perspectivas

Terça-feira, 25 Janeiro 2011

A fé irracional dos revolucionários e a nova censura ideológica

«A civilização pode, de facto, avançar e declinar em simultaneidade ― mas não para sempre. Existe um limite em relação ao qual se dirige este ambíguo processo; o limite é alcançado quando uma seita activista que representa a verdade gnóstica, organiza a civilização em forma de um império sob seu controlo. O totalitarismo, definido como o governo existencial dos activistas gnósticos, é a forma final da civilização progressista.»

Eric Voegelin ― “The New Science of Politics”

A revolução gnóstica inglesa está em curso; a City de Londres tem os seus dias contados.

Aconselho a leitura deste artigo em que se fala de um livro de Sean Gabb acerca da Inglaterra actual. Eu não concordo, em muita coisa, com as ideias de Sean Gabb;por exemplo: quando ele defende que a legalização da venda de drogas, nada mais faz do que corroborar o status quo neomarxista em que vive o seu país e que ele próprio critica — ou seja, ele entra em contradição. Porém, não posso deixar de concordar com as suas ideias expressas nesse artigo.


Sean Gabb fala em rulling class (classe governante) que é composta essencialmente por intelectuais orgânicos (intelectuais ligados a partidos ou movimentos políticos), políticos de carreira, burocratas não eleitos que ocupam posições-chave na administração do Estado, os me®dia, e os interesses económicos e financeiros. Para simplificar, chamemos à rulling class simplesmente “a elite”.

A elite resulta de uma partilha de interesses e de compromissos políticos entre, por exemplo, o intelectual orgânico neomarxista mais empedernido e ortodoxo, por um lado, e o plutocrata mais agiota da alta finança da City de Londres, por outro lado. A elite partilha os seus interesses, tendo como base a noção marxista de dialéctica triádica que advém de Hegel (tese, antítese e síntese). Ou seja, a Inglaterra actual resulta da “síntese das contradições dialécticas” (linguagem marxista) e dos compromissos entre forças sociais (alegadamente) diametralmente opostas. Sean Gabb conclui que não existe, em Inglaterra, uma revolução gramsciana em curso, mas que essa revolução já ocorreu, e que talvez não possa já acontecer uma contra-revolução.


Partindo do princípio de que essa revolução gramsciana já ocorreu em Inglaterra, qual é o resultado prático e visível dela?

Há alguns sinais bem visíveis dessa revolução neomarxista: por exemplo, a perseguição cultural e política ao Cristianismo, a propaganda cultural a favor da homossexualidade e do seu comportamento sexualmente promíscuo, a implementação, por parte do Estado, de uma prática política baseada no conceito de “tolerância repressiva” de Herbert Marcuse, o policiamento do pensamento e da opinião, etc.

O tipo de censura gramsciana (ou politicamente correcta) existente actualmente em Inglaterra, no Canadá, e nos países do norte da Europa em geral, difere em muito do tipo de censura estalinista ou salazarista. Não estamos hoje em presença do “lápis azul” da censura tradicional. Por exemplo, no tempo de Salazar, um jornal poderia sair com uma notícia do género : “Os rumores que circulam segundo os quais as tropas portuguesas sofreram baixas consideráveis em Angola, são absolutamente falsos. Para um leitor minimamente esclarecido, esta notícia significava o seguinte: “Os rumores que circulam segundo os quais as tropas portuguesas sofreram baixas consideráveis em Angola, são absolutamente verdadeiros. Ou seja, no tipo de censura salazarista ou estalinista, era possível fazer passar a mensagem da oposição política de uma forma subliminar e “entre-linhas”.

A censura gramsciana e politicamente correcta actua de forma diferente, porque utiliza as comissões burocráticas de direitos humanos (e diversas ONG), tuteladas pelo Estado e controladas por activistas ideológicos e políticos, que procuram exacta, específica e exclusivamente as mensagens que tenham alegadamente uma possível interpretação “entre-linhas”.
A interpretação das “entre-linhas” dos discursos, por parte desses activistas ideológicos, é totalmente arbitrária e discricionária, e esses activistas ideológicos — apoiados pelas comissões de direitos humanos tutelados pelo Estado — têm o poder de montar julgamentos em praça pública e nos quais a asserção das suas verdades politicamente correctas não tem defesa possível — ou seja, o politicamente correcto julga o cidadão sem ter em consideração a presunção de inocência.

De certa forma, o tipo de censura politicamente correcta assemelha-se à Inquisição medieval, em que a absolvição ou condenação era, muitas vezes, totalmente arbitrária. Daí que seja pertinente utilizar, por exemplo, o termo “Ingaysição” quando se fala na censura gayzista a qualquer tipo de opinião contrária ao comportamento promíscuo gay.

Esse activismo ideológico neomarxista é uma fé fanática (fideísmo); estamos em presença de uma religião política que exige o fanatismo de uma fé.
Convém dizer que nem toda a fé é fanática — por exemplo, eu defendo para mim uma fé cristã racional, na linha de S. Tomás de Aquino. Podemos dizer que existem dois tipos de fé: uma irracional (fideísmo) e outra racional (que é aquela que tem a realidade objectiva em devida conta).

A “fé” do marxista cultural (ou neomarxista, ou politicamente correcto) é fanática e não pode ser de outro modo, porque exige necessariamente o enviesamento da interpretação da realidade; só um fanatismo fideísta pode sustentar a obliteração ou o enviesamento da realidade objectiva, e a interpretação delirante a partir de factos concretos. Ora, este fanatismo da religião política marxista (uma sequela cultural do puritanismo Calvinista que invadiu o norte da Europa depois da reforma luterana) não tem limites na sua arbitrariedade e discricionariedade, de onde podemos concluir que, ao contrário do que defende Sean Gabb, a revolução cultural inglesa está em curso, e longe de ter chegado ao seu fim.

Toda a revolução neognóstica acaba inexoravelmente em um totalitarismo, que é (por definição) imposto a todos os níveis da sociedade, incluindo o controlo da economia. A revolução gnóstica inglesa ainda está em curso; a City de Londres tem os seus dias contados.

«A morte do espírito é o preço do progresso. Nietzsche revelou este mistério do apocalipse do Ocidente quando ele anunciou que Deus estava morto e que Ele tinha sido assassinado. O assassínio gnóstico é cometido por homens que sacrificam Deus à civilização. Quanto mais as fervorosas energias da humanidade são lançadas num grande empreendimento de salvação através uma acção imanente e terrena, mais se afastam os humanos, que assim se envolvem nesse empreendimento, da vida espiritual. E dado que a vida do espírito é a imediata fonte da Ordem humana e da sociedade, o sucesso da civilização gnóstica é a própria causa do declínio da sociedade.»

Eric Voegelin ― “The New Science of Politics”

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: