perspectivas

Terça-feira, 29 Março 2011

À falta de criatividade, chamamos “arte” a tudo

Filed under: A vida custa,cultura,Esta gente vota — O. Braga @ 10:58 am

O que aconteceria se toda a gente andasse nua na rua?

Em primeiro lugar, é certo que, com o passar do tempo, a apetência sexual diminuiria. Provavelmente, o ser humano passaria a preferir animais com pêlo. Se recuarmos ao Paleolítico superior, ou mesmo ao tempo do aparecimento do homem de Neanderthal, ficou demonstrado que eles sempre taparam as partes pudibundas.

Em segundo lugar, o Homem passaria frio, pelo menos nas regiões do norte onde uma tal Erica Simone se deixa fotografar nua nas ruas de Nova Iorque.

Diz ela que “é arte”; mas não é. É tanto arte como esta exposição que teve lugar no Porto. A nudez na arte tem a ver com um determinado consenso cultural acerca das formas e com um conceito de beleza como sendo harmonia formal. Nem tudo o que está nu é harmonioso e possui as proporções de Fibonacci. Para além disso, a arte é a representação da realidade, e não a realidade em si mesma. Se a arte fosse a realidade em si mesma, não seria humana.

5 comentários »

  1. “(…) consenso cultural acerca das formas e com um conceito de beleza como sendo harmonia formal.”
    O que torna estas imagens ARTE é a sua beleza, a mensagem subjacente em cada foto, o facto de serem únicas, etc.. A ARTE está cheia de imagens de pessoas núas (desde estátuas gregas, a quadros e fotografias) e é consensual que todas elas representam ARTE.
    Quando falamos de ARTE, estamos a emitir uma opinião muito pessoal sobre algo que admiramos. O facto de ser ou não ARTE é muito subjectivo. Onde tu não vês ARTE outros vêem traços de genialidade. O facto de não gostares deste tipo de ARTE apenas te dá o direito de dizeres isso: que não gostas. O resto, são opiniões.

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    Comentar por Duarte Botelho — Quarta-feira, 11 Janeiro 2012 @ 6:17 pm | Responder

  2. Duarte Botelho: você não compreendeu o que eu quis dizer.

    A arte não é a própria realidade: é uma representação da realidade. Não basta que apreciemos a beleza de uma mulher, por exemplo, para que essa mulher possa ser considerada “uma obra de arte”; podemos considerá-la assim, mas de uma forma metafórica.

    Por exemplo, quando você vai a um teatro, não vai lá para ver a realidade dos actores enquanto pessoas, mas antes vai lá para ver aquilo que os actores representam — a tal representação da realidade.

    Outro exemplo: uma flor não é, em si mesma, uma obra de arte, porque a flor faz parte integrante da realidade da natureza. Mas uma pintura de flor pode ser uma obra de arte, porque a pintura é uma representação da realidade.

    Por isso, uma pessoa nua, por si só, não é uma obra de arte; mas uma pintura de uma pessoa nua pode ser uma obra de arte, na medida em que é uma representação da realidade.

    Há quem diga que a fotografia, por si só, é arte — o que não é verdade. Para que uma foto possa ser considerada uma obra de arte terá que ter, em si mesma, a criatividade e a originalidade da captura da realidade, ou seja, não pode ser uma mera cópia da realidade. Por exemplo, se eu tiro uma fotografia a uma paisagem, essa foto, em si mesma, não é necessariamente uma obra de arte; o mesmo se passa com uma mulher nua.

    Uma escultura de uma pessoa nua não é uma pessoa nua: é a sua representação. E é a representação da realidade que transforma a escultura em arte.

    Jean Paul-Sartre, na esteira de Hegel, vai mais longe: “O real nunca é belo”, escreveu o francês.

    Por último, a estética — ou seja, a arte — está intimamente ligada à ética. Através dos gostos de cada um, que são subjectivos, podemos retirar um perfil ético da pessoa.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 11 Janeiro 2012 @ 8:26 pm | Responder

  3. […] A arte não é a própria realidade: é uma representação da realidade. Não basta que apreciemos a beleza de uma mulher, por exemplo, para que essa mulher possa ser considerada “uma obra de arte”; podemos considerá-la assim, mas de uma forma metafórica. […]

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    Pingback por Resposta a um comentário acerca da arte « perspectivas — Quarta-feira, 11 Janeiro 2012 @ 8:49 pm | Responder

  4. Olá O.Braga

    Antes de mais quero dizer que a minha formação académica não tem qualquer ligação à arte. Estou ligado à informática e a minha noção de arte é muito própria, baseada no senso comum. Com isto quero dizer que não espero ter razão nem verdades absolutas. Nem me passa pela cabeça começar aqui uma discussão sobre o significado de ARTE quando não tenho bases fortes para isso.
    Dito isto, gostaria de dizer o seguinte:

    É claro que não considero que uma mulher nua, por si só, possa representar arte. Do mesmo modo que uma réplica fotografada de um quadro não pode (ou pelo menos não devia) ser considerado arte.
    Considero, no entanto, que dentro de determinadas condições, pode dar-se o caso (ainda do meu ponto de vista) de se chamar arte. Obviamente que uma fotografia minha, durante as minhas férias, nada tem de arte. Mas, se levarmos em conta um determinado contexto, a dificuldade da foto, as técnicas aplicadas, a mensagem transmitida, as emoções que nos criam quando as visualizamos, tudo isso não fará parte intrínseca da beleza da uma foto e, em última análise, chamar-se de arte ?

    Eu sei que a arte é (quer se queira, quer não) elitista. Não é para todos. Não será portanto essa noção de arte, demasiado fundamentalista ?
    Um quadro pintado é arte e uma foto não pode ser ?
    Não representam ambos uma realidade ?
    O que é que um quadro pintado tem a mais que uma foto não pode ter ?

    Pegando no seu exemplo do teatro, a modelo, nas fotos, à semelhança de um actor, não está a representar ?
    Afinal, isto não é a realidade do dia a dia de praticamente ninguém (tirando praias nudistas e afins).

    Para finalizar, e em jeito de conclusão, custa-me a aceitar um conceito de arte tão limitado. Para mim o conceito de arte é muito mais flexível do que isso. E devido à sua subjectividade, parece-me muito difícil definir onde se encontram os seus limites.

    No entanto, apesar de não concordar, aceito os vossos argumentos 🙂

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    Comentar por Duarte Botelho — Quinta-feira, 12 Janeiro 2012 @ 12:01 pm | Responder

  5. Quando você diz que “a arte é elitista”, você está a confundir arte, por um lado, com o filistinismo burguês, por outro lado. Foi devido a esse filistinismo burguês e contra ele que surgiu, no princípio do século XX, o Surrealismo — o que, na minha opinião, fez decair a arte; mas isto já são outros “quinhentos”.

    A arte não é elitista, na medida em que um artista que mereça esse nome, regra geral, não é elitista. Veja a simplicidade de artistas como, por exemplo, Júlio Pomar. Porém, se as elites se apropriam da arte e a transformam em negócio, isso é filistinismo burguês [tipo Joe Berardo: pouco sabe de arte mas tem uma colecção no Centro Cultural de Belém]. Portanto, não é a arte que é elitista, mas antes é o negócio da arte é elitista.

    A palavra “génio” só se aplica a artistas. Se alguém diz, por exemplo, que “Einstein foi um génio”, trata-se apenas de uma figura de estilo ou de uma metáfora, porque a genialidade é exclusiva dos artistas.

    A arte é um pouco como uma instituição — por exemplo, o casamento: se a arte passasse a ser tudo, então a arte passaria a ser nada.

    Uma “representação da realidade” não é a própria realidade. O que significa “representação”?

    Representação é um termo que designa, a nível psicológico, qualquer imagem ou pensamento que se “forma” no psiquismo consciente, e que se supõe responder a um elemento exterior. Portanto, a representação não é o elemento exterior tal qual recebido pela nossa percepção sensorial: antes é a imagem ou pensamento que se forma no seguimento da nossa percepção sensorial.

    A arte transforma a realidade; por isso a arte não é a realidade propriamente dita, tal qual a percepcionamos através dos sentidos. Se a arte fosse a realidade, seriamos todos artistas e não haveria lugar para a genialidade.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 12 Janeiro 2012 @ 5:05 pm | Responder


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