perspectivas

Quarta-feira, 12 Janeiro 2011

António de Macedo e o esoterismo rosacruciano no Novo Testamento

Num postal anterior falei de um livro de António de Macedo com o título “Esoterismo da Bíblia”, que é uma compilação de textos de que o autor se serviu — nas suas próprias palavras — “para um curso livre de introdução ao Estudo do Esoterismo Bíblico”, que leccionou “entre 2002 e 2006 no ISER (Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa”.

Não vou aqui colocar em questão (ou em causa) as muitas horas de estudo que António de Macedo certamente dedicou a esta área. Porém, nem sempre o tempo de estudo nos transforma em agentes da verdade; a verdade científica decorre da objectividade, e não de uma narrativa mais ou menos arbitrária, embora escorada em factos. Pelo facto de ficar demonstrado que uma determinada situação terá realmente acontecido no passado, esse facto não nos autoriza a que, alegadamente em nome da verdade científica, construamos, de uma forma mais ou menos arbitrária, toda uma narrativa subjectivista em torno dele.

Fazer a refutação do livro de António de Macedo daria azo a dez livros ou mais, porque a sua narrativa é, do princípio ao fim, densamente intrincada em factos escorados em bibliografia. António de Macedo é mestre em menções bibliográficas. Por exemplo, eu posso escrever um livro com milhares de menções bibliográficas, de forma a que estas escorem a minha visão exclusivista sobre as matérias tratadas no meu livro; as menções bibliográficas transformam-se, assim, em uma espécie de testemunhos cegos que fazem prova da minha versão dos factos, e por meio dos quais a minha narrativa idiossincrática é construída.

Por isso, prefiro fazer aqui duas coisas: uma crítica muito geral ao conteúdo do livro, e colocar-me às disposição dos alunos de António de Macedo para responder a eventuais comentários sobre determinadas teses ou ideias do seu livro. Se um aluno de António de Macedo não suscita dúvidas e perguntas sobre as aulas que recebeu (conforme o livro supracitado), esse aluno é inócuo — tanto faz que tenha assistido às aulas como não; em termos de prejuízo para a sociedade, o seu valor aproxima-se do zero. Se um outro aluno se apercebeu de contradições e/ou de incoerências em relação às aulas de António de Macedo, achará concerteza boa ideia discuti-las. Os comentários ficam a abertos a estes últimos.


António de Macedo começa por fazer a separação entre “gnosticismo” e “hermetismo” (esoterismo) — e esta separação é essencial para fundamentar a sua tese. Ou seja, António de Macedo diz não só que “gnosticismo” não é a mesma coisa que “esoterismo”, mas também diz, de uma forma mais ou menos explícita, que os dois conceitos não têm uma ligação intrínseca, essencial e substancial entre si. A partir deste pressuposto (que está errado), António de Macedo parte para a defesa da tese de que ambas as correntes (gnosticismo, por um lado, e esoterismo ou hermetismo, por outro) estão na base do desenvolvimento teológico do Cristianismo, e de uma forma exclusiva e numa lógica de terceiro-excluído — i.e., o Cristianismo é produto do desenvolvimento ou de uma corrente gnóstica, ou de outra esotérica (hermética), e mais nenhuma.

Na sua narrativa, António de Macedo mistura sistematicamente alusões ao Antigo Testamento com outras alusões ao Novo Testamento, como se existisse uma e só lógica fundamental nos dois textos. Por exemplo, na página 159 faz uma referência a uma epístola de S. Paulo — e citando a esoterista Corinne Heline, porque a preocupação de António de Macedo com as notas bibliográficas é esdrúxula e essencial para dar credibilidade à sua tese desconstrutivista — para imediatamente a seguir, e sobre o mesmo assunto, referir-se ao Livro de Ezequiel do Antigo Testamento. Este “saltitar” constante entre as escrituras antigas (não só do AT, mas também de escritos órficos, sumérios, acádicos, do antigo Egipto, etc.), por um lado, e as neotestamentárias, por outro, faz parte da estratégia, digamos assim, de António de Macedo para provar a existência de um estrito nexo causal e similitude entre o Cristianismo e as religiões de mistérios dos primórdios da existência da espécie humana (e não só da História).

Uma leitura atenta da obra de Mircea Eliade, por exemplo, deita todo o edifício ideológico de António de Macedo por terra. Aconselho os alunos que assistiram às prédicas de António de Macedo a confrontar as suas teorias com a obra de Mircea Eliade (não só um livro em particular, mas toda a obra).

Através do seu livro, António de Macedo pretende uma de duas coisas (ou ambas):

  • ou desacreditar o Cristianismo — ligando-o intimamente às religiões primitivas, como por exemplo, às religiões da Mãe-Terra do neolítico inferior e princípios da História —,
  • ou pretende transformar o Cristianismo numa espécie de deriva esotérica maçónica e/ou rosacruciana.

Aliás, a obsessão de António de Macedo com os rituais de iniciação — quando “confunde”, por exemplo, a influência dos rituais de iniciação ligados aos ciclos cósmicos nas religiões primitivas, por um lado, com a metanóia típica do Cristianismo (ambas as situações obedecem, em verdade, a lógicas de situação radicalmente distintas), por outro — poderá permitir que concluamos que poderá existir uma qualquer ligação entre António de Macedo e a maçonaria, ou uma qualquer loja de rosa-cruzes.

1 Comentário »

  1. Comecei a ler este livro em 2009, mas não o terminei. Este ano o retirei da estante para dar cabo à ele e encontrei o seu comentário. Sim, a princípio suas ligações e comparações parecem intrigantes para, logo a seguir, parecem forçadas. Concordo com a conclusão mas adiciono que sim, um segundo sentido do que NSJC falou pode ser tomado, um vez que o fez por meio de parábolas é que nem os apóstolos sabiam exactamente o sentido de suas palavras até a Morte e Ressurreição.
    Abs

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    Comentar por conservador — Terça-feira, 27 Março 2018 @ 10:24 am | Responder


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