perspectivas

Segunda-feira, 28 Março 2011

Breve história da Reforma luterana (4)

Se o luteranismo permitiu o casamento da religião com o Estado, o calvinismo permitiu o casamento da religião com o dinheiro.

Uma das características do luteranismo foi a submissão da religião ao Estado, o que ainda acontece hoje nas igrejas nacionais, como é caso da igreja sueca que não é mais do que um apêndice do Estado sueco. Pelo contrário, a Igreja Católica defendeu sempre a independência da religião em relação aos Estados, o que se acentuou ainda mais com a Contra-reforma. Mesmo durante os fascismos do século XX, a Igreja Católica conseguiu uma certa independência.

O Estado teocrático de Genebra

Genebra encontrava-se numa encruzilhada do comércio europeu, e os senhores feudais, o duque de Savóia, o clero e os bispos católicos tinham uma boa parte dos lucros do comércio. Depois de uma fase violenta, e mais uma vez por motivos económicos e políticos, a cidade de Genebra aderiu à Reforma luterana e expulsou o duque e o clero católico. Porém, dois meses mais tarde e com a entrada de Calvino na cidade, a situação alterou-se.

Calvino era natural de França (Nyon), tinha o curso de Direito mas dedicou a sua actividade à teologia e à religião. Tal como Lutero, Calvino acreditava na predestinação e no determinismo dos eleitos: segundo ele, Deus teria predestinado aos homens, desde o princípio da criação, quem seria salvo e quem seria condenado.

Esta doutrina é absurda porque a moral perde qualquer influência sobre o comportamento do Homem, visto que a salvação estaria decidida de antemão. Contudo, o efeito prático da doutrina não teve em consideração o absurdo teórico da mesma: os mais devotos e/ou quem demonstrasse maiores sinais exteriores de devoção, passavam a fazer parte dos “poucos escolhidos” por Deus. Neste sentido, o protestantismo em geral e o calvinismo em particular têm a característica de uma profecia que se cumpre em si e a si própria — tal como aconteceu com o movimento revolucionário, a partir do século XIX !

O protestantismo em geral, e o calvinismo em particular, tinha um sistema imunológico incorporado muito eficiente: por exemplo, quem fosse perseguido por ser calvinista estaria automaticamente no rol restrito e elitista dos eleitos por Deus — ou seja, a preocupação principal não era a de criticar as perseguições aos calvinistas, mas era a de sublinhar a eleição divina em relação a quem era perseguido. Os calvinistas desenvolveram uma consciência de elite dos virtuosos, e consideravam-se literalmente como uma “comunidade de santos”. Quem os perseguia, só os fortalecia, tal como a amizade paradoxal numa relação sado-masoquista.

Em Genebra, Calvino tornou-se num aiatola protestante e instaurou um regime teocrático. Entre os anos de 1541 e 1564, talvez a única utopia realizada no mundo teve lugar em Genebra. A partir desta cidade, a utopia propagou-se à Holanda, à Inglaterra e aos Estados Unidos. Tal como a Sharia islâmica, a lei e o Direito da comunidade calvinista estavam escritos na Bíblia.
A interpretação da lei (ou seja, da Bíblia) era da responsabilidade dos pastores e dos anciãos presbíteros. A autoridade suprema da cidade de Genebra era o Consistório religioso que fiscalizava o governo profano. A assistência à missa tornou-se obrigatória sob pena de prisão. O divertimento passou a ser proibido.

A música profana foi proibida; a dança foi proibida; o teatro foi proibido; até o jogo aos dados foi proibido. As tabernas foram fechadas. Foi regulamentado o número de pratos que poderia compor uma refeição privada, a culinária nas casas particulares passou a ser censurada e vigiada, alegadamente para evitar excessos. A luxúria, o adultério, as blasfémias e a idolatria eram punidos com a pena de morte, e sem possibilidade de apelo ou remissão. Porém, Calvino liberalizou o empréstimo do dinheiro a juros — e esta é a única grande diferença entre a Genebra teocrática de Calvino e o regime iraniano dos aiatolas.

As principais características do calvinismo demonstram a aproximação da religião em relação ao Judaísmo, e o seu afastamento das influências da filosofia grega no Cristianismo e tal como acontecia na Igreja Católica, a ver: a) consideravam-se o povo eleito; b) a orientação moral fazia-se, não pela consciência, mas pela lei; c) a permissão de emprestar dinheiro a juros. Neste último ponto, o luteranismo afastou-se sensivelmente do calvinismo.

O regime de Calvino em Genebra foi totalitário — tal como é totalitário o regime iraniano do Mad Jad, ou o regime da Arábia Saudita, e tal como são totalitários os regimes comunistas / marxistas. Os anciãos e os pastores calvinistas policiavam os costumes, fora e dentro de todas as casas particulares. Faziam visitas frequentes às casas das famílias e, nessas ocasiões, procediam a interrogatórios de tipo policial; e se detectassem irregularidades, os culpados ou eram presos ou condenados à morte (no caso dos crimes mais graves), ou eram expulsos da cidade (no caso dos crimes menos graves).

Se o luteranismo permitiu o casamento da religião com o Estado, o calvinismo permitiu o casamento da religião com o dinheiro. O filósofo alemão Max Weber, no seu livro “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, explicou muito bem este fenómeno.

Parte I
Parte II
Parte III

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