perspectivas

Domingo, 27 Março 2011

Breve história da Reforma luterana (3)

Nos dois postais anteriores (ver em rodapé) vimos como Lutero não teria tido sucesso senão por causas económicas e através do apoio político directo e explícito do príncipe Frederico de Saxe. Vimos também que o luteranismo deturpou algumas ideias de Santo Agostinho sobre a graça divina, e estabeleceu um “determinismo dos eleitos”, o que era próprio dos movimentos gnósticos da antiguidade tardia.

O anabaptismo

A partir do exemplo dissentâneo do luteranismo, surgiram uma série de outros movimentos gnósticos, e o primeiro deles foi o anabaptismo, que se organizou na Suíça pouco depois de Lutero ter feito valer as suas 95 teses.

Para além da característica gnóstica do “determinismo dos eleitos”, o anabaptismo assumiu ainda outras características gnósticas antigas (que o luteranismo rejeitou): a vivenciação escatológica (acreditavam que a vinda de Jesus Cristo estava iminente, o que reflecte uma imanentização escatológica típica dos movimentos revolucionários modernos), e o incentivo cultural à desobediência civil em relação às leis emanadas pela sociedade — temos aqui a génese do movimento revolucionário que eclodirá, primeiro, no século XVII com Hobbes e com a revolução inglesa, e depois e em todo o seu esplendor, no século XVIII com a revolução francesa.

Para além destas características especificamente gnósticas, existia dentro do anabaptismo uma forte tendência cultural para a adopção da poligamia e para um comunismo utópico. Devido a estas características, os anabaptistas passaram a ser perseguidos, tanto por católicos como por luteranos.

Os anabaptistas assumiram posteriormente nomes diferentes: Menonitas (a partir do nome do holandês Menno Simons), e depois de terem sido perseguidos na Holanda, emigraram para os Estados Unidos (Pensilvânia) onde existem hoje com o nome de “Amish” (para quem viu o filme “A Única Testemunha”). Outros sobrevivem ainda hoje na região suíça de Emmental e na região de Jura, em Berna, Suíça, em volta da localidade de Bellelay.

A rebelião anarquista dos anabaptistas, para além de ter sido uma consequência da rebelião luterana contra a Igreja Católica, foi o prenúncio do fundamentalismo democrático que mais tarde animaria os calvinistas holandeses, os puritanos ingleses e os pilgrim fathers americanos. O movimento gnóstico estava já em progressão, rumo à modernidade do horror revolucionário.

Parte I
Parte II

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