perspectivas

Sexta-feira, 29 Outubro 2010

Sobre o conhecimento e a limitação humana

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:49 pm
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«Se você afirma que o ser humano não tem capacidade de conhecer quase nada, você automaticamente se coloca numa posição sobre-humana.»

Esta proposição foi publicada no Twitter. Devemos ter em atenção, antes de mais, os seguintes detalhes da proposição :

  • fala-se em ser humano em geral, e depreende-se que se refere à condição humana, e não a um grupo social especifico, situado em qualquer tempo;
  • quando se fala em “conhecer”, quer-se dizer “conhecer a verdade”;
  • falta definir “quase nada”.


A melhor definição que encontro para “quase nada” é a que decorre do conceito de “Douta Ignorância” de Nicolau de Cusa, por um lado, e a da teoria do conhecimento finito de Gierer, por outro lado: segundo Cusa, se a verdade é do domínio do infinito e o conhecimento humano do domínio do finito, por mais que o Homem se aproxime do conhecimento da verdade por graus sucessivos de conhecimento, todo o esforço de conhecer redundará em um relativo e proporcional “quase nada”.

A teoria do conhecimento finística de Gierer refere que do número máximo de operações realizáveis no cosmo (porque o cosmo ou universo, é finito), resulta como consequência o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos de processamento de informações através computador. Sobretudo é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação. Gierer refere-se aqui estritamente ao Homem inserido no universo ou mundo do senso-comum, como é óbvio. Gierer estabelece o limite máximo do conhecimento possível no mundo macroscópico na constante cosmológica do universo: 10^120 (não dá para falar agora do que Gierer entende por “constante cosmológica do universo”).

Se o próprio conhecimento possível é limitado por natureza (Gierer) e se quanto mais sabemos, mais temos consciência de que muito mais nos falta saber (Cusa) até que o limite universal do conhecimento, segundo Gierer, seja eventualmente e apenas em tese, atingido — concluo que o “quase nada” é sempre o nosso conhecimento relativo e proporcional, segundo o conceito de Nicolau de Cusa. O Homem nunca deixa de saber “quase nada”.

O meu interlocutor no Twitter disse-me que eu estaria a fazer confusão entre a Douta Ignorância de Cusa e o cepticismo estrito.

Porém, a confusão era dele: o cepticismo estrito, como por exemplo o de Hume, não reconhece sequer a capacidade do Homem em conhecer alguma coisa para além dos primeiros princípios. A não ser que “quase nada” seja apenas e tão só a percepção intuitiva dos primeiros princípios, o que eu digo é que o “quase nada” do conhecimento humano se mantém sempre proporcional ao infinito (Cusa) e circunscrito à própria limitação universal do conhecimento (Gierer), e portanto, reconhecer que o Homem sabe e saberá sempre “quase nada” é reconhecer a sua condição humana, e não é assumir uma posição sobre-humana.

Nota: o “chato” foi que o meu interlocutor “afinou” pelo facto de eu ter levantado uma dúvida sobre a sua proposição. Resultou num acordo: excluímo-nos das respectivas listas de contactos.

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1 Comentário »

  1. Estou de acordo com o “quase nada” a propósito do conhecimento como foi definido. É “um quase nada” que não tem qualquer medida possível porque nunca se saberá o que ainda falta saber (ou conhecer. Situamo-nos num universo finito. Neste caso, os conhecimentos de diversos seres humanos poderão ser comparáveis.

    Quando à ignorância situa-se para nós no plano do infinito porque nunca saberemos o que nos falta conhecer. Acontece até que quanto maos conhecemos mais ignorantes nos sentimos. Não há comparação possível de “graus de ignorância”. Nem sequer temos a certeza de o que conhecemos, conhecemos mesmo…

    De qualquer modo aceito: conhecemos quase nada, um quase nada infinitesimal…

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    Comentar por Alfredo Sousa — Sábado, 30 Outubro 2010 @ 2:05 am | Responder


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