perspectivas

Terça-feira, 23 Novembro 2010

O dogma naturalista de Carl Sagan : um exemplo de cientismo e da traição dos intelectuais

Karl Popper

Ao longo da sua imensa obra literária e filosófica, Karl Popper demonstrou que a objectividade do cientista, entendido como indivíduo, não existe — e esta realidade aplica-se não só às ciências sociais como às ciências da natureza. O que torna a ciência objectiva é toda uma estrutura composta pelas instituições que, numa sociedade onde exista um alto grau de liberdade política, se dedicam à ciência (universidades, colóquios, congressos); é também a concorrência saudável entre cientistas e, em consequência, podemos dizer que a objectividade da ciência depende da análise crítica das teorias, independentemente do cientista ou cientistas que as concebem.

Porém, convém aqui dizer que também se demonstrou que a maioria das teorias científicas são falsas, e esta tese é também corroborada pelo académico grego John Ioannides, um dos maiores especialistas mundiais sobre estatística da ciência. Ioannides vai mais longe: de uma forma geral, quanto mais “bombástico” for o anúncio nos me®dia de uma nova descoberta ou de uma nova teoria, maior probabilidade estatística existe de que essa descoberta ou teoria sejam falsas.

Portanto, um cientista contemporâneo é, normalmente, e antes de o ser, um mau filósofo; ou melhor : um sofista. É impossível que a sua “nova teoria” seja asséptica ou objectiva, e só a análise crítica pode deduzir realmente a sua objectividade, verdade ou falsidade. Esta asserção foi demonstrada pela própria realidade dos factos.


Quando Carl Sagan disse que “o cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá”, não estava realmente a fazer ciência, mas estava a fazer filosofia. A proposição não é científica na medida em que ela própria não transporta consigo os meios da sua refutação. Não sendo parte da ciência, a proposição pretende ser filosófica, mas também aqui falha o seu propósito, porque a certeza implícita na proposição condu-la mais a uma doutrina metafísica dogmatizante do que a uma teoria filosófica propriamente dita.

Por outro lado, Sagan tem a pretensão de definir a realidade. Quando eu digo “definir”, não se trata de elaborar uma definição subjectiva (o que é legitimo), mas de transformar a subjectividade da sua (dele) definição numa verdade objectiva, tirando partido de uma sancionada e consensual autoridade de direito. O comportamento de Sagan é objectivamente anticientífico e antifilosófico.

Do ponto de vista filosófico, Sagan assume publicamente o dogma do “efeito sem causa” que também contaminou Stephen Hawking no seu recente livro — o que reflecte a cultura decadente que invadiu a ciência contemporânea por via do cientismo, e da manipulação da investigação científica das grandes corporações pela política correcta. Portanto, a análise crítica das teorias científicas está em risco, e com ela a objectividade, porque a liberdade política tem vindo a ser paulatinamente reduzida nas sociedades ocidentais.

Por último, e mesmo a nível da ciência teórica propriamente dita, Sagan incorre em desonestidade intelectual: na medida em que o cosmos só pode ser, no seu (dele) entendimento, intrínseco à matéria, o que Sagan diz é que “a matéria é tudo o que existe, existiu e existirá” — sendo que a matéria é por definição tudo aquilo que tem massa. Ora, há muito tempo que a não-localidade quântica era falada no mundo da ciência, desde as experiências de Bell em princípios dos anos sessenta; Sagan tinha a obrigação de saber que o conceito de não-localidade exigia a existência de Partículas Elementares Longevas que, em determinadas circunstâncias e quando em função de onda, são desprovidas de massa e que, por isso, não podem ser consideradas como sendo propriamente “matéria”. Ou seja, Sagan tinha obrigação de saber que no cosmos já conhecido pela ciência, nem tudo é matéria.

A subjectividade de Carl Sagan — a fé do cientista, que é a maior de todas porque é inconfessável — induziu em erro centenas de milhões de pessoas que passaram a acreditar no mito de que não existem mitos, e não se deram conta de que o anti-mito naturalista de Carl Sagan é o mais poderoso dos mitos do mundo contemporâneo — só que é um mito perverso, filosófica e eticamente negativo.

3 comentários »

  1. O único mérito existente no cientificismo,se assim pudermos considerar,foi afastar a história do mundo da hegemonia religiosa e dos dogmas criado por estes,para os quais eles e unicamente eles sabem e podem pensar,desde os tempo mais antigos da história ou antes dela.No mais eles são tão incapazes quanto um rato, preso entre os livros.São faces da mesma moeda,em peso e inconsistência.A nós, nos choca quando vemos um homem que procura o conhecimento e dissipar as nuvens de poeira,de trevas que os homens de um único livro semeiam e fertilizam as mentes pequenas e incautas ao longo dos tempo, serem tão ineptos,fazendo crer,que tudo o que anunciaram eram também falso,brilharam apenas sobre o reflexo temporário das luzes casuais.Quando essas luzes se apagam,todas essas descobertas vão para as prateleiras das inutilidades .Acreditamos que magnitude da criação é tamanha que não podemos nos aventurar a mensurar mas, como pensador independente, não nos deixamos agrilhoar as correntes,quais elas sejam,pois não procuramos nos respaldar apenas no universo humano, senão em toda obra criada.

    JATeixeira

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    Comentar por Teixeira — Sexta-feira, 26 Novembro 2010 @ 4:19 pm | Responder

    • @ Teixeira :

      O problema é que o cientismo criou outros dogmas muito mais perigosos que os dogmas religiosos que você diz que o cientismo eliminou. Eu não creio que o cientismo tenha eliminado os dogmas religiosos, mas apenas pretendeu substitui-los, sem sucesso. De resto, é um contra-senso que se diga que um dogma eliminou outro dogma.

      Você não deve confundir dogma com mito, porque me parece que você faz essa confusão no seu comentário. A génese do dogma é a teoria que se transforma em doutrina, e finalmente se dogmatiza. O mito — nomeadamente o mito cultural, que existe em todas as culturas, dos acontecimentos primordiais que supostamente deram lugar ao universo — é, por exemplo, o criacionismo bíblico. Porém, o darwinismo é outro mito, porque é impossível explicar as mutações das formas orgânicas.

      O dogma religioso e transcendental, é a tentativa de transmitir por símbolos aquilo que as palavras não podem traduzir. Não há religião sem dogmas. Uma religião sem dogmas é um Ersatz religioso — é uma pseudo-religião.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 26 Novembro 2010 @ 7:14 pm | Responder

  2. O que eu não gosto é da limitação e do julgamento agressivo que os “doutores ciência” fazem sobre os questionamentos, especulações ou fé das pessoas, são os “donos da verdade”, como trazer as pessoas mais perto do método científico desta maneira? a ciência fica reservada só pra quem pode.

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    Comentar por Andressa Cristina Papa — Sábado, 20 Fevereiro 2016 @ 7:53 pm | Responder


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