directamente do BE, que por sua vez desceu 6 %.

    Então destes votos todos, não focou nada pelos comunas.

    Acha isto possivel?

    É tanga.

    O Sócrates vai ser demolido pelos Portugueses, não passa do 27 %, pde crer.

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    Comentar por Mendes — Segunda-feira, 11 Abril 2011 @ 1:14 am | Responder

  5. Não, eu não estava a pensar em “argumentos racionais” que “surgem do congresso”! Nada de racional emerge desse espectáculo. Referia-me a argumentos de circunstância que em determinados momentos circulam sob a forma de cartilha entre os socialistas (por exemplo, a urgência do tgv ou das renováveis no nosso desenvolvimento; o facto de as nossas dificuldades virem dos ataques de especuladores ao euro, ou da inabilidade da senhora Merkel a suster o ataque…etc). Embora estas afirmações sejam insusceptíveis de ser demonstradas, elas e os seus pressupostos constituem um apoio confortável, com uma estrutura aparentemente racional, para os que acreditam. Na verdade as afirmações contrárias também não podem ser demonstradas… embora me pareça que não é difícil optar se se tiver uma dose média de bom senso. Provavelmente o problema não é só de instinto: muitos optam por adesão afectiva, estrutural até se tornar inconsciente, a determinada área ideológica. Entre nós, a “cultura de esquerda” impregna de tal modo o dispositivo do pensamento que nem todas as asneiras dos últimos governos são suficientes para determinar uma rejeição maciça das políticas e dos seus autores.

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    Comentar por Lino — Segunda-feira, 11 Abril 2011 @ 9:34 am | Responder


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