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Domingo, 30 Janeiro 2011

Sobre o casamento e a Igreja Católica

Filed under: cultura,curiosidades,Maçonaria,Política — orlando braga @ 11:36 am
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Não foi a Igreja Católica que se apropriou do casamento; foram a política, os interesses seculares e a reforma protestante que forçaram a Igreja Católica a rever as suas práticas primordiais em relação ao casamento.

O movimento revolucionário tem, desde sempre, acusado a Igreja Católica de se ter “apropriado” da instituição do casamento. Esta invectiva foi utilizada recentemente pelo esquerdalho e pela maçonaria para impôr a nova lei do divórcio unilateral na hora e o “casamento” gay. Convém dizer que a Igreja Católica não se apropriou do casamento, mas foi a política e o mundo secular que exigiram da Igreja Católica uma mudança de atitude em relação ao casamento, mudança essa feita em 1563, no concílio de Trento. Contudo, as mudanças adoptadas pelo concílio só foram assimiladas pela cultura europeia no dealbar do século XVIII.

Antes de 1563, vigorava na Europa a doutrina dos teólogos do século XI e XII, que consistia basicamente no conceito de que o acto do casamento não era propriamente um sacramento, mas um acto sacramentado, ou seja, era uma junção do sagrado e do profano. Para a teologia católica desse tempo, um casamento era sacramentado e válido, do ponto de vista do Cristianismo, desde que houvesse mútuo consentimento entre uma mulher e um homem, em que este tivesse capacidade de sustentar uma família, e desde que fossem proferidas determinadas palavras adequadas ao acto de casamento. Não era mesmo necessária a presença de um Padre para sancionar o casamento cristão nestes moldes.

Por isso é que quem queria a presença de um Padre, recorria aos seus serviços na paróquia local, mas a cerimónia de casamento era feita à porta da igreja (ou no adro da igreja), e não no altar da igreja como passou a ser depois de 1563. O facto de a cerimónia do casamento se realizar à porta da igreja e não dentro dela, revelava exactamente que a cerimónia do casamento era considerada pela Igreja Católica como um acto sacramentado, e não como um sacramento propriamente dito. Depois da cerimónia à porta da igreja, e já depois de casados, os noivos entravam na igreja para celebrarem a missa, na companhia do Padre e dos convidados; separava-se, assim, o profano do sagrado.

O beijo de José e Maria, à porta do templo de Jerusalém --- fresco de Giotto na Capela de Scrovegni, em Pádua

Portanto, o casamento era considerado pela Igreja Católica como um acto eminentemente social, sujeito a bênção religiosa, e não propriamente como um sacramento como era o caso do baptismo.

Na Idade Média, era relativamente vulgar que as cerimónias de casamento se realizassem em notários — com excepção de Espanha a partir dos reis católicos. Esses casamentos em notários não tinham, obviamente, a presença de um sacerdote católico. Contudo, esses casamentos eram considerados válidos e sacramentados pela Igreja Católica desde que o ritual da cerimónia incluísse determinadas palavras adequadas e recomendadas pela Igreja Católica. A doutrina do Ritual Romano defendia a ideia de que o contrato de casamento com a pronúncia de determinadas palavras adequadas à cerimónia, e seguido da sua consumação (copula carnis), constituía um casamento cristão.

A alteração da doutrina da Igreja Católica sobre o casamento, a partir de 1563, resultou de pressões políticas e seculares em relação à Igreja Católica, e não o contrário disto. A Igreja Católica foi obrigada pela política — e pela Reforma luterana — a alterar a sua doutrina.

A partir de determinada altura (século XIII), a política passou a criticar a Igreja Católica por causa dos casamentos ditos “clandestinos” que, para a Igreja Católica, não eram considerados como tal. O problema da política e do mundo secular, em relação à doutrina católica vigente, estava relacionado com as heranças. Se dois jovens se dirigissem a um Padre para se casarem sem consentimento dos pais, e se o Padre verificasse que os jovens tinham idade suficiente e as outras condições necessárias para se casarem, a Igreja Católica validava esse casamento. Ora isto não interessava à política nem aos interesses seculares, exactamente por causa da transmissão de heranças. Para a Igreja Católica não existia o conceito de “casamento clandestino”, nos moldes em que esse conceito existia para o mundo da política e do secularismo.

