perspectivas

Sexta-feira, 1 Abril 2011

Leibniz e a quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:38 am
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“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”

(Leibniz)

Para que seja possível um jogo de xadrez é necessário o respectivo tabuleiro, as peças e as regras do jogo (a facticidade); das regras do jogo, decorrem os movimentos possíveis das peças dentro do tabuleiro (possibilidade); e o jogo precisa de jogadores (consciência). Temos, pois: facticidade, possibilidade e consciência. Retomaremos mais adiante o exemplo do jogo de xadrez.

Leibniz fez a distinção entre “verdade de razão” e “verdade de facto”. Por exemplo, é uma verdade de razão que o Homem é um ser bípede, detentor de inteligência, de uma linguagem e de cultura; mas é uma verdade de facto que cada homem é um ser individualizado e particular. A esta individualização das coisas, Leibniz chamou de “substância individual”.

A verdade de razão exige um determinismo, na medida em que expressa a necessidade de uma ordem; por exemplo, as leis da física; ou os axiomas: um triângulo tem três lados e os seus ângulos internos são iguais a dois ângulos rectos. A verdade de razão reflecte uma ordem lógica, determinada e determinística. A verdade da razão é a facticidade, no nosso tabuleiro de xadrez: é aquilo que é absolutamente necessário para que o jogo possa ocorrer, e sem a qual não pode existir nem a possibilidade do jogo, nem o exercício da consciência por parte de cada “substância individual”.

“Uma ordem real nunca é necessária” — diz Leibniz. Em contraponto à verdade de razão, a verdade de facto diz respeito à realidade e é contingente, ou não-necessária. A verdade de facto é a possibilidade, no nosso jogo de xadrez. Segundo a verdade de facto, “nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente”. A razão suficiente resulta da acção da consciência, no nosso jogo de xadrez.

No nosso jogo de xadrez, a possibilidade depende da consciência. Quanto maior for a consciência que se tenha acerca das possibilidades, mais apurada é a razão suficiente — ou seja, quanto mais experiência e conhecimento de xadrez tenha o jogador (consciência), maior é o número de jogadas possíveis no tabuleiro tendo em vista um fim. Hoje sabemos, mais ou menos, o que é a facticidade e a possibilidade; mas continuamos a ter dúvidas acerca do que é a consciência.

A facticidade é a condição da existência. Se nascemos aqui e não noutro sítio, esse facto decorre da facticidade. As leis da natureza e da física fazem parte da facticidade, ou seja, da verdade de razão que reflecte uma ordem necessária. A facticidade é entrópica, tal qual é entrópica a força da gravidade. Sem a facticidade não existe a possibilidade e o desenvolvimento da consciência e, por isso, não é possível a liberdade.

A liberdade quase absoluta é atingida quando a consciência, através da possibilidade da razão suficiente inerente à “substância individual”, consegue — e até determinado ponto — remover ou ultrapassar a própria facticidade; e dizemos “quase absoluta”, porque a absoluta liberdade pertence a Deus, e só a Ele. O milagre é uma manifestação de liberdade quase absoluta que oblitera, no espaço-tempo e de uma forma excepcional e pontual, a verdade de razão e a facticidade; é a vitória da consciência sobre a facticidade, ou a imposição da verdade de facto sobre a verdade de razão.

A razão suficiente de cada substância individual decorre da razão suficiente de Deus, e na medida em que a razão suficiente divina é sinónimo de liberdade absoluta — na medida em que através da absoluta consciência, Deus conhece todas as possibilidades — a razão suficiente de cada substância individual depende e age de acordo com o seu grau ou nível de consciência. Quanto mais consciência temos, mais conhecimento temos das possibilidades existentes, o que não significa que essas possibilidades estejam determinadas à partida. Portanto, a razão suficiente de Deus — ou seja, a capacidade divina de agir em liberdade — é diferente da razão suficiente de cada ser humano, em particular, e de cada substância individual, em geral.

A razão suficiente é a capacidade que cada um de nós tem de fazer uma coisa em vez de fazer uma outra coisa. Quando fazemos uma coisa em lugar de outra, afirmamos a nossa razão suficiente, que pode ser diferente da de outras pessoas. Quando fazemos uma coisa em lugar de outra, agimos perante a nossa percepção das possibilidades existentes; e quanto maior for a nossa consciência, mais alargado é o leque das possibilidades e o conhecimento das conexões de causa / efeito inerentes à possibilidade de consequências das nossas acções. A verdade de razão é lógica; a verdade de facto é moral.

