perspectivas

Terça-feira, 19 Outubro 2010

O mito e o tabu gayzistas (2)

O grande problema da narrativa do Tuga é o facto de normalmente ser difusa; normalmente temos a tendência para as introduções gerais que depois dão em nada. Mas vou tentar dissecar este texto de uma tal Palmira Silva, que são sei quem é exactamente, nem me interessa saber.

O princípio do argumento crítico parece ser este: a maioria dos católicos diz-se católica quando não conhece as bases doutrinárias/teológicas que sustentam a sua religião.

Em primeiro lugar, o simples facto de a maioria das pessoas que compram um DVD ignorarem de todo a equação de Schrödinger e os rudimentos da mecânica quântica, não significa — pelo menos aos olhos da Palmira e segundo o princípio enunciado — que essas pessoas devam ser criticadas por isso. O que as pessoas sabem é que o DVD funciona, independentemente de ter uma noção mais ou menos esclarecida sobre o contributo da mecânica quântica para o funcionamento do DVD. Isto significa que o ser humano atribui um alto valor à sua experiência subjectiva.

Porém, a Palmira critica o católico que, por uma questão de experiência subjectiva, é religioso sem conhecer em detalhe os princípios filosóficos e/ou teológicos que escoram a transubstanciação eucarística, mas ela própria não sabe como funciona o seu (dela) telemóvel — para usar uma sua (dela) analogia. Para a Palmira, o que é condenável é que o religioso o seja sem conhecer em detalhe a filosofia/teologia de base da religião; mas se um cidadão é ignorante em relação à ciência e à técnica, então já não há problema nenhum que ele encare a técnica e a ciência como uma espécie de religião de que não conhece a essência.

O que a Palmira defende é que se substitua a sotaina pela bata branca, isto é, ela confunde ciência com religião, como está eloquentemente demonstrado pelo gráfico que apresentou na abertura do seu postal. A diferença é que a transformação do cientismo em uma espécie de religião ignora o sujeito por uma questão de característica essencial da ciência, enquanto que a religião transcendental e tradicional — mesmo que se ignore os seus fundamentos teológicos ou filosóficos — é expressamente dirigida à subjectividade humana.

Portanto, já avançamos um pouco na desconstrução ideológica da introdução geral da Palmira.

Em segundo lugar, a Palmira parte do princípio de que a ciência explica a realidade. Ora a verdade é que a ciência apenas descreve partes da realidade, e mesmo estas, a ciência nunca as explica. Descrever uma coisa é diferente de explicá-la. Portanto, o conhecimento da ciência é sempre descritivo, normativo mas não-fundamental.
Por outro lado, a religião tem uma função de fundamentalização da realidade — mesmo que o cidadão não conheça patavina de teologia. Essa fundamentalização da realidade é subjectiva e intersubjectiva — mas nunca é objectiva no sentido científico/positivista.

A única forma de criticar as bases de uma religião é usar argumentos teológicos (que é exactamente o que a Palmira faz, usando argumentos de uma pretensa “religião cientificista”), assim como a forma correcta de criticar um sistema filosófico é usando a filosofia, e assim como a forma correcta de contradizer uma teoria científica é usando argumentos próprios da ciência. Ora a Palmira confunde tudo isto, o que revela ou má-fé ou simples ignorância.


Por último, vamos rever a matéria dada:

  • A ciência positivista não pode, por característica própria, ocupar-se do sujeito. Só podemos fundamentar a noção de sujeito em uma forma tautológica, ou seja, baseando-a na experiência subjectiva. Do sujeito ocupa-se a filosofia e principalmente a religião — independentemente de as pessoas saberem ou não o Pai-Nosso de cor e salteado.
  • Se o conhecimento é produto do empirismo (experiência subjectiva e intersubjectiva), o próprio empirismo (no sentido do método positivista) não pode ser testado e verificado empiricamente, ou seja, o próprio método positivista (mesmo que propositadamente enviesado) é axiomático (no sentido dos axiomas universais) e aponta necessariamente para a metafísica.

Em face disto, é relativamente irrelevante que o cidadão tenha a exacta consciência do que é a transubstanciação eucarística no seu fundamento teológico. O que conta é a experiência subjectiva e intersubjectiva que o crente tem em Deus-Pai, ou seja, a experiência subjectiva da cosmogonia (falarei mais tarde nos mitos cosmogónicos e nos mitos de origem, que subsistem ainda hoje, adormecidos ou adulterados, no homem moderno) — crença essa que a Palmira pretende substituir por uma espécie de crença religiosa na ciência que não se pode ocupar do sujeito (robotismo cientificista).

Adenda: normalmente não comento postais do Jugular. Fiz deste uma excepção por causa deste postal do Jairo Entrecosto.

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