Neste ambiente de relativo conflito entre o mundo secular e político, por um lado, e a Igreja Católica, por outro lado, Lutero avança com a Reforma protestante e estabelece como lei a abolição do casamento sem consentimento dos pais — indo assim ao encontro dos interesses seculares e políticos. Lutero aprovou a ideia secular e política de que as heranças deveriam ser determinadas pelos pais dos nubentes depois daqueles terem aprovado o casamento. Segundo Lutero, qualquer “casamento clandestino” seria considerado inválido.

Em França, o rei católico Henrique II segue o exemplo de Lutero e publica uma lei segundo a qual os “casamentos clandestinos” deixam de ser válidos. A pressão política e secular, por um lado, e o aproveitamento político da situação feito por Lutero, por outro lado, forçaram a Igreja Católica a rever o seu Ritual Romano — no que respeita ao casamento — no concílio de Trento, e a partir de 1612 os casamentos católicos deixam de ser celebrados à porta da igreja e passam a ser celebrados no altar da igreja.

Portanto, não foi a Igreja Católica que se apropriou do casamento; foram a política, os interesses seculares e a reforma protestante que forçaram a Igreja Católica a rever as suas práticas primordiais em relação ao casamento.

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5 Comentários »

  1. … Muito honestamente, não tenho partido nem sou religioso. Não porque não pense ou esteja indeciso, mas porque não encontrei, ainda —relativamente à política— gente que me inspirasse confiança, quer pela inteligência, quer pela seriedade; percebendo eu, embora, não faltar quem seja suficientemente esperto.

    Outra coisa: e há essa lacuna das pessoas que pensam ser de “esquerda”. Umas porque, sinceramente, acreditam, até ao dia em conseguem a sua tranche; outras, porque lhes dá jeito que pareçam, apesar de viverem como nababos. É a essa gente, inclusive, que se deve a situação do país; porque foram elas quem criou as expectativas de Abril, o mesmo Abril que, enquanto impedido, escondeu varas e varas de porcos. Não sou eu quem o diz, é a realidade. Estarei a ser injusto com algumas pessoas? Não. Porque essas, poucas, têm a consciência tranquila.

    Estaria disponível, se fosse cidadão de outro país?… Não sei. Enquanto português e com a perspectiva que tenho, a partir daqui, algum esforço teria que ser feito para que a Humanidade se reabilitasse e eu pudesse admitir que as pessoas de bem —bem intencionadas, entenda-se— podem sobrepor as suas razões ou discutir por elas, sem sofismas… mas o Instinto é o Diabo! —para passar à fase seguinte:

    Sobre Deus —quem quer que ele seja—, tenho, realmente, dificuldades em me pronunciar. Para dizer que não existe, teria que ter provas da sua inexistência; embora, até hoje, ninguém tenha conseguido provar-me ser a sua existência um facto. Estou, até, a tentar escrever um livro cujo título —se tiver maturidade para o escrever— é “EM DEFESA DE DEUS”; exactamente por o achar vítima das expectativas que lhe atribuem, quando, dentro de cada um, há ferramentas de que não se faz uso.

    Preocupa-me isso?… Até ver, não. Tem-me bastado fazer uso do senso e perceber que devo, aos outros, o respeito pelo seu espaço, do mesmo modo que espero —antes que eu exija— que respeitem o meu. E isso é o quê?

    Fui sempre avesso ao associativismo. Nunca me filiei em qualquer partido, na esperança de fortalecer a minha posição e colher dividendos; tenho esperado evoluir através da procura do conhecimento e de conhecimentos que me ajudem a melhorar a minha capacidade de trabalho. Admitindo tratar-se de um pensamento arcaico, não me importo, porque —seja Deus quem e/ou que for—, cedo deduzi que, se fosse para hipotecar o meu pensamento aos outros, certamente teria poupado na matéria e me faria sem cabeça.

    Então, e definitivamente, dentro do que é possível, eu sou o meu Deus e o meu governo; disponível, naturalmente, para discutir ideias, porque nem mesmo Deus —seja quem ou o que for— conseguiu ter o controlo dos seus inventos, ou o Diabo não se revoltaria, porque viveria num Mundo —Universo— perfeito.

    Aliás, quando, por diversas vezes, me falaram e me leram a Bíblia, eu tive o cuidado de dizer, com todo o respeito, que se trata da sinopse de um filme que não pode ser realizado, independentemente da beleza poética e da intenção dos seus escritos —se houver dúvidas, sugiro que me provem que a Humanidade não é a mesma, desde o princípio… Já sei que usa telemóvel e outras tecnologias de ponta. E daÍ?… O que é que as pessoas procuram? Maioritariamente, felicidade e posse. Como?… Não me respondam; olhem e digam-me se algum Deus se revê nisto.

