perspectivas

Terça-feira, 18 Janeiro 2011

A metafísica negativa europeia (2)

Ou aparece uma nova elite cultural que encoste a ciência à parede, confrontando-a com as suas próprias contradições, ou a Europa política está condenada a mergulhar na pura insignificância — seja através da construção de um leviatão europeu totalitário, seja através de um novo ciclo de conflitos.

“Metafísica negativa” é sinónimo de “niilismo”. O niilismo é uma forma de expressão metafísica, embora negativa (a metafísica que recusa a metafísica). A Europa foi, no passado recente e ainda é hoje, o centro de onde irradia o niilismo para todo o mundo ocidental. O que se passa hoje, por exemplo, nos Estados Unidos de Obama e no Brasil de Dilma, teve e tem origem na Europa.

Depois que Descartes afirmou o Cogito, e no seguimento do francês, Kant defendeu a ideia de “sujeito puro”. O Iluminismo foi, em Kant, a afirmação imperiosa da subjectividade humana desligada da metafísica. Quando Kant desliga a moral — atribuindo a esta uma natureza intrínseca e exclusivamente humana — , da metafísica, abre uma caixa de pandora que resultou na metafísica negativa moderna. No seguimento de Kant, o século XIX, para além de “matar” Deus (Nietzsche), “matou” a subjectividade humana (positivismo, marxismo, empirismo). A partir de princípios do século XX, e principalmente em meados do século com o chamado “círculo de Viena” ou neo-positivismo, ou neo-empirismo (Carnap, Schlick, Wittgenstein, etc.), a metafísica negativa (niilismo) passou a fazer parte da crença dogmática das elites culturais europeias.

Depois da II guerra mundial — e depois dos povos da Europa constatarem o horror que resultou de duas guerras mundiais que mataram mais gente que todas as guerras juntas desde o século III a.C. até ao século XIX —, o niilismo na Europa ocidental parecia ter diminuído o seu nível de pressão política. Foi a época do ressurgimento das democracias cristãs na Europa — principalmente com De Gaulle em França e Adenauer na Alemanha; em Itália, o partido da democracia cristã ganhava sistematicamente as eleições; em Espanha, Franco renunciava ao plano Marshall para manter a exclusividade do catolicismo na constituição espanhola; em Portugal, Salazar apoiava a Igreja Católica. Um pouco por toda a Europa, parecia então que a metafísica negativa tinha perdido a sua influência. Foi sol de pouca duração.

Aquilo a que chamamos de pós-modernismo (que surgiu na década de 60 do século passado), não é mais do que o ressurgimento da metafísica negativa no mainstream cultural através de novas roupagens. Neste sentido, o termo pós-modernismo é um contra-senso, porque o pós-modernismo nada mais é que uma evolução na continuidade do modernismo neopositivista. Com a “morte” do sujeito puro de Kant, “assassinado” pelos neopositivistas, restou o sujeito empírico que é objecto da ciência assim como um qualquer outro objecto. A ciência “matou” o sujeito — “matou” a subjectividade humana. Esta ciência doutrinária, esta falsa ciência, passou a crença insofismável e, actualmente, é o dogma do naturalismo, do neo-ateísmo e neodarwinismo (Daniel Dennett, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, Peter Singer, etc.).

Em consequência da imposição cultural do dogma científico neopositivista, a filosofia seguiu dois caminhos: ou corroborou e apoiou o niilismo neopositivista (círculo de Viena, por exemplo), ou entrou em uma oposição à metafísica negativa do neopositivimo pela via do absurdo (existencialismo, desconstrutivismo, marxismo cultural, New Age, etc.). De uma forma ou de outra, com o pós-modernismo, o niilismo passou a estar firmemente enraizado na Europa.

Não há espaço aqui para desenvolver as diferentes vergônteas niilistas da ciência do século XX. Apenas vou referir-me a elas em termos muito gerais.

Basicamente, o neopositivimo parte da seguinte premissa : as questões que não têm uma solução, não são questões; são alçapões ou armadilhas da linguagem. Segundo o neopositivimo, as questões que não têm resposta, não têm sentido.

Por exemplo, se alguém perguntar: “existirá vida em algum outro planeta do universo ?” , essa questão, para o neopositivimo, não é uma verdadeira questão na medida em que — alegadamente — não tem uma resposta, e por isso, é considerada apenas uma armadilha da linguagem humana. Por exemplo, em Wittgenstein, as “falsas questões” devem conduzir ao silêncio; passou a existir uma espécie de tabu cultural do silêncio imposto pelo dogma científico.
A ideia do “silêncio” de Wittgenstein é auto-contraditória, porque ele fala daquilo que se deve calar devido à impossibilidade de se falar dele.

A ciência neopositivista diz: “o critério da significação é a verificação”. Isto significa que, segundo a ciência, tudo aquilo que não é passível de ser verificado (empirismo) não tem significado — tudo isso é considerado pela ciência como uma “falsa questão”, uma proposição ou questão sem sentido decorrente da “armadilha da linguagem”. Porém, esta proposição (“o critério da significação é a verificação”) não é, ela própria, verificável. Isto significa que a ciência parte de um dogma que separa o seu fundamento da própria metafísica propriamente dita (e à qual está intrinsecamente ligada), e neste sentido, a ciência fundou uma metafísica negativa (niilismo).

Assim, o europeu passou a valorizar e a estar orgulhoso do seu embotamento intelectual, em nome do dogma científico. O cidadão europeu passou a ser orgulhosamente estúpido graças à ciência. Não admira que tenham existido duas carnificinas num espaço temporal de duas gerações.

É neste contexto que assistimos, hoje, à irreversibilidade da decadência europeia. Não se trata de uma profecia escatológica da minha parte: trata-se da constatação de factos. Ou aparece uma nova elite cultural que encoste a ciência à parede, confrontando-a com as suas próprias contradições, ou a Europa política está condenada a mergulhar na pura insignificância — seja através da construção de um leviatão europeu totalitário, seja através de um novo ciclo de conflitos.

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1 Comentário »

  1. [...] (continua em segunda parte) [...]

    Pingback por A metafísica negativa europeia « perspectivas — Terça-feira, 18 Janeiro 2011 @ 12:06 pm | Responder


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