perspectivas

Quarta-feira, 30 Março 2011

O erro de Espinoza (2)

Espinoza foi um homem que viveu e morreu sem grandeza porque não conseguiu ser diferente de uma árvore — não conseguiu vislumbrar a sua condição de miserável.

Quando Stephen Hawking, no seu último livro, afirmou que a causa do universo era o próprio universo, nada mais fez do que seguir, grosso modo, a metafísica de Espinoza. A diferença essencial é a de que Stephen Hawking baseia-se no conceito de Multiverso para justificar a infinitude material do espaço-tempo, enquanto que Espinoza concebia o universo como infinito porque não tinha os meios científicos suficientes para saber que, afinal, o universo teve um princípio e que, por isso, é finito.

Eu considero Espinoza o filósofo mais execrável de sempre. Embora o meu respeito por Nietzsche seja muito baixo, é bastante maior do que o respeito que tenho por Espinoza que está ao nível do Zero Absoluto. Tal como Nietzsche, Espinoza parte dos pré-socráticos, embora no primeiro seja Heraclito o principal mentor, e no segundo vejamos essencialmente a influência de Parménides.

Nietzsche foi um romântico, e o romantismo explica e justifica muitos dos seus excessos; o romântico adora soltar o leão da jaula para o ver saltar sobre a ovelha, mas temos que convir que o espectáculo do leão a matar a ovelha não é agradável. Já Espinoza foi um cínico, tanto no estrito senso da seita grega e do Diógenes do barril, como no sentido moderno da palavra.

A metafísica de Espinoza parte do universo — e portanto, da matéria — para a concepção de Deus, e parte por isso do preconceito da existência de um “universo infinito” que seria coincidente com a de “Deus infinito”; segundo Espinoza, Deus é infinito porque o universo é infinito (e neste sentido lógico), e ambas as realidades coincidem. Todas as indicações mais recentes da astrofísica demonstram que o universo está em expansão e que teve um início, e portanto os princípios de que parte Espinoza para a feitura da sua metafísica, estão errados.

A noção espinoseana de “substância” é o absurdo que acabou por contaminar a filosofia racionalizadora do Iluminismo. Segundo Espinoza, a “substância” é a identidade da natureza com Deus, ou seja, “é a ordem necessária do Todo” (o “Todo” que, segundo Espinoza, inclui Deus). Espinoza não poderia saber que o Todo é mais do que a simples soma das partes (holismo). A “substância” é o mecanismo do sistema do universo (vemos aqui a influência do gnosticismo), mecanismo esse que é absolutamente necessário e determinístico para o estabelecimento de uma ordem universal de que faz parte o próprio Deus. Ou seja: Deus está sujeito às leis da física que constituem a codificação inteligível da “substância” espinoseana. Stephen Hawking ou Carl Sagan não poderiam estar mais de acordo com Espinoza.

Espinoza inventou o conceito de “substância” para poder fugir ao problema da causa do universo; porém, não o conseguiu.
É sabido que a causa deixa de fora aquilo de que é a causa; a causa não pode participar da essência do seu efeito. Espinoza viu-se confrontado com um problema lógico idêntico ao que Stephen Hawking verificou quando escreveu o seu último livro: a causa não pode participar do seu efeito.
Para isso, Espinoza teve que adoptar o princípio neoplatónico e imanente da criação divina por via da emanação, embora alterando-lhe a forma: em vez da emanação neoplatónica pura e simples, estabeleceu um “monismo lógico” através do qual “a ordem necessária, constitutiva da substância, é uma ordem geométrica”. Ou seja: da substância divina — que é a ordem geométrica — brotam as coisas individuais e particulares, tal como da geometria brotam os teoremas, as conclusões e os paradigmas. Através deste truque de um emanatismo especial, Espinoza reconhece que é evidente a necessidade de uma causa para o universo, por um lado; mas, afinal, Deus não é a causa do universo, por outro lado. Stephen Hawking não estaria mais de acordo. Na metafísica de Espinoza, tudo no universo é necessário, determinístico e determinado, com excepção de uma causa propriamente dita que ele pensa não ser necessária.


A ética de Espinoza reflecte a execrabilidade da sua metafísica. Não me vou estender muito sobre esta matéria, porque de facto o homúnculo não merece.

Segundo Espinoza, e passo a citar, “quem se arrepende de uma acção é duplamente perverso ou doente”. Segue-se que, para Espinoza, um assassino em série só é doente ou perverso se se arrepender dos seus actos. Por aqui podemos ter uma noção da ética de Espinoza.

Quando, no contexto da citação supra, lhe perguntaram se ele concordaria com a acção de Nero que matou a sua própria mãe, ele respondeu que “a acção de Nero é boa naquilo que tem de boa, e má naquilo que tem de má”; ou seja, fugiu à resposta! Porém, logo a seguir diz que o bem e o mal não existem senão na cabeça dos seres humanos: porque, diz ele, aquilo que é considerado pelos homens como sendo bom e/ou mau, não tem nenhuma relevância a nível do infinito do universo.

Espinoza pensa que se virmos o sofrimento da humanidade como um encadeamento de causas do princípio até ao fim do tempo, veremos que esse sofrimento só pertence ao Homem e não ao universo, e que as tribulações do Homem são apenas minúsculos detalhes que conduzirão necessariamente à “harmonia final”. Richard Dawkins partilha exactamente da mesma opinião de Espinoza.

Porém, qualquer pessoa no seu normal juízo (mesmo os ateus inteligentes) sabe que os actos e factos particulares são o que são, e não se alteram substancialmente pela absorção num Todo. Cada acto desumano e cruel permanece indelevelmente como parte do universo (a filosofia budista e hindu, de um imanentismo mais racional do que o de Espinoza, chamou a esta perenidade das acções humanas individuais como o “Akasha”). Mais uma vez, Espinoza e Richard Dawkins estão errados.

Porém, ao mesmo tempo que fala em “harmonia final”, Espinoza diz que não existem fins, na natureza (e portanto, em Deus sive natura = substância = ordem geométrica e matemática = natureza) ; ou seja, Espinoza rejeita qualquer tese finalista através da sua “crítica das causas finais”: contudo, segundo Espinoza, existem fins (a tal “harmonia final” necessária) , mas simultaneamente não existem fins (através da sua “crítica das causas finais”). Para Espinoza, uma coisa é e não é.

Finalmente, e para termos uma noção da pobreza ética de Espinoza, temos que o confrontar com algo que lhe seja radicalmente oposto; para esse efeito, escolhi Pascal.

Espinoza considera, na sua ética, que a compaixão é a emoção humana mais degradante e negativa. Por aqui aferimos a miséria do ser humano que foi Espinoza, e damos, por isso, razão a Pascal quando este sublinhou a condição miserável do ser humano. Segundo Pascal, “a grandeza do Homem consiste unicamente em reconhecer-se miserável; uma árvore não pode reconhecer-se miserável”. Espinoza foi miserável mas recusou reconhecer a sua condição humana.

Espinoza foi um homem que viveu e morreu sem grandeza porque não conseguiu ser diferente de uma árvore — não conseguiu vislumbrar a sua condição de miserável.

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1 Comentário »

  1. Eis alguém com muito mais decência se visto com os inumeros espinozas ilógicos nessa sociedade. Você fizera meu dia, além do meu trabalho de filosofia. Eternamente grata.

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    Comentar por Brianna Hahn — Segunda-feira, 6 Maio 2019 @ 3:40 am | Responder


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