perspectivas

Terça-feira, 26 Outubro 2010

A decadência ética ocidental

Peter Singer adora animais...

Não vou falar muito do programa de ontem na RTP1, da Fátima Campos Ferreira, sobre a legalização da eutanásia, até porque é possível que um dia destes a Fatinha faça um programa acerca da legalização da pedofilia. Mas o que não é só possível mas até provável, é que a Fátima Campos Ferreira venha um dia destes com um programa sobre a legalização do infanticídio, seja de crianças deficientes ou não. Tudo depende da acção política do Bloco de Esquerda, que é o partido que realmente dirige este país.

Recentemente, alguns “bio-éticos” e “filósofos” juntaram-se nos Estados Unidos para discutir o “estatuto ético da criança”. Entre eles estavam dois, Peter Singer e Jeffrey Reiman, que defendem basicamente a ideia de que uma criança não tem um estatuto ético/moral humano porque, dizem eles, “a criança recém-nascida não têm autoconsciência”. Peter Singer, num seu recente livro, compara uma criança recém-nascida (até à idade de 1 mês) a um peixe (sic), ou seja, o estatuto ético de um recém-nascido é comparado por ele ao estatuto ético de um peixe. Reiman vai mais longe: a criança não tem um estatuto ético-moral humano durante vários anos da sua vida, “até que possa tomar consciência de cuidar da sua vida”, o que significa que antes dos 9 ou 10 anos, e segundo Reiman, uma criança não tem um estatuto moral.

Ambos os bio-éticos dizem que uma mulher tem o direito não só ao aborto até aos nove meses de gravidez, mas tem o direito de matar o filho já nascido — ou seja, a mulher tem o direito de matar um filho, seja este não-nascido ou nascido; no caso de Reiman, esse direito da mulher a matar o seu filho estende-se por vários anos, o que significa que, segundo Reiman, uma mulher tem o direito de matar um filho com seis ou sete anos de idade. Como era de esperar, o direito à morte da criança não-nascida (o aborto) desemboca inexoravelmente no direito à morte da criança nascida.


Os racionalistas jónicos estiveram na origem da civilização ocidental quando iniciaram um processo de crítica sistemática às aventuras e às decisões arbitrárias dos deuses da mitologia grega. As críticas do racionalismo grego visaram sobretudo a imoralidade dos deuses e os seus actos, o seu comportamento caprichoso e injusto tal como eram narrados por Homero e por Hesíodo. Foi por aqui que surgiu a civilização ocidental e a ética que influenciou, até certo ponto, o Cristianismo.

A decadência ocidental faz-se hoje num percurso inverso. Os deuses caprichosos, arbitrários, injustos e imorais passaram a ser os Homens que se sobrepõem ao racionalismo de um Xenófanes. Impera hoje, outra vez, a ética imoral dos deuses da mitologia grega, e o racionalismo jónico é considerado retrógrado e reaccionário. A diferença é que o deus/homem actual — encarnado por um Peter Singer, Reiman, ou Francisco Louçã, e que tiveram o seu herói mítico em Nietzsche — fala em nome de um racionalismo que não é racional, ao contrário dos gregos que juntaram ao seu racionalismo humano, a racionalidade universal.


... e outro que adorava animais...

As ideias dos actuais deuses/homens olímpicos, como Singer e Reiman, são facilmente rebatidas usando argumentos éticos, biológicos e metafísicos.

Do ponto de vista ético, o estatuto de um ser não depende apenas da sua condição existencial — entendida per se e isolada de um Ethos global. O estatuto ético de um ser depende daquilo que ele é enquanto substância — igual a todos os outros na sua natureza enquanto ser substancial —, e daquilo que ele é no sentido do processo de devir. Não podemos racionalmente truncar o fundamento ético de um ser em função de um determinado momento, ou duração temporal, da sua existência.

Por outro lado, não existe um consenso, grande ou pequeno, acerca do valor e custos convenientes de uma vida humana. E mesmo em relação às crianças deficientes, aos quais Singer se refere dizendo que “são vidas que não valem a pena serem vividas” (sic), Singer incorre num “sofisma naturalista”, visto que não se pode tirar conclusões morais de um facto.

É surpreendente como gente com tantas limitações intelectuais, como Peter Singer ou Richard Dawkins, são hoje elevados aos píncaros das academias e dos areópagos internacionais. Alguém disse — não me lembro agora quem; penso que foi o nosso poeta Aleixo — mais ou menos isto: “de tanto ver burros em lugares de proeminência, já acredito que a burrice é uma ciência.”

Esta negação do estatuto ético da criança, nascida e não nascida, entronca no problema da eutanásia que foi abordado no supracitado programa da Fátima Campos Ferreira: se o argumento contra a vida do ser humano é a sua auto-determinação através da autoconsciência, então as pessoas adultas que se encontram alegadamente em uma situação temporária e/ou permanente de inconsciência ficam também desprovidas do estatuto ético-moral de um ser humano.

A esquerda — Peter Singer e Reiman são marxistas, para além dos ateístas/marxistas de serviço como, por exemplo, Hitchens e Richard Dawkins —, que alegadamente defende a justiça e a igualdade, nega assim ao ser humano a igualdade basilar e fundamental, estratificando a condição humana em condição de preconceitos negativos que hierarquizam a razão humana.

A esquerda neomarxista e libertária actual acha que os direitos se dão e se tiram, de uma forma arbitrária como a protagonizada pelos privilegiados deuses do Olimpo. O conceito marxista cultural de “tolerância repressiva” dá expressão a esta ideia: podemos dar direitos basilares e fundamentais a uns, e retirá-los a outros.

Mas a realidade é totalmente diferente daquela que os neomarxistas concebem: os direitos não se dão nem se tiram: os direitos reconhecem-se, ou seja, são reconhecidos e confirmados. E esse reconhecimento dos direitos parte da profundeza espiritual intersubjectiva e do íntimo psicológico de cada ser humano vivendo em sociedade. E em todos os seres humanos, nascidos ou ainda por nascer, e apesar das nossas diferenças, existe uma idêntica igualdade radical (de “raiz”; de origem) concedida pela natureza.

1 Comentário »

  1. Imagino que os estimados animais não tem autoconsciência, poderia-se utilizar da lei de proteção aos animais para prezervar as crianças destes maníacos.
    A intenção deles é obvia por trás desta conversa: eliminar os inimigos do regime. Começa-se pelo feto, depois os recém-nascidos e por ai vai…
    Não falta criatividade aos tiranos quando se trata de inventar pretextos para justificar o genocídio.

    Gostar

    Comentar por Riva — Quinta-feira, 28 Outubro 2010 @ 7:33 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: