perspectivas

Sexta-feira, 17 Setembro 2010

A questão dos ciganos e Sarkozy


Eu não tenho grande simpatia pessoal por Sarkozy, entre outras coisas porque não aprecio gente que se coloca em bicos de pés, e o Sarko não perde uma oportunidade para o fazer. Também não gosto da atitude de gigolo de bas-fond parisien que resulta invariavelmente em corno manso. Do ponto de vista ideológico, Sarko não tem ideias: chegou onde chegou aguentando os cheiros dos outros; aliás, a indómita capacidade de suportar a flatulência alheia é uma característica neoliberal.

Toda a gente sabe que Sarkozy tem ganho as eleições à custa do povo de direita. A prova disso é que desde que ele se candidatou à presidência da república francesa, Le Pen desapareceu do mapa político francês. E o povo de direita quer ordem em França; não gosta dos distúrbios constantes que têm assaltado não só a capital francesa como várias cidades de França, com viaturas queimadas por “dá cá aquela palha”.

A Europa confronta-se agora e em crescendo com os erros de esquerda que vêm do passado recente. A Europa escancarou as portas à imigração ao mesmo tempo que criava o facilitismo em relação ao aborto da população autóctone, e os resultados estão à vista. Os políticos franceses sabem que, se não forem tomadas medidas, a França será um país descaracterizado dentro de duas ou três décadas, e as leis da república correm o risco de ser substituídas pela lei islâmica.

As eleições francesas aproximam-se, e Sarkozy vai mais uma vez atrás do cheiro político. E desta vez foram os ciganos búlgaros os bodes expiatórios e os bombos da festa, como poderiam ser cidadãos albaneses, gaboneses ou mesmo portugueses. Sarko tem que dar a impressão e passar a mensagem de estar a “fazer alguma coisa”. Porém, a expulsão dos ciganos ilegais, se bem que legítima e pertinente, é uma medida avulsa e desconexa, com propósitos eleitorais. É uma medida populista: não se insere em uma política coerente de salvaguarda da república e culturas francesas, a longo prazo.

Mas o que conta nestas coisas é a jurisprudência e o estabelecimento de um princípio. A França — e a Alemanha vem a seguir —, pela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial procedeu a um Heimkehr. É provável que venham a seguir medidas políticas de restrição de nacionalização de imigrantes até à terceira ou quarta geração, por um lado, e mais medidas estatais de apoio às famílias numerosas exclusivamente de origem ou nacionalidade francesa. É provável que aos imigrantes sem trabalho (e sem nacionalidade francesa) sejam cortados os apoios sociais e sejam convidados a sair do país através de negociação de compensações financeiras.

A proibição recente do uso da Burka e do Niqab em locais públicos de França vem reforçar a noção que temos de que os políticos franceses estão a tomar consciência do problema da imigração massiva e selvagem, e principalmente a imigração islâmica. Por outro lado, Sarkozy fez implicitamente um aviso à Turquia: não pensem que uma eventual entrada da Turquia na União Europeia significa uma invasão populacional turca: há sempre a possibilidade do Heimkehr.

A Europa tem que mudar de rumo, ou morre. Ainda há dias vimos o Gadhafi da Líbia alardear a sua sobranceria berbere afirmando que a Europa tem que passar a ser islâmica. Era o que me faltava acordar todos os dias ao som dos berros do muezim cá do bairro; seria preferível acordar ao som da voz esganiçada do Alfredo Marceneiro. Pelo menos, mal ou bem, o Alfredo faz parte da minha cultura.

Adenda:

Não sei como é possível defender a ideia de que deportar imigrantes ilegais, para além de ilegítimo, se pode comparar a medidas de discriminação rácica de tipo nazi. Esse texto é inacreditável: estava a lê-lo e a pensar se não teria ido parar, por engano, ao blogue do Daniel Oliveira.

Se coisas diferentes se podem comparar, o Sr. Carlos Botelho confunde “comparação” com “analogia”, que é a possibilidade de um mesmo epíteto ser aplicado metaforicamente a diversos substantivos. Comparamos coisas diferentes, mas com a analogia metemos tudo no mesmo saco. O que a comissária da União Europeia, a Sra. Redding, fez foi uma analogia, e não uma comparação. A comparação sublinha as diferenças, a analogia homologa as situações (homologia matemática), ou seja, tende a torná-las idênticas.

O texto não tem ponta por onde se lhe pegue porque desafia todas as regras da lógica. No seguimento da estúpida analogia da idiota Redding, só faltava ao Carlos Botelho dizer que os ciganos imigrantes ilegais não foram expulsos por serem ilegais, mas por serem ciganos. Nunca pensei que daquele blogue pudesse vir tanta estupidez.

Adenda 2 :

O Carlos Botelho defende a ideia segundo a qual os partidos que não concordem com as propostas do Bloco de Esquerda no parlamento, se devem abster.

2 comentários »

  1. Pelo que li no blogue do outro rapaz parece-me que há europeus entusiasmados com a ideia de deixar a Europa parecida com o Brasil. Não seria mais fácil, eles se mudarem para cá ou para a Arábia? Afinal lá teriam o sonhado paraíso multiétnico desde que se convertessem ao islã.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Sexta-feira, 17 Setembro 2010 @ 11:38 am | Responder

  2. “europeus entusiasmados com a ideia de deixar a Europa”

    E dizem que não são de esquerda!

    O Brasil teve uma formação da nacionalidade mais homogénea do ponto de vista da unidade cultural (cristianismo + língua). Não é o caso do problema da Europa.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 17 Setembro 2010 @ 1:37 pm | Responder


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