perspectivas

Quinta-feira, 23 Dezembro 2010

A teoria das propensões, de Karl Popper (1)

Para qualquer pessoa minimamente actualizada e que se preocupe com a realidade, não é possível ignorar pelo menos três tipos de situações, digamos assim, a ver :

  • as conclusões da física quântica;
  • a teoria das propensões, de Karl Popper;
  • o estatuto e o papel da consciência em conexão com os dois itens anteriores.

No que respeita à física quântica, é possível a qualquer pessoa interessada ter uma noção básica acerca das suas conclusões, e sem entrar na linguagem formal da matemática. A ideia de que a quântica é só entendível pelos físicos não corresponde totalmente à verdade.

A “teoria das propensões” de Karl Popper baseia-se nas conclusões da física quântica, e difere dos positivistas, construtivistas e outros críticos — tradicionalmente defensores de um determinismo da natureza — quando demonstra não só que esse determinismo cientificista não existe, como demonstra que as possibilidades de ocorrência de acontecimentos futuros não são um mero produto subjectivo decorrente de eventuais lacunas do conhecimento humano, mas antes são um fenómeno objectivo e concreto.

O terceiro item — o estatuto e o papel da consciência — não é aflorado por Karl Popper neste contexto, mas foi reconhecido como sendo importante por muitos físicos quânticos, entre eles alguns laureados com o Nobel da física. O que se defende é que a consciência interage a nível quântico e contribui decisivamente para moldar as “possibilidades pesadas” (utilizando a terminologia de Karl Popper) que são aquelas cuja propensão para a actualização ou realização se torna mais forte.


Desde logo, o passado é imutável e o futuro está totalmente em aberto. A ideia gnóstica e/ou revolucionária marxista da certeza da construção de um paraíso na terra e/ou de um mundo melhor, é loucura. Esta é a primeira conclusão a que chegou a física quântica. Trata-se, assim, de uma conclusão científica que corrobora totalmente o conceito de “futuros contingentes” de S. Tomás de Aquino.

Até 1925, quando Heisenberg publicou o seu princípio — segundo o qual é (pelo menos teoricamente) impossível fazer a observação de uma Partícula Elementar Longeva e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço), isto é, numa observação, por exemplo, de um electrão, ou se define o tempo ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente (princípio da incerteza de Heisenberg) — dizia eu que até 1925, a ciência estava seguramente convencida de que o universo era uma espécie de máquina que funcionava com uma precisão absoluta. Sendo uma máquina, o universo era absolutamente determinado e, por isso, imperava, nas elites sociais e culturais, uma visão determinística do mundo.

Essa visão determinística do mundo, ou exigia a negação de Deus (ateísmo) ou impunha uma visão panteísta do universo (Deus como sendo parte da “máquina universal”, semelhante ao conceito de Espinoza de Deus sive Natura). Esta concepção panteísta do mundo chegou a influenciar algumas correntes filosóficas ditas “cristãs”, como por exemplo a Nova Teologia de Bonhoeffer. Da síntese do ateísmo e do panteísmo surgiu o naturalismo.

A liberdade e o livre-arbítrio do Homem eram, assim, intrinsecamente negados por essas mundividências. Se juntarmos, a esta visão do mundo, a teoria darwinista aplicada ao ser humano, encontramos o caldo cultural que esteve na base da mortandade do nazismo e do comunismo, e mesmo na base das duas guerras mundiais.

Se o Homem não tinha liberdade nem livre-arbítrio, então a humanidade estaria à totalmente disposição de uma elite gnóstica moderna que faria cumprir o tipo de determinismo por ela concebido e imaginado subjectivamente, e de forma utópica. O futuro utópico preconizado por essa elite gnóstica moderna passou a ser uma certeza absoluta (passo a redundância enfatizante), certeza essa que era determinada pelas suas mentes julgadas “iluminadas” e “superiores” à do comum dos mortais.


A quântica veio atirar todas essas velhas mundividências para o caixote do lixo das teorias falsas da História. Não existe certeza do futuro, mas apenas possibilidades de acontecimentos futuros; e estas possibilidades assumem uma dimensão de “propensões pesadas” quando têm uma maior probabilidade de ocorrência.
Por exemplo, a possibilidade de José Sócrates perder as próximas eleições legislativas, se elas ocorrerem já em 2011, é uma “propensão pesada”. Porém, esta propensão pesada pode ser perfeitamente revertida e alterada em função do evoluir dos acontecimentos. Não existe um futuro certo.

(a continuar)

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1 Comentário »

  1. Bom artigo! «Não existe um futuro certo» soa quase a um pleonasmo, se é futuro então não é certo. Por vezes, e quando as probabilidades são muito elevadas, parece ser certo: Sócrates vai para a rua e para a cadeia.

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    Comentar por Henrique — Quinta-feira, 23 Dezembro 2010 @ 10:46 am | Responder


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