perspectivas

Sexta-feira, 4 Março 2011

Sobre o Cristianismo, a Igreja Católica e a pena de morte

Uma característica dos cristãos protestantes em geral, e de uma parte dos católicos, é a ideia segundo a qual o Cristianismo se resume e se atém estritamente à Bíblia. No fundo, transformam o Cristianismo numa religião do Livro, tal qual o é o Islamismo. Porém, o Cristianismo é a religião da Palavra, e não a religião do Livro. Devido a esta “islamização do Cristianismo” é que surge a defesa da pena de morte por parte de quem se assume como cristão. Um cristão que defenda, hoje, a pena de morte é uma espécie de “cristão islamizado”.


Vejamos, por exemplo, este artigo; e comecemos pelo primeiro ponto ou primeira objecção. Nesta, confunde-se aquilo que é acidental (segundo a concepção aristotélica de acidente), ou seja, aquilo que acontece independentemente da nossa vontade pessoal e privada, por um lado, com aquilo que acontece mas que depende da nossa vontade e juízo, por outro lado.

A ocorrência de um acidente de automóvel pode não depender da nossa vontade e do nosso juízo; por exemplo, eu posso vir no meu carro, direitinho e dentro da lei, e um outro carro vir embater no meu. Neste caso, eu não sou responsável pela tragédia do acidente. Mas se eu defender a pena de morte, eu passo a ser co-responsável, em consciência, pelo assassínio de um outro ser humano.

E depois, repare-se no argumento jurídico (“Abusus non tollit usum”) aplicado à ética, em vez de ser a ética aplicada ao Direito: é o reviralho total. Poderia ir, ponto por ponto, rebater todos os argumentos, mas seria prolixo, porque estamos perante alguém que substituiu a religião da Palavra pela religião do Livro — estamos em presença de um cristão islamizado.

Eu sou contra a pena de morte porque Jesus Cristo era contra a pena de morte. E quem defende, hoje, a pena de morte é contra Jesus Cristo — ou seja, quem defende, hoje, a pena de morte não é cristão.

Porém, sou a favor da prisão perpétua para alguns crimes hediondos, como por exemplo, o assassínio em série. E o argumento segundo o qual “estamos a sustentar os presos”, não colhe, porque os presos podem trabalhar nas prisões.


Dito isto, vamos ao famigerado §2266 do Catecismo da Igreja Católica: o professor Felipe Aquino explica bem o que esse artigo, de facto, significa. Na Idade Média não existiam prisões de alta segurança, e por isso a Igreja Católica considerou a pena de morte como um mal menor e necessário. Hoje já temos prisões de alta segurança, e por isso a pena de morte já não tem uma justificação prática e racional. Hoje, ser a favor da pena de morte, para além de ser uma posição contra Jesus Cristo, é não seguir a Razão.

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2 Comentários »

  1. Eu sempre desconfio de textos que afirmam que “Jesus não era a favor da [adicionar o argumento mais favorável]“. Apesar da História dizer o contrário, e inclusive as palavras de Jesus Cristo enveredarem para uma aprovação ou, no máximo, uma neutralidade quanto a essa questão, fiquei curioso para saber em quais circunstâncias o Mestre refutou a pena de morte.

    Comentário por Filipe — Sexta-feira, 4 Março 2011 @ 4:07 pm | Responder

    • O seu comentário passou, mas provavelmente não voltará a passar outro.

      A sua hipocrisia não tem limites: se você é contra o aborto, porque é cristão e a vida humana é considerada sagrada, é de uma hipocrisia sem nome que você defenda, simultaneamente, a pena de morte. Você é hipócrita.

      Sobre a opinião de Jesus Cristo, veja: João, 8:3-11 (só para dar um exemplo).

      Se você apoia a pena de morte, então você também apoia a pena de morte sentenciada contra Jesus Cristo, na medida em que ele foi considerado criminoso pela lei dos homens. Você é a favor da supremacia da lei dos homens sobre a lei divina.

      O Antigo Testamento não é o principal guia dos cristãos. Quem considera o Antigo Testamento o principal livro do Cristianismo deveria mudar de religião e abraçar o Judaísmo. Os livros dos cristãos são os evangelhos sinópticos.

      Portanto, aconselho você a mudar de religião, para que deixe de ser hipócrita.

      Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 4 Março 2011 @ 4:21 pm | Responder


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