“Na mecânica quântica, o papel dos seres dotados de consciência deverá ser diferente daquele que é desempenhado pelos aparelhos de medição inanimados (…). Por outras palavras, a impressão obtida numa interacção, também chamada “resultado de uma observação” modifica a função ondulatória do sistema.

Mais ainda, a função ondulatória modificada é geralmente imprevisível antes da impressão obtida haver penetrado na nossa consciência; é a entrada de uma impressão na nossa consciência que vai alterar a função ondulatória, pois ela vai modificar a nossa avaliação probabilística relativa a impressões diferentes que esperamos receber no futuro. É neste ponto que, inevitável e inalteravelmente, a consciência entra na teoria.”

— Eugene Wigner, prémio Nobel da Física

A razão suficiente não depende apenas dos conhecimentos académicos, mas também e sobretudo dos “conhecimentos espirituais”. A consciência não é apenas um epifenómeno do cérebro, mas é algo que está para além da matéria, de uma forma semelhante (mas não idêntica) à onda quântica que, não tendo massa, não é matéria. O cérebro é apenas o meio através do qual a consciência se manifesta na realidade das partículas sujeitas à entropia da força da gravidade e da verdade de razão (macrocosmos), assim como as ondas de rádio passam pelos transístores e se transformam em música. Por isso, assim como os transístores avariados de um rádio não colocam em causa a existência das ondas hertzianas, um cérebro deficiente não coloca em causa a existência da consciência, e independentemente das limitações da sua acção no mundo da verdade de razão.

O mundo quântico, a possibilidade de acontecimentos, é, grosso modo, o mundo das possibilidades de jogadas no nosso tabuleiro de xadrez. O limite das possibilidades do mundo quântico é o próprio limite do universo, e este limite faz parte da facticidade. Muitas das possibilidades não ocorrem por ausência de razão suficiente inerente ao exercício da consciência — e não porque essas possibilidades, que não ocorreram, estejam em contradição com outras que ocorreram.

No mundo real e das possibilidades quânticas e Leibnizianas, não se aplica o princípio da contradição: o facto de eu fazer uma coisa e não o seu contrário, depende da minha razão suficiente (do meu grau de consciência; ou seja: do meu grau de liberdade); é assunto de escolha e não está sujeito a contradição, porque o contrário daquilo que acontece é sempre possível.

“A razão suficiente inclina, sem obrigar”; equivale ao conceito de “possibilidades pesadas”, de Karl Popper. Através da persuasão, ou seja, através da razão suficiente divina, Deus inclina o Homem, sem o obrigar. E toda a razão suficiente implica a existência de uma finalidade ou causa final que, no caso do nosso jogo de xadrez, é jogar o jogo e chegar ao fim, e se possível, com uma vitória.

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6 comentários »

  1. A genialidade de Leibniz é incrível. Segundo alguns ele é o maior pesadelo para os marxistas culturais.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Domingo, 3 Abril 2011 @ 2:46 am | Responder

  2. In essence, Adorno and Benjamin’s problem was Gottfried Wilhelm Leibniz. At the beginning of the eighteenth century, Leibniz had once again obliterated the centuries-old gnostic dualism dividing mind and body, by demonstrating that matter does not think. A creative act in art or science apprehends the truth of the physical universe, but it is not determined by that physical universe. By self-consciously concentrating the past in the present to effect the future, the creative act, properly defined, is as immortal as the soul which envisions the act. This has fatal philosophical implications for Marxism, which rests entirely on the hypothesis that mental activity is determined by the social relations excreted by mankind’s production of its physical existence. retirado de The New Dark Ages

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    Comentar por shâmtia ayômide — Domingo, 3 Abril 2011 @ 2:48 am | Responder

  3. Eu considero Leibniz o maior filósofo europeu do tempo depois de Cristo.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 3 Abril 2011 @ 4:07 am | Responder

  4. Cristo era filósofo?

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    Comentar por ? — Domingo, 3 Abril 2011 @ 5:55 am | Responder

  5. […] postal anterior acerca de Leibniz, falei do princípio axiomático leibniziano da “razão suficiente” e, consequentemente, da […]

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    Pingback por Leibniz e a quântica (2) « perspectivas — Domingo, 3 Abril 2011 @ 6:19 am | Responder

  6. “Cristo era filósofo?”

    Um filósofo procura a verdade, e portanto não a conhece. Jesus Cristo conhecia a verdade, e portanto não era filósofo.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 3 Abril 2011 @ 6:34 am | Responder


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