perspectivas

Sábado, 30 Outubro 2010

Um exemplo do manual de instruções dos religiosos ateístas

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 3:11 pm
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Ao ler este postal do Jairo Entrecosto, deu-me a ideia de que os os religiosos ateus dispõem de uma espécie de catálogo de falácias à la carte, de tipo “manual de instruções” de funcionamento de uma máquina: sempre que entram numa discussão, trazem consigo o “manual de falácias”, tal como se convencionou caricaturizar o típico cidadão alemão, quadrado de raciocínio, sempre acompanhado de um manual de instruções de qualquer coisa.

Atentemos a esta proposição #1 :

«O ateísmo, ao postular que o Universo, a vida e o ser humano surgiram acidentalmente por processos irracionais só pode mesmo ser o cúmulo da irracionalidade. Se os seres humanos, os seus pensamentos e as suas condutas dependem, em última análise, de uma sucessão de acidentes, porque é que temos que estar preocupados com o que os adultos ensinam às crianças?»


O ateu de serviço a que se refere o Jairo Entrecosto no seu postal supracitado, acusa quem escreveu a proposição acima, daquilo a que aquele chamou — e se convencionou chamar nos meios populares de cultura urbana — de “falácia genética”. A “falácia genética” foi assim definida pelo religioso ateu (proposição #2):

“É a inferência, incorrecta, das qualidades de algo a partir do processo que lhe deu origem ou daquilo que o precedeu.”

O que se pretendeu referir foi (penso eu) a falácia Non Causa Pro Causa, que ocorre quando se identifica uma determinada coisa ou fenómeno como sendo a causa de outra coisa ou fenómeno, sem que realmente exista uma relação causal deduzida ou evidente entre as duas coisas ou fenómenos. Por exemplo (proposição #3):

«Antes da batalha, não rezei a Deus e o meu camarada rezou. Ele morreu na batalha e eu não. Por isso, Deus não existe porque não o salvou da morte.»

Atribui-se como causa da morte do camarada, a inépcia de Deus e concluindo-se, por este facto, que Ele não existe — estabelecendo-se uma relação causal entre as duas situações que não está provada nem é evidente.

O ateísta de serviço, ao atribuir à proposição #1 a qualidade da falácia Non Causa Pro Causa, incorre na falácia Ignoratio Elenchi (ou falácia da Conclusão Irrelevante) 😆 , que consiste em tirar uma conclusão de um determinado argumento quando não existe nenhuma relação lógica entre o argumento e a conclusão que foi tirada.


Agora, atentemos a uma proposição #4 da autoria de Nicolas Gomez Dávila :

«Se a alma é um mito, o genocídio é apenas um problema de anestésicos fortes.»



Nicolas Gomez Dávila estabelece uma relação lógica e causal entre a ausência da noção cultural de “alma” e a facilitação do genocídio. O ateísta de serviço poderá argumentar que esta proposição padece da falácia de Non Causa Pro Causa, alegando que não existe nenhuma relação de causa-efeito entre a noção cultural assumida da inexistência da “alma” e a facilitação do genocídio. Porém, a experiência humana já constatou que, só no século XX, existiram cerca de 200 milhões de vítimas de regimes políticos que acreditavam, na sua essência ideológica, que a “alma” é um mito (comunismo e nazismo). Portanto, negar a experiência humana e histórica, e negar a relação causal que essa experiência humana constata na realidade, é falacioso.


Por fim, voltemos à proposição #1.

Aquilo que os adultos ensinam às crianças pressupõe um FIM, uma finalidade, para as crianças e para a sociedade. Os adultos ensinam as crianças para determinado FIM. Se existe um determinado FIM contido naquilo que os adultos ensinam às crianças, existe uma INTENCIONALIDADE nesse ensino.

O que a pessoa que escreveu a proposição #1 quis dizer, é que é absurdo — ou seja, não segue uma lógica inteligível — que de um acidente aleatório primordial resulte uma série infindável de INTENCIONALIDADES universais, e entre estas, o facto de os adultos ensinarem INTENCIONALMENTE as crianças.

Sob o ponto de vista da lógica, de um acontecimento aleatório ocorrido em situação de caos inerte e sem vida, não pode resultar uma INTENCIONALIDADE do universo em relação a um FIM que se traduz no sentido da sintonização para a vida : a Ciência Física já constatou que o universo está sintonizado para a vida. Só pode existir INTENCIONALIDADE quando existe princípio, meio e fim.

Portanto, não existe nenhuma falácia na proposição #1.

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2 comentários »

  1. Talvez a expressão “falácia genética” tenha sido decalcada do inglês.
    Por acaso, a primeira vez que a ouvi foi pela boca de William Lane Craig, quando cilindrou o neo-ateísta Peter Atkins:

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    Comentar por Jairo Entrecosto — Sábado, 30 Outubro 2010 @ 4:52 pm | Responder

  2. Estive a ver na Wikipedia em inglês, e a “falácia genética” pertence ao grupo das falácias de conclusão irrelevante.

    Falácia genética = IGNORATIO ELENCHI ou falácia da “conclusão irrelevante”.

    Desgraçadamente, foi nesta falácia em que incorreu o ateísta religioso; ele pretendia utilizar a NON CAUSA PRO CAUSA e acabou por incorrer ele próprio na IGNORATIO ELENCHI.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 30 Outubro 2010 @ 7:02 pm | Responder


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