perspectivas

Domingo, 3 Outubro 2010

O erro de Hegel

« 1. O princípio da ciência é o conceito imediato, indeterminado, do ser. — 2. Este [o ser], na sua ausência de conteúdo, equivale ao nada. O nada, enquanto pensar daquela vacuidade, é assim inversamente ele próprio um ser e, em virtude da sua natureza, o mesmo que aquele [que o ser]. — 3. Não é, pois, nenhuma diferença do mesmo, mas o que é, é assim apenas a posição dos mesmos termos enquanto indistintos e o esvanecimento de cada um no seu contrário, ou é o puro devir. »

— Hegel, Propedêutica Filosófica

A dialéctica de Hegel parte do princípio acima enunciado, e quando um princípio está errado todo o desenvolvimento da teoria sofre com isso. O problema de Hegel foi meter o “nada” ao barulho, porque o nada não é de todo um negativo dialéctico do ser. O nada é exterior ao espaço-tempo, embora imanente ao espaço-tempo. O nada não pertence ao devir. O nada, sendo imanente e existente fora do espaço-tempo, é a charneira ou o lugar intermédio entre a realidade da matéria organizada e o transcendente.

Porém, Hegel diz que o nada é um dos dois componentes do devir — o outro componente é o ser. É a partir deste erro fundamental que se construiu grande parte das teorias materialistas dos séculos XIX e XX, entre elas o marxismo, e suas diversas e consequentes vergônteas. Se, como dizia Hegel, o nada faz parte da realidade do devir, e portanto, da matéria, o Todo passa a ser estritamente material — “material” aqui entendido no sentido científico que define a matéria como tendo massa e estando sujeito às leis da física.

A nossa crítica a Hegel e à dialéctica em geral (incluindo o marxismo dialéctico) não é política, mas filosófica. A discordância política que possa ocorrer é apenas uma consequência da crítica filosófica.

O nada é a não-localidade; existe fora do nosso espaço-tempo. A não-localidade é, por assim dizer, uma dimensão da realidade que nos é imanente, e obviamente que sendo imanente não é transcendente ao mesmo tempo que nos faz pensar a transcendência.
Um electrão, por exemplo, quando assumindo a sua função de onda, pode “entrar”, mais ou menos, na não-localidade. Digo “mais ou menos” porque a permanência da onda quântica na não-localidade pode ser maior ou menor, dependendo do facto de o seu comportamento (da onda) ser mais ou menos ignorado pela Consciência (qualquer que seja essa consciência, embora tendo em conta os vários graus de consciência).
Podemos dizer que é pelo facto de a Consciência ignorar ou se abstrair da onda quântica e da sua realidade (da realidade do microcosmos) que a realidade imanente da não-localidade pode existir. Quando a Consciência intervém junto da imanência da não-localidade, os acontecimentos possíveis passam a ganhar forma através da transformação da onda em partícula material.

Sendo o nada a não-localidade, ele não pode fazer parte do devir propriamente dito. O devir só pode ser concebido em função de tudo o que tem massa e está sujeito a leis da natureza macroscópica determinadas pela força entrópica da gravidade.

Por outro lado, Hegel reduz a noção de “ser” à matéria, quando transforma o “nada” em uma componente binária do devir. Ora, o que acontece é que a matéria é apenas uma das estruturas da realidade e, como vimos, a não-localidade, sendo imanente e não material, pertence a outra estrutura da realidade.

O electrão de que falei acima tem — enquanto partícula e não enquanto onda – como parceiro, no processo do devir, um positrão. As propriedades do positrão são praticamente idênticas à do electrão, apresentando contudo uma diferença fundamental: no positrão encontra-se tudo invertido quando comparado com o electrão. Enquanto que no electrão a carga eléctrica é negativa, no positrão é positiva; a direcção da rotação (spin) do electrão é oposta à do positrão. No entanto, a massa do positrão é positiva — o positrão tem massa — o que é uma condição sine qua non daquilo a que chamamos matéria e que determina o processo do devir.

Portanto, o positrão como partícula, não é o “nada”, ou seja, não faz parte da não-localidade. Da interacção entre o electrão e o positrão (ou seja, da interacção entre a matéria e a anti-matéria) surge o devir que ocorre numa estrutura da realidade em que ganha força a constância do macrocosmos regido por leis quase absolutas (o sol nasce todos os dias, etc.). Podemos dizer, de uma forma metafórica, que o positrão é um electrão que viaja para trás no tempo, enquanto que o electrão avança para o futuro dos acontecimentos possíveis e não determinados, e é da interacção entre o electrão e o positrão (da matéria e da anti-matéria) que nos surge o fenómeno do devir.

Porém, o “nada” não tem nada a ver com esta história. O “nada” é por definição a própria ausência do espaço-tempo, se pensarmos o “nada” como sendo a ausência daquilo que existe na estrutura material da realidade — e portanto, o “nada” não pode estar directamente ligado ao processo de devir da matéria.

O erro de Hegel foi pensar o “nada” como sendo parte da estrutura material da realidade, e com isso deu azo a erros enormes subsequentes para a história das ideias, e de consequências terríveis para a humanidade acabada de sair do Iluminismo.

Parte II

Anúncios

1 Comentário »

  1. […] primeiro postal sobre O Erro de Hegel, fiz uma crítica a partir da quântica, e parece que muita gente não a percebeu porque desconhece […]

    Gostar

    Pingback por O Erro de Hegel (2) « perspectivas — Quarta-feira, 6 Outubro 2010 @ 12:13 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: