perspectivas

Quarta-feira, 6 Abril 2011

Um exemplo da sociedade monstruosa que estamos a construir

O exemplo do que se quer dizer aqui, ilustra-se através do caso de Nan Maitland, uma senhora de 84 anos que foi “assassinada legalmente” porque sofria de artrite; aparentemente, a senhora não tinha outro problema de saúde que não fosse a artrite própria da sua idade.

Paulo Portas anunciou ontem no FaceBook que estaria hoje em Azeitão, numa campanha a favor dos cuidados paliativos. E este blogue apoia, neste particular, a acção de Paulo Portas.

A defesa da legalização da eutanásia não é só uma bandeira da Esquerda, embora seja predominantemente de Esquerda: é também característica de uma certa Direita liberal que, como escreveu Olavo de Carvalho, com “a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários” (…), “acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de Direito.”


Com o pós-modernismo e a partir de fins da década de 50 do século passado, verificamos uma mutação paulatina de paradigma cultural; de um racionalismo positivista que imperou na primeira metade do século XX — e que não se pautou um brilhantismo nos seus resultados, com duas guerras mundiais e as revoluções comunistas sangrentas —, passámos gradualmente para um subjectivismo idealista que atingiu a sua maturação cultural com o derrube do muro de Berlim. A partir daí, esse subjectivismo idealista (que caracterizou, por exemplo, a sociedade de consumo, a pulverização das religiões New Age nas décadas de 60 e 70, a super afirmação do indivíduo em detrimento da sociedade entendida como um todo, a multiplicação das sub-ideologias políticas, etc.) entroncou numa espécie de renascimento do Objectivismo de Ayn Rand através das teorias de gente como Francis Fukuyama que anunciou — tal como Karl Marx o tinha feito 100 anos antes — o fim da História.

O subjectivismo idealista característico do pós-modernismo evoluiu, a partir dos anos 90, para um individualismo exacerbado e presentista, tanto pela afirmação de um neo-objectivismo Randiano de um “determinismo da auto-determinação” (a que se convencionou chamar de “neoliberalismo”), por um lado, como através da reformulação da teoria marxista através da adopção das bases gramscianas da teoria e dos princípios estratégicos da escola de Frankfurt, de uma “auto-determinação do determinismo”, por outro lado. Porém, num caso como noutro, o resultado é idêntico: do subjectivismo idealista do pós-modernismo, passamos para a ditadura da subjectividade do actual presentismo.

A actual ditadura da subjectividade transforma as diferenças entre a Esquerda e a Direita em simples divergências de métodos de acção para se chegar, ao fim e ao cabo, a um resultado idêntico. Num caso e noutro, o passado e a História, e com eles a herança cultural, tendem a ser anulados (presentismo) e mesmo erradicados em nome da afirmação omnipotente da subjectividade do indivíduo. Deste império da subjectividade individual evoluímos para um novo tipo de atomização da sociedade — não já do tipo racionalista e colectivista que caracterizou o nazismo e comunismo, mas de um novo tipo de atomização da sociedade que parte da hiper-afirmação do indivíduo para a sua negação ontológica (niilismo). Cumpre-se, hoje, a profecia de Nietzsche.

O caminho que temos pela frente é a de um renascimento do humanismo cristão e, como todos os renascimentos e porque os tempos são outros, vai sofrer algumas actualizações formais mas necessariamente sem alteração da essência e de conteúdos. O futuro está totalmente em aberto e não há lugar a pessimismos historicistas; o pessimismo historicista que vê a evolução dos acontecimentos como um facto já determinado e impossível de evitar, é uma forma de mentalidade revolucionária determinística de uma certa Direita “tradicionalista” que se diz contra o movimento revolucionário.

O movimento a favor da legalização da eutanásia evoluiu já da simples imposição do subjectivismo idealista pós-modernista do conceito de “compaixão na morte”, para a ditadura presentista da subjectividade neo-objectivista e Randiana de “morte utilitária”. Já não vivemos num tempo em que se tem comiseração por quem se encontra em uma situação terminal, mas passamos já a uma situação de um utilitarismo exacerbado e de negação ontológica, e em nome da hiper-afirmação do indivíduo.


O exemplo do que se quer dizer aqui, ilustra-se através do caso de Nan Maitland, uma senhora de 84 anos que foi “assassinada legalmente” porque sofria de artrite; aparentemente, a senhora não tinha outro problema de saúde que não fosse a artrite própria da sua idade.

A característica comum ao Objectivismo de Ayn Rand, e consequentemente ao neo-objectivismo (ou neoliberalismo), por um lado, e ao marxismo cultural do “culto tóxico do sentimentalismo” (parafraseando Theodore Dalrymple), por outro lado, é a super valorização de uma hiper-subjectividade utilitarista que redunda, em ambos os casos, na negação ontológica do ser humano.

O meu egoísmo / individualismo exacerbado, levado às últimas consequências, nega sempre o direito do outro à existência — nem que tenhamos que convencer o outro, através do “culto tóxico do sentimentalismo”, de que a sua auto-aniquilação é racional e necessária.

1 Comentário »

  1. «Ubayy and two other companions approached Mohammed with this argument.

    “Prophet of God, we are in disagreement over a verse in the Koran and each of us maintains that you taught us to read it so and so. ”

    Whereupon he spoke to one of them:

    “Read it out to me,” and this one read it out to him. Whereupon the Prophet of God said; “Correct!”

    Then he asked the other to read it out to him, and this one read it out differently than his friend had read it out. To this the Prophet said: “Correct!”

    Then he spoke to Ubayy : “Read it out yourself as well,” and Ubayy read it out differently than both. Yet to him too the Prophet said; “Correct!”

    Ubayy reported : “This gave rise to such a doubt in me with regard to the messenger of God as that of heathens!” And he continued : “However, because the messenger of God noticed from my face what was occurring in me, he raised his hand and struck me on the breast and said: ‘Pray to God for protection from the accursed Satan!’” At this Ubayy broke into a sweat.»

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    Comentar por o islão fede — Sexta-feira, 8 Abril 2011 @ 7:02 am | Responder


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