perspectivas

Segunda-feira, 21 Fevereiro 2011

A “Direita Revolucionária”

A “direita revolucionária” utiliza o conceito de “vontade geral” de Rousseau — como podemos ver neste artigo acerca de Alain de Benoist — para questionar a democracia parlamentar de tipo ocidental, da mesma forma que a esquerda totalitária utiliza o dito conceito de “vontade geral” para justificar o seu totalitarismo e, de modo semelhante, os partidos políticos ditos democráticos (como por exemplo, o Partido Social Democrata, Partido Socialista, ou CDS) também utilizam a “vontade geral” de Rousseau para governar sem referendos.

O conceito de “vontade geral” é “pau para toda a colher” e é, de facto, uma forma de tornar democrático um sistema político que não o é. A “vontade geral” é a base de uma democracia que o é apenas formalmente. Por exemplo, quando José Sócrates e a maioria para-lamentar de esquerda decretaram o “casamento” gay, actuaram em nome de uma alegada “vontade geral” que não coincide, de facto, com a vontade popular.

Uma das características da direita revolucionária é que perfilha o conceito de “vontade geral” de Rousseau e incorpora-o no seu ideário de acção política — tal qual os revolucionários de esquerda fazem. Por exemplo, quando os neocons americanos defendem a imposição do modelo democrático ocidental em países islâmicos, fazem-no em nome de uma suposta e existente “vontade geral”, como vimos recentemente no Egipto. Se escutarmos com atenção os me®dia , a revolta egípcia é feita em nome de uma difusa e indefinida “vontade geral”, que ninguém sabe muito bem de onde vem e quem a defende, e que, em última instância, servirá para que um novo sistema totalitário possa vir a ser justificado.

A partir do momento em que o conceito de “vontade geral” é desconstruído e demolido, os movimentos revolucionários são feridos na sua racionalidade e legitimidade.


O conceito de “vontade geral” de Rousseau não é a mesma coisa que “vontade popular”, ou “vontade da maioria”, ou mesmo a “vontade de todos”. A “vontade geral” de Rousseau acaba por ser apenas e só a vontade da classe política.

Rousseau baseou-se na filosofia política de Hobbes que considerou a sociedade civil com uma pessoa — com tudo o que isso implica: personalidade, carácter, vontade, etc. E a vontade dessa pessoa colectiva (segundo Rousseau) é resultante da soma das diferenças existentes entre os cidadãos. Vamos ver o que nos diz Rousseau:

«Se quando o povo, bem informado, toma deliberações, os cidadãos não comunicam entre si, a soma das pequenas diferenças daria sempre a “vontade geral” e a decisão seria boa.» — “Contrato Social”, Livro III, cap. I

Desde logo, pode causar estranheza como se pode estar bem informado sem que exista comunicação entre os cidadãos. E depois, a “vontade geral” é a anulação — e mesmo a erradicação — dos interesses individuais divergentes; aquilo que me separa do meu vizinho é anulado ou erradicado. As minhas opiniões particulares, se diferentes da opinião da “vontade geral”, só têm legitimidade de expressão na privacidade da minha casa; fora de minha casa, tenho que seguir a ideologia da “vontade geral” (ou seja, a vontade da classe política organizada). Escreve Rousseau: “Isto [a obediência à “vontade geral”] significa nada menos do que obrigá-lo [ao cidadão] a ser livre”.

Reparem bem: obrigar alguém a ser livre! A única forma segundo a qual podemos conceber a ideia de que podemos obrigar um cidadão adulto a ser livre, é considerá-lo, à partida, como sendo um mentecapto. Nasceu aqui a ideia politicamente correcta do cidadão mentecapto e da classe política elitista que impõe a sua vontade às bestas. Esta ideia de liberdade, segundo Rousseau, foi religiosamente desenvolvida por Hegel, que considerou a liberdade apenas e só como uma espécie de “direito de obedecer à polícia”.

A ideia de “vontade geral” de Rousseau está na base da acção dos movimentos revolucionários e dos totalitarismos da modernidade — incluindo a “direita revolucionária”. Em nome da legitimidade da “vontade geral”, Rousseau condena a existência de comunidades da sociedade civil, escrevendo: “Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações”. Para Rousseau, o associativismo é o diabo. O Estado deve ser plenipotenciário, e as relações políticas devem existir apenas entre o Estado e o cidadão atomizado.

O conceito moderno de Estado laico (que se transforma rapidamente em Estado ateísta) deriva desta aversão irracional às comunidades da sociedade civil; o Estado tende a reprimir as igrejas — com excepção da religião estatal oficial e civil, que no caso português, é a maçonaria. Em casos extremos da aplicação do conceito de “vontade geral”, os partidos políticos são proibidos, bem como sindicatos e outras associações da sociedade civil; temos aqui o nazismo e/ou o comunismo.

Para Rousseau, a democracia é uma aristocracia electiva — que é o que temos hoje em Portugal. E a “vontade geral” é a vontade dessa aristocracia eleita. A esta aristocracia, é permitido legislar a seu bel-prazer sobre matérias de que não recebeu legitimidade directa do povo para o fazer. E decorrendo desta arbitrariedade aristocrática, uma democracia pode facilmente descambar em uma qualquer forma de totalitarismo — quanto mais não seja o totalitarismo suave do politicamente correcto a que assistimos hoje.


Voltando a Alain de Benoist, a sua linha de pensamento é uma vergôntea do conceito de “vontade geral” de Rousseau. A sua crítica à democracia representativa (ainda que esta seja formal e aristocrática) implica a defesa dos totalitarismos — as duas coisas estão relacionadas. Alain de Benoist parte do princípio elitista e revolucionário da validade da mentecapcia do povo. Quando Alain de Benoist defende o paganismo e critica o cristianismo, incorpora em si mesmo os valores do nazismo e do comunismo.

Em conclusão, podemos dizer que o conceito de “direita revolucionária” é um absurdo (contraditório nos termos); não existe. Alain de Benoist é apenas uma consequência do movimento revolucionário que é intrinsecamente de esquerda.

1 Comentário »

  1. Muammar Al-Gaddafi subiu no telhado: http://t.co/th5h9DY

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    Comentar por bertagna — Terça-feira, 22 Fevereiro 2011 @ 3:15 am | Responder


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