perspectivas

Quarta-feira, 29 Dezembro 2010

Crença, disse ela

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:43 am
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A Helena Damião escreve :

«Um deles é que a noção de verdade, apesar de ter sido inventada por pessoas, não decorre do entendimento contextualizado de algumas pessoas.»


Vamos dar como exemplo as leis da gravidade : elas aproximam-se da verdade. Mas as leis da gravidade foram inventadas pelas pessoas ?!!! A Helena Damião cai aqui num velho sofisma iluminista.

Coisa idêntica se passa com a noção de verdade : ela foi inventada pelas pessoas ? — ou seja, não será que a noção de verdade é apenas intrínseca à realidade, e o Homem apenas a intuiu e constatou ?

Pessoas como a Helena Damião são positivistas, e têm por isso uma visão solipsista e muito redutora da realidade. A mundividência dela é pobre e decorre da racionalização iluminista — ou seja, ela cai na contradição fundamental do Iluminismo que tenta a quadratura do círculo ao pretender conciliar o empirismo e a racionalização.


Num postal anterior falei de Santo Anselmo e aconselho à Helena Damião a leitura da obra do Santo — aconselho não porque pretenda converter a Helena Damião a uma qualquer religião que não seja a que ela já professa de uma forma fanática; longe disso; dou o conselho apenas para que a Helena Damião possa ter uma visão alternativa e complementar da realidade.

Para Anselmo de Aosta, a razão humana tem a função de chegar a noções e aproximações à verdade demonstráveis. Mas a razão difere do intelecto. O intelecto pode intuir e alcançar aproximações à verdade que não são demonstráveis — e por isso, o Homem pode atingir certezas que estão para além dos limites da demonstração racional.

Na medida em que a ciência procura a verdade (tal como a religião, por caminhos diferentes), as descobertas (e não as “invenções”, como defende a Helena Damião) da ciência são apenas e só aproximações à verdade. E na medida em que são aproximações à verdade, as descobertas da ciência apoiam-se sempre na crença de que constituem a verdade — e por isso é que “as pessoas poderão chegar às mesmas conclusões”. A maior fé que pode existir é a do cientista positivista, porque é uma fé inconfessável.

Portanto, para resolver o problema da aproximação à verdade lato sensu, a ciência moderna deveria compreender o pensamento de um homem do século XI : fazer distinção entre razão e intelecto. Por não ter conseguido compreender um homem da Alta Idade Média, é que a Helena Damião entrou numa pequena confusão no seu texto.


Sobre a citação em relação ao “caso belga” que a Helena Damião faz menção no seu texto :

A teoria de conhecimento finística de Gierer

O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para uma dificuldade particular na aproximação à verdade por parte da ciência positivista: a densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas no universo.

Se multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa aqui pelo símbolo Λ).
Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.

Conclui-se que a possibilidade de conhecimento humano positivista é finita. Ou seja, a procura da verdade científica positivista é limitada pela própria realidade espaço-temporal.

Portanto, é a palavra de um biofísico que trabalha há décadas no Instituto Max Planck contra a palavra da Helena Damião. Naturalmente que a Helena Damião dirá que Gierer é um “crente religioso”, porque ele vai contra a fé dela: “é crença”, diz ela.

4 comentários »

  1. *anos, não anos-luz ( unidade de distancia ).

    Sim Helena Damiao quer substituir uma crença por outra, sem nenhuma razao de jeito, acho que nao e um bom negocio.

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    Comentar por Joao Pinto — Quarta-feira, 29 Dezembro 2010 @ 5:25 pm | Responder

  2. ***********
    @ João Pinto: posso enganar-me, mas não é o caso. É anos-luz mesmo! São anos à velocidade da luz; não me enganei, neste caso.

    Por exemplo, a estrela mais próxima de nós (excepto o Sol) é a estrela Sírius e fica à distância de 4 anos/luz (isto salvo erro, porque estou a escrever de memória).

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 29 Dezembro 2010 @ 5:34 pm | Responder

  3. Exacto anos-luz e uma unidade de distancia, equivale a metros a idade do universo nao se mede em metros.

    “e multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 “

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    Comentar por Joao Pinto — Quarta-feira, 29 Dezembro 2010 @ 5:48 pm | Responder

  4. Exacto. O que conta aqui é o número “10^40”.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 29 Dezembro 2010 @ 7:46 pm | Responder


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