perspectivas

Terça-feira, 18 Janeiro 2011

A metafísica negativa europeia

Existe, entre as “elites” europeias, uma espécie esquizofrenia que dissocia a cultura da política, sendo que existe um consenso alargado na cultura e uma divergência radical na área económica.

No programa de ontem “Prós e contras” da Fátima Campos Ferreira, pudemos ver a perplexidade estampada nas seis pessoas convidadas a participar no programa; a maioria delas estava estupefacta (ou estúpida ante os factos) perante a evolução que a União Europeia leva. Entre os seis, houve apenas uma pessoa lúcida (não me lembra o nome do economista) que foi a que defendeu a ideia de que, a médio prazo (se não for antes), o Euro vai desaparecer.

A pessoa que mais acerrimamente quis contrariar o cenário de dissolução da utopia política europeia foi o Carlos Magno, mas também é verdade que, na defesa da sua ideia de unificação política e federalista da União Europeia, ele referiu-se (pelo menos) três vezes às posições assumidas nesta matéria pelo filósofo marxista cultural Juergen Habermas. Temos que convir que o marxismo cultural, aliado ao clube de Bilderberg, é fraca argamassa para a construção da casa europeia, mas a “elite” cultural de que faz parte o Carlos Magno nunca o compreendeu nem compreenderá (burro velho não toma andadura).

Para além das especulações políticas e económicas, a Fátima Campos Ferreira tem esquecido sistematicamente o mais importante : a pergunta radical : como foi que, na Europa, se chegou a esta situação ?

Num passado muito recente e no tempo que se seguiu imediatamente à queda do muro de Berlim, a Europa lidava com valores civilizacionais, e protegeu esses valores. Por isso é que os líderes europeus de há 20 anos traçaram em conjunto a comunhão desses valores em uma pan-Europa, e desses valores fazia parte a democracia mas também a ética que se decanta dos valores cristãos — quer queiram o Carlos Magno e os “outros”, quer não queiram.

Porém, alguns desses lideres políticos do princípio da década de 90, como por exemplo Mitterrand ou Kohl, foram os abencerragens de uma Europa que entretanto mudou para pior — e parece-me que de uma forma irremediável. Com a queda do muro de Berlim, os marxistas mudaram de vestimenta: uns permaneceram mais ou menos iguais a si mesmos (Partido Comunista); porém, outros tornaram-se verdes por fora e continuaram vermelhos por dentro (os melões), e outros assumiram o marxismo cultural aliado a um maior ou menor neoliberalismo na economia.
O que basicamente distingue o Durão Barroso do Carlos Magno, não é o marxismo cultural — porque este é mais ou menos compartilhado entre os dois —, mas apenas e só a visão da economia. Existe, portanto, entre as “elites”, uma espécie esquizofrenia que dissocia a cultura da política, sendo que existe um consenso alargado na cultura e uma divergência radical na área económica.

Ainda há dias se soube que a comissão europeia, dirigida por Durão Barroso, eliminou os feriados cristãos da agenda oficial europeia para 2011, mantendo, contudo, os feriados islâmicos, judeus e hindus na referida agenda. Também se sabe que a referência ao Cristianismo foi recusada no Tratado de Lisboa.
A herança cultural cristã, que seria um dos elementos de coesão cultural interna na Europa, é assim clara e inequivocamente eliminada da agenda política das “elites” europeias. E depois vemos o Carlos Magno, estupefacto (ou estúpido ante os factos), a clamar por Habermas para salvar a Europa. O leitor está a ver a estupidez das “elites” europeias actuais ?

Nenhuma religião política poderá alguma vez unir, de facto, a Europa; portanto, o espernear do Carlos Magno não faz nenhum sentido. A tentativa de impôr um presentismo cultural — e portanto, um presentismo político — que não tenha em conta as origens culturais comuns da Europa (o denominador comum europeu), poderá eventualmente levar a um leviatão mais ou menos totalitário (que parece ser aquilo que as “elites” defendem), mas esse leviatão nunca será uma Europa com que os cidadãos, em maioria, se identifiquem.

(continua em segunda parte)

1 Comentário »

  1. continuaram vermelhos por dentro (os melões)
    .
    Boa analogia, pois verde é a nova cor do comunismo.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Terça-feira, 18 Janeiro 2011 @ 10:19 am | Responder


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