perspectivas

Segunda-feira, 27 Dezembro 2010

Santo Anselmo de Aosta e o argumento ontológico

Filed under: filosofia — O. Braga @ 5:20 pm
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De todos os doutores da Igreja Católica, o meu preferido é Anselmo de Aosta (que me perdoem os outros), porque conseguiu, de uma forma extraordinária para uma mente do século XI, conciliar a fé e a razão. Neste primeiro postal vou falar de Santo Anselmo, e no seguinte nos seus detractores, principalmente de Kant que foi talvez o mais perigoso de todos eles.

Para escrever este postal, tive que reler o livro “Proslógion” de Santo Anselmo, que aconselho a todos, até porque não tem muitas páginas e é de uma leitura muito fácil e agradável. No livro, Santo Anselmo faz a demonstração da existência de Deus — a chamada Prova Ontológica, ou Argumento de Santo Anselmo. Então, começa assim:

  1. Quem acredita na existência de Deus, então acredita que Ele é um ser “maior do que o qual nada se pode pensar”, ou seja, o crente não pensa em algo maior do que Deus, e a entidade maior possível que o crente possa pensar, é Deus. Portanto: um ser “maior do que o qual nada se pode pensar” = Deus, em relação ao qual nada maior que Ele pode ser pensado pelo crente.
  2. Santo Anselmo refere-se também aos não-crentes. Os ateus, por exemplo, podem argumentar que pelo facto de um ser “maior do que o qual nada se pode pensar” possa existir no nosso pensamento, isso não significa que esse ser exista na realidade. Ou seja: podemos pensar numa coisa que não existe. Escreve Santo Anselmo: “Uma coisa é certa realidade estar no intelecto, e outra coisa é inteleccionar que essa realidade existe”.

    Porém, Santo Anselmo diz, com razão, que mesmo ao ateu é possível pensar num ser “maior do que o qual nada se pode pensar”, porque o pensamento é livre de o fazer. E a partir do momento em que o ateu pense num ser “maior do que o qual nada se pode pensar”, esse ser passa a existir no seu (dele) intelecto.

  3. Ora, uma coisa que exista no nosso pensamento, mas que não exista na realidade, é menor do que uma coisa que exista no pensamento e também exista na realidade. Portanto, algo que exista apenas no nosso pensamento como ser “maior do que o qual nada se pode pensar”, e a partir do momento em que não exista na realidade, então já não pode ser um ser “maior do que o qual nada se pode pensar”. A não existência, na realidade, de Deus, entra em contradição com a essência do nosso pensamento acerca desse ser “maior do que o qual nada se pode pensar”.

    Se nós pensamos num ser “maior do que o qual nada se pode pensar” e ao mesmo tempo admitimos que esse ser não existe na realidade, então entramos em contradição, porque um ser que existe na realidade é sempre maior — como é evidente — do que um ser que só existe no nosso pensamento e não existe na realidade.

  4. Por último, Santo Anselmo reconhece que se os ateus dizem que “Deus não existe”, então também é possível pensar que Deus não existe. O pensamento segundo o qual “Deus não existe”, também existe no nosso intelecto e, por isso, mereceu a atenção do Santo.

    Para obviar a esta dificuldade, Santo Anselmo distinguiu duas formas de ver a realidade: a primeira, acontece quando nos referimos a uma coisa pensando no nome que lhe dá um significado. A segunda, acontece quando uma coisa é pensada como uma realidade existente em si mesma.

    Assim, se eu penso em Deus apenas como um nome, então é possível pensar que Deus não existe. Porém, se eu penso em Deus, não como um mero nome, mas como um Ser “maior do que o qual nada se pode pensar” — ou seja, como uma realidade que é, independentemente do nome que lhe possamos dar —, então não nos resta senão pensá-Lo como uma realidade existente e efectiva.

Num próximo postal irei falar dos detractores deste princípio ontológico — é mais um princípio do que uma prova — fazendo a ligação com a filosofia quântica e com a série de postais com o título genérico “A teoria das propensões de Karl Popper”. Entretanto, será de interessante leitura: Anselmo de Aosta e a refutação de Hellin.

Os comentários estarão disponíveis no próximo e último postal sobre “Santo Anselmo de Aosta e o argumento ontológico”.

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