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Quinta-feira, 30 Dezembro 2010

O perigo do presentismo na Europa

Filed under: gnosticismo,Política,religiões políticas — orlando braga @ 11:04 pm
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O presentismo da nossa sociedade não é bom sinal. Se repararmos no que aconteceu durante o século XX, todas as ideologias totalitárias prepararam a instauração do seu poder por via do presentismo cultural das massas, por um lado, e pela criação de uma elite de iniciados que “explicaram” às massas “o verdadeiro significado da História”. O presentismo é a condição necessária para a aceitação de uma qualquer interpretação histórica, enviesada e tendente à instalação de um regime totalitário gnóstico moderno.

Antes do Iluminismo e da revolução francesa, e embora as “massas” fossem, na sua maioria, iletradas, a preponderância da religião na cultura concedeu grande valor aos mitos de origem e, portanto, à valorização do passado, seja este mítico ou histórico.

Com o Iluminismo, e mais tarde com o positivismo, a influência cultural da religião foi decrescendo até ao duplo fenómeno cultural constituído por Darwin e Nietzsche. Pelo meio ficou o idealismo alemão e a dialéctica hegeliana, cuja paternidade deve ser atribuída a Kant através da sua distinção entre o númeno e o fenómeno, que foi uma tentativa prematura de relação dialéctica. O corolário da pré-dialéctica kantiana, e para além de Hegel, foi Karl Marx e o materialismo dialéctico. A partir da relação dialéctica kantiana entre númeno e fenómeno, e com o seguimento que lhe foi dado por Fichte e Hegel, chegamos ao Historicismo do século XX.

O Iluminismo marcou o triunfo do gnosticismo sobre o Cristianismo até à “morte de Deus” anunciada por Nietzsche, e preparou o horror do século XX. O Historicismo marcou definitivamente esse triunfo gnóstico quando pretendeu encontrar na História uma intencionalidade e um sentido proféticos, baseados num pretenso conhecimento esotérico da realidade. A maçonaria especulativa, que surge quase em simultâneo com o Iluminismo, assume aqui uma responsabilidade importante.

O movimento revolucionário percorreu duzentos anos assimilando as várias teorias modernistas, como um rio que engrossa o seu caudal com os seus afluentes. Karl Marx chamou a si a “vontade geral” de Rousseau, o positivismo de Comte, a dialéctica hegeliana e o darwinismo; juntou-lhe o socialismo dos utilitaristas ingleses do século XVIII e XIX — Bentham, Ricardo, Thomas Hodgskin, Robert Owen (o criador da palavra “socialismo”), Stuart Mill, etc. —, a noção epicurista de submissão da teoria à prática, e uma pitada do gnosticismo medieval cristão de Joaquim de Fiore, e temos o caldo cultural do movimento revolucionário do século XX.

A partir do marxismo, o movimento revolucionário do século XX ramifica-se, mas a essência é sensivelmente a mesma e comum a todas as ramificações :

  • a ruptura abrupta com o passado histórico e a defesa de uma metamorfose brusca da realidade (palingénese);
  • a gnose revolucionária como uma interpretação esotérica, profética e elitista da realidade (gnosticismo moderno), sujeita a uma terminologia, linguagem e discurso próprios, produtos de pura racionalização teorética divorciada da realidade objectiva;
  • construção de ideologias ou religiões políticas apocalípticas que atribuem ao passado histórico uma realidade decadente e negativa.

Nestas três vertentes da religião política gnóstica moderna, a imposição do presentismo cultural das massas é crucial e necessária. Sem o presentismo, a palingénese não encontra o seu momento cultural e histórico; a ruptura abrupta com o passado histórico só é possível com o alheamento das massas em relação às suas origens históricas e culturais (religião incluída). Por outro lado, a visão apocalíptica da realidade serve de catalisador da palingénese, colocando as massas em estado-de-sítio psicológico e emocional. E por último, a ideologia gnóstica revolucionária transporta consigo a profecia infalível e a certeza do futuro utópico, em que todo o mal será eliminado da face da terra, para bem da humanidade.

As diversas ramificações da ideologia gnóstica revolucionária defendem o uso da violência extrema por um “mundo melhor”, “a bem da nação” ou/e pelo “bem da humanidade”, e contra inimigos seleccionados e eleitos para o efeito — seja uma raça ou uma classe social. Na medida em que a noção de humanidade é abstracta, mas os inimigos da revolução — ou do país — são pessoas concretas e reais, o horror do século XX era inevitável.

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