perspectivas

Quinta-feira, 18 Novembro 2010

O gnosticismo moderno da esquerda jugular e caviar

Eu tenho muita dificuldade em lidar com gente que chama os outros de “ignorantes” mas não explica por quê. Eu penso que chamar alguém de ignorante, ou estúpido, ou seja o que for, é legítimo desde que se explique por quê. Porém, uma característica da esquerda jugular / caviar é a adjectivação panfletária — tipo “slogan” : cola-se um rótulo no adversário e fica o assunto resolvido.

Acho que se deveria dizer: “você é ignorante por isto, aquilo e aqueloutro”. Reparem: é uma chatice a gente ser ignorante e não saber a razão da nossa ignorância…


Muito do gnosticismo moderno, que se baseia num elitismo intelectual auto-proclamado, recebeu o contributo de Averróis (nomeadamente através do “Tahafut al-tahafut”), que dividiu a humanidade em três classes intelectuais: os filósofos (a elite intelectual, que evoluiu para a classe burguesa depois da revolução francesa, e para o cientismo positivista), os teólogos (uma classe considerada inferior por Averróis, porque se baseia na dialéctica, aqui entendida como derivação de “diálogo”) e as massas (que só são sensíveis à retórica).

Note-se que o Averróis, à semelhança de Avicena e de Al-Farabi, confundiu Aristóteles com Platão, ou seja, a tradução da maioria dos textos (feita do grego para o árabe) em que se basearam para elaborar as suas filosofias eram de Platão embora fossem atribuídas, por erro, a Aristóteles.

A estirpe do pensamento de Averróis influenciou, nomeadamente, a escola de Chartres, Espinoza e Leo Strauss — só para delinear aqui a propagação do ecossistema das ideias de Averróis até aos nossos dias.

O pensamento de Averróis é gnóstico por duas razões: 1) parte do princípio de que o acesso à verdade pode existir através do conhecimento realizado através da demonstração; 2) parte do princípio da existência de uma elite de iluminados, uma espécie de “povo eleito”, que têm a exclusividade do acesso à verdade através de argumentos demonstrativos.

O problema das fontes do conhecimento é complexo, mas podemos afirmar com alguma segurança que o argumento demonstrativo é apenas um dos meios para caminhar em direcção à verdade que, aliás, nunca saberemos, com certeza, se é, de facto, a verdade : a intuição intelectual e a imaginação humanas são outras fontes de conhecimento, na sua essência, subjectivas.

O verdadeiro Cristianismo combateu o ecossistema ideológico de Averróis : a verdade está acessível a todos os seres humanos (nomeadamente através da noção de “Graça”), e não só a uma elite auto-proclamada; e o caminho para a verdade não depende somente dos argumentos demonstrativos, mas essencialmente da intuição e da imaginação humanas.

Portanto, quando uma jugular defende o ecossistema ideológico de Averróis, defende também o seu estatuto gnóstico moderno de pertença a uma elite auto-proclamada. O Jairo Entrecosto tem toda a razão.

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2 Comentários »

  1. No meu site sou assaltado o tempo todo por este tipo de gente, vide o texto do aborto que fez aparecer um monte de gente do nada para defender o aborto(e para a minha decepção a maioria eram homens).

    Existe um outro tipo de patrulhamento ideológico(além do vulgar que conhecemos) que se trata dessa espécie ai gnósticista. “Você não tem autorização para falar sobre o assunto” ou “somente quem sabe X deveria falar sobre o assunto”.

    Comentário por shâmtia ayômide — Quinta-feira, 18 Novembro 2010 @ 8:10 pm | Responder

  2. O argumento da “autoridade de direito para falar do assunto” é anti-científico, porque parte do pressuposto de que as fontes de conhecimento são restritas a uma elite de auto-iluminados. O cientismo é a manifestação gnóstica da modernidade, por excelência.

    Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 18 Novembro 2010 @ 8:20 pm | Responder


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