perspectivas

Sábado, 11 Dezembro 2010

A moderna guilhotina do espírito, ou breve história da miséria moral e cultural da modernidade

O senso comum é caracterizado pela certeza do saber. Esta certeza do saber decorre da experiência pessoal e subjectiva e, consequentemente, da intersubjectividade ou acção cultural do Homem em sociedade. Todo o ser humano tem certezas, e mesmo aqueles que têm dúvidas têm a certeza das suas dúvidas.

Porém, a ciência não tem certezas, mas antes vive de hipóteses e numa verdade sempre precária. À ciência aplica-se perfeitamente a frase: “o que é verdade hoje pode não ser verdade amanhã”.

Um dos grandes problemas culturais da modernidade surge com a “cientificação” do senso comum, ou seja, com a ideia de que a ciência transporta consigo a tipologia das certezas que existe no senso comum. A partir daqui, e de certa forma, o senso comum é transformado, por uma espécie de emanação metodológica, em ciência; estamos em presença do cientismo.

Todavia, enquanto que o senso comum dá sempre a possibilidade de existência de desvios ao comummente aceite como sendo maioritário, a certeza do cientismo considera o desvio como uma heresia, porque a certeza (que derivou do senso comum) transforma a teoria científica em dogma [a evolução da teoria: teoria (Darwin) → doutrina (darwinismo, positivismo, materialismo filosófico) → dogma (neodarwinismo, naturalismo, neo-ateísmo)].

Esta diferença (entre a teoria do conhecimento do senso comum e a certeza cientificista) é crucial para se perceber que através de um processo enviesado pela sua transformação em dogma, o cientismo acaba por ir contra o próprio senso comum que está na sua base de construção ideológica. Por outras palavras: o cientismo utiliza o senso comum com base de construção teórica e ideológica, para depois acabar por se virar contra o próprio senso comum; é, por assim dizer, como uma cobra que devora a sua própria cauda.

Um exemplo disto é o materialismo filosófico e científico (neodarwinismo, naturalismo, etc.). Em termos científicos e filosóficos, o materialismo afirmou-se com o positivismo de Comte e, mais tarde, com o behaviourismo de Watson e Skinner. O materialismo parte do comportamento e da acção exterior do ser humano para concluir que um e outra são tudo o que existe a nível humano, já que é aquilo que pode ser observável. Esse princípio da observação, como método de afirmação da certeza do saber, escora-se na teoria de conhecimento do senso comum. Em função disso, o espírito humano é relegado pelo materialismo para a dimensão do absurdo, e o ser humano é comparado com os animais irracionais — mesmo a nível da linguagem. Foi assim que nasceu, nos anos 70, a sociobiologia.

Porém, na medida em que o senso comum, por sua natureza, tolera (até certo ponto) eventuais desvios, acaba por ter contra si uma espécie de “ditadura da observação”, porque a teoria materialista — que nasceu da lógica da teoria do conhecimento do senso comum — acaba por pretender substituir o próprio senso comum que lhe deu origem. Digamos que o sucedâneo pretende impor-se ao sucedido e anulá-lo. Se a teoria do conhecimento do senso comum parte das experiências humanas, o seu sucedâneo (o materialismo) tende a pretender substituir a função e o papel das experiências humanas que dão corpo à própria teoria da realidade do senso comum. Neste sentido, o materialismo assume uma dimensão de niilismo social e cultural.

É nesta lógica de um efeito (positivismo, materialismo) que pretende anular a sua própria causa (o senso comum) — porque aquele acaba por entrar em contradição com esta — que surge o cientismo e o politicamente correcto. O politicamente correcto não é só uma deriva ou uma corruptela do marxismo cultural; é também uma mescla entre o marxismo cultural (materialismo filosófico) e o cientismo (dogmatização da ciência). A ciência passou a ser manipulada pela política correcta.

A partir daqui, o ser humano deixou de ter espírito e consciência, e passou a ser concebido como um animal que pode ser adestrado por uma elite gnóstica moderna, tal como um cão ou um gato podem ser adestrados.

Esta concepção do ser humano deu lugar a uma ética específica, que é aquela por que se regem os neodarwinistas, os naturalistas, os neo-ateístas, e cientificistas em geral. O materialismo transformou-se num dogma, e qualquer desvio a esta concepção da realidade passou a ser tabu e considerada herética. Essa teoria ética materialista parte do próprio absurdo, na medida em que foi construída a partir da natureza humana — quando sabemos, por análise lógica, que nenhuma teoria ética pode ser dedutível a partir da natureza humana (sofisma naturalista). E é nesta teoria ética absurda e sem sustentação lógica que se escora o relativismo ético-moral que caracteriza o nosso tempo.

Sinceramente, não sei como havemos de sair desta situação. Não sei. Apenas sei que a actual situação, a Ocidente, é insustentável e de muitos maus augúrios. E por isso é que esta história é breve, porque se eu soubesse a solução para o problema da guilhotina contemporânea do espírito, teria muito mais para vos contar.

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