perspectivas

Terça-feira, 9 Novembro 2010

“Imaginem o mundo sem religião” — dizem John Lennon e Richard Dawkins

A religião faz parte da condição humana, e por isso é irredutível. A exigência da religião em relação ao Homem é difícil de definir, exactamente em função dessa irredutibilidade.

Quando alguém diz: “imaginem um mundo sem religião”, nada mais faz senão expressar a sua religiosidade, o que significa que, neste caso, é o tipo de religião que muda, mas a religião, em si mesma, é impossível de erradicar senão através da exterminação da humanidade. A única forma de imaginarmos, de facto, um mundo sem religião, é acabarmos com a humanidade.

Se a religião faz parte da condição humana e de uma forma irredutível, o que o neo-ateísmo está a tentar fazer é erradicar as religiões universais e transcendentais, substituindo-as por uma nova religião. E essa nova religião neo-ateísta é um sucedâneo da religião política marxista — é o materialismo dialéctico transformado e ressuscitado depois do seu fracasso histórico e travestido de não-religião.

É aqui que o neo-ateísmo falha, como aspirante a uma nova religião: não é possível, ao ser humano, e por sua alta recreação, alterar a natureza da realidade e a forma como ele próprio — na sua subjectividade e nas relações de intersubjectividade – a percepciona e sente, porque a transcendência faz parte dessa realidade que torna a religião irredutível à condição humana.

7 comentários »

  1. E não se esqueçam os milhões de mortos que esta linda imaginação já provocou.

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    Comentar por Jairo Entrecosto — Quarta-feira, 10 Novembro 2010 @ 12:51 am | Responder

  2. O neo-ateísmo rende um culto ao nada e principalmente ao Acaso, que ocupa o lugar do incognoscível.

    As pessoas comuns quando não tem ciência de algum fenômeno atribuem ele a Deus ou as coisas espirituais.

    Na psicanálise e no neo-ateísmo, troca-se o que explica o inexplicável, pelo “inconsciente”(ou subconsciente) e no outro pelo “acaso”.

    Uma das características dos gnósticos, é uma crença de que existe uma “maneira” de acessar o incognoscível(como a caixa preta dos aviões) e portanto Deus, conhecer aquilo que não é conhecido e transformando a si mesmo em algo divino, essa maneira se dá pela própria religião gnóstica e suas vias de “salvação”.

    Então somente pela psicanálise se poderia obter um conhecimento do “subconsciente” e através neoateismo/darwinismo obter um conhecimento do “acaso” que deu origem a tudo, quem não se rende a essas religiões são os “leigos” condenados ao inferno.

    Alguns psicanalistas chegam a dizer que só é possível entender a psicanálise se você se “deixar psicanalisar”, ou seja: colocam a adesão a religião gnóstica como condição para o entendimento dela.

    O que diferencia o leigo dos gnósticos é que o leigo entende que talvez certas coisas tenham ocorrido por que “Deus quis assim” e não pretende ter o “conhecimento de Deus”.

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    Comentar por shâmtia ayômide@hotmail.com — Quarta-feira, 10 Novembro 2010 @ 10:35 am | Responder

  3. Só que esta “caixa preta” não se abre tão fácil como a dos aviões, muita gente passa dez, vinte anos, e até o resto da vida, fazendo terapia, revolvendo a ferida sessão após sessão, sem nunca chegar a lugar algum. Tal “Trabalho de Sísifo” não é a verdadeira imagem do inferno?

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    Comentar por Riva — Quarta-feira, 10 Novembro 2010 @ 4:33 pm | Responder

  4. Sem dúvida.

    Existe um recurso recorrente a eles, que apelidei de falácia do “piedoso subterfúgio”[1]

    No piedoso subterfúgio, um “mestre” inventa uma determinada doutrina, quando indagado sobre problemas teóricos da doutrina, ele diz que: -Só é possível entendê-la praticando.

    Quando os discípulos tenta praticar a doutrina e fracassam, o mestre responde a eles: -Se praticaram e deu errado é por que não entenderam”

    Tal artificio cria um circulo vicioso, o mestre sempre criará mais e mais desafios teóricos e impossíveis de serem praticados como condição para que os discípulos consigam o “conhecimento da caixa preta” e realização do paraíso terrestre.

    Contudo tal expediente é claro nunca engana todos com perfeição, alguns discípulos se revoltam contra o mestre, mas ainda assim permanecem presos a religião gnóstica, o que fazem é apenas se declararem mestres no lugar do velho mestre.

    Tal característica é por excelência gnóstica, Santo Irineu de Lyon no séc. II denunciava que uma característica das várias seitas que se erguia na época era o surgimento de mestres após mestres, cada qual reclamando para si a posse da verdade gnóstica e acusando os demais de traidores e falsificadores.

    No marxismo tal expediente é usado até hoje, os marxistas modernos dizem que Stalin, Lênin et caterva deturparam o “verdadeiro marxismo”(ou seja o argumento de que praticaram mas falharam por que não entenderam). Mas onde está o verdadeiro socialismo, se próprio Marx lavando as mãos dizia que cabia a ciência responder isso(ou seja o argumento de que só entenderiam a doutrina praticando ela). Marx era um pragmatista roxo.

    [1]nota: (na verdade a idéia original é de um livro de Olavo de Carvalho, o “Jardim das Aflições”, mas a explicação no livro é complexa e detalhada e se foca somente na filosofia não penetrando no aspecto das religiões gnósticas, consome várias páginas abordando mais a filosofia grega e o pensamento de Karl Marx, por isso elaborei analogias para simplificar a explicação e dei o apelido referente a seção do livro).

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    Comentar por shâmtia ayômide@hotmail.com — Quinta-feira, 11 Novembro 2010 @ 12:52 am | Responder

  5. São Irineu de Lyon pelo que li em resumos, realizou um trabalho importantíssimo ao detectar e denunciar os vícios das religiões gnóstica, pena que ainda não tive acesso aos livros dele.

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    Comentar por shâmtia ayômide@hotmail.com — Quinta-feira, 11 Novembro 2010 @ 1:01 am | Responder

  6. Achei uma biblioteca interessante com partes do livro “contra as heresias” de são Irineu.
    http://www.4shared.com/dir/3031008/dc32a599/Espiritualidade_e_Religio.html

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    Comentar por shâmtia ayômide@hotmail.com — Quinta-feira, 11 Novembro 2010 @ 1:11 am | Responder

  7. Sobre S. Irineu só sei aquilo que se escreveu sobre ele, por exemplo, as alusões feitas a ele por Hans Jonas, por Eric Voegelin, Mircea Eliade, e as referências feitas a ele nas boas enciclopédias de filosofia. Nunca li nada dele.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 11 Novembro 2010 @ 5:02 am | Responder


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