    Quando casei, não casei pela Igreja. Casei pelo registo. O que, para mim, já ultrapassou o suficiente, porque nunca eu tive, relativamente ao casamento —que nem fazia parte dos meus projectos—, a ideia de um negócio; bastava-me o sentimento que nos compromete, até que, por razões de vária ordem, a comunhão de espaço deixe de fazer sentido —lamento os homens e mulheres que, por causa dos bens e, nalguns casos, pior ainda, das aparências— vivem vidas de sofrimento, porque não se suportam, mas não querem ter prejuízo.

    De qualquer modo, tendo eu o entendimento que tenho das religiões —quaisquer—, não vejo que uma religião —neste caso a Católica— não possa proclamar como seu o direito ao casamento como cerimónia religiosa, se, digamos, o fundou. Mais, ainda, cabe-lhe o direito de estabelecer os trâmites; os quais decidem que o mesmo casamento só pode acontecer entre dois indivíduos heterossexuais.

    Mesmo havendo, dentro da Igreja, homossexuais?… Mesmo assim, porque estou a falar de princípios estabelecidos, embora saibamos que, ateus, agnósticos ou crentes —crentes, no sentido religioso, porque eu tenho fé—, todos estamos condenados a, uma vez ou outra, no mínimo, ser incoerentes.

    Ora, se eu já acho o casamento, entre heterossexuais, pela Igreja, um fetiche, por que razão o clã gay —dito “avant garde”— haveria de ver justificado o anseio de usufruir da mesma prerrogativa?… Po que haveriam de querer o êxtase, pelo ridículo?!

    Não me baseio, sequer, na tradição, mas no senso. Seria o mesmo que, não sendo advogado, alguém quisesse, por direito, pertencer à Ordem dos Advogados. E a Igreja é, como as ordens e/ou as federações, uma associação com estatutos;os quais, necessariamente e, mesmo, na especificidade, não podem sobrepor-se à lei geral —já sei! a Lei do casamento entre indivíduos do mesmo sexo foi aprovada. Mas eu estou em crer que, mais tarde ou mais cedo, os promotores da ideia acabarão por ir ao psiquiatra —ou já lá andam, porque a Natureza não perdoa.

    Comentário por Rodrigo Costa — Domingo, 30 Janeiro 2011 @ 11:54 pm | Responder

  2. “A história moderna é o diálogo entre dois homens: um que crê em Deus, e outro que se crê deus.”
    — Nicolas Gomez Dávila

    Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 31 Janeiro 2011 @ 8:36 am | Responder

  3. … Francamente, não acho necessário crer-mo-nos deuses. Será estúpido, todo aquele que se julgar deus, no sentido da omnipresença, da omnisciência e da omnipotência. Nem Deus —a existir— é omnisciente e omnipotente. De outro modo, a Humanidade teria outros contornos e não o surpreenderia ou contrariaria; e nem Jesus teria necessidade de ser enviado, deixando, como sinal revitalizado pelo insucesso, a ideia de que Deus tem limites.

    Quando me digo o “meu Deus”, limito-me a assumir a partícula que de Deus(?) há em mim, conferindo-me a autonomia, pelo uso do senso, que, como compreenderá e aceitará, eu nunca poderia monopolizar. Está, no libre arbítrio de cada um aceitar ou rejeitar o que Deus(?)lhe oferece.

    nota: o último que se julgou deus —assim parece— perdeu com o Osasuna :-).

    Comentário por Rodrigo Costa — Segunda-feira, 31 Janeiro 2011 @ 1:24 pm | Responder

  4. Eu escrevi “deus” com letra minúscula, para não se confundir com Deus Omni-qualificado. O deus a que me refiro é o deus pagão, que não tem as características do Outro.

    Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 31 Janeiro 2011 @ 1:54 pm | Responder

  5. Esse lance da “partícula divina” é visã de gnósticos e pagãos, que criaram toda uma filosofia para, no fim das contas, dizer que são deuses..assim já dizia também Heráclito “Todo homem tem uma centelha divina dentro de si”.

    Comentário por alice — Terça-feira, 1 Fevereiro 2011 @ 5:13 pm | Responder


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