perspectivas

Quarta-feira, 15 Setembro 2010

A Nova Utopia marxista e a estratégia da Nova Direita

A estratégia da verdadeira direita deve ser a de recusar, ignorar e negar a Grande Recusa procedente da Utopia Negativa do marxismo cultural e da Escola de Frankfurt.

A queda do muro de Berlim elevou o nível de delírio e do absurdo da utopia anteriormente existente. O que estamos a assistir hoje na nossa sociedade (que inclui todo o ocidente) é um fenómeno novo que não foge à contingência dos erros antigos. Lembro-me da frase de Elsa Triolet: “o futuro não é a melhoria do presente; é outra coisa”. Ao contrário do que pensava Elsa Triolet, a utopia pensa sempre que o futuro é a melhoria do presente e que o erro humano pode ser eliminado. Porém, parece-me certa a ideia de que o planeta Terra nunca será o paraíso e que a nova utopia parece trabalhar afanosamente para que ele se transforme em uma coisa muito parecida com um inferno.

Elsa Triolet

Sendo um fenómeno novo — o que assistimos hoje e em termos políticos, culturais, sociais, sumarizado e designado aqui como “realidade sociológica” — é-nos difícil definir os seus contornos, porque de facto “entramos no futuro andando às arrecuas” (Paul Valéry). No entanto, os ideólogos e intelectuais que engendraram a nova utopia a partir das cinzas do Gulag e do Muro, talvez não pensassem que as consequências das suas ideias poderiam descambar exactamente no oposto daquilo que tinham preconizado.

No intelectual de esquerda existe uma certeza da verdade que decorre da negação da dimensão transcendental da realidade, embora paradoxalmente negue essa mesma certeza da verdade através de um relativismo pessoal que nunca se relativiza a si mesmo. A diferença principal entre um intelectual de direita e um outro de esquerda, é que o primeiro apenas tem a certeza daquilo que não é verdade, enquanto o segundo tem a certeza do monopólio da verdade através de uma posição relativista que nunca se relativiza a si próprio.

O intelectual de direita sabe que só se pode ter a noção exacta e realista do universo e da sua complexidade através de um conhecimento universal; o de esquerda parte do conhecimento relativo e particular para afirmar a noção exacta e absoluta, mas subjectiva, do universal.


Se não definimos os contornos da nova realidade sociológica, não nos podemos defender contra os excessos que ela inexoravelmente nos impõe. As massas populares andam à deriva, cogitando inconscientemente as novas tempestades históricas do futuro; a nova utopia surgida do cascalho do muro lançou as ideias, as estratégias e os métodos de acção política que já não pode controlar.

O perigo da nova utopia é que tem acesso global, o que significa a amplificação dos erros pretéritos sob novas roupagens. São as novas vestimentas da nova utopia que nos convencem de que ou já não existem erros, ou de que os erros são de índole diferente em relação às utopias do passado. Enquanto que, no passado, os erros das utopias políticas eram compartimentados no tempo e no espaço, eles surgem agora globalizados. Passámos de uma pequena bomba artesanal que mesmo assim matava muita gente, para uma bomba atómica ideológica capaz de levar a humanidade a uma situação em que o holocausto nazi já nos surge como uma brincadeira de crianças.

Gomez Dávila

Muitos intelectuais consideram hoje que a realidade sociológica está basicamente definida, mas trata-se de outro erro. Para além de ser difícil ao conteúdo definir o continente, mais difícil é ter uma noção do real em devir; e mais difícil ainda é ter uma ideia suficientemente precisa acerca das consequências ideológicas plantadas pela nova utopia na sequência da queda do muro de Berlim. A nova utopia faz a sociedade acreditar que os erros do passado pertencem à História; de facto, é verdade que a História não se repete, mas parece que nos esquecemos do facto real e insofismável de que a natureza humana essencial e fundamental não mudou só porque surgiu uma nova utopia, ou porque existe um fenómeno de devir que sempre existiu.

Podemos, a traço grosso, definir algumas consequências da implantação ideológica e cultural da nova utopia. O que salta imediatamente à vista é a divisão, crescente na sociedade, da dicotomia entre a subjectividade ideológica das religiões políticas, por um lado, e a ciência e a técnica, por outro lado. Parece que o espaço para a filosofia se esgotou (outro erro de percepção da realidade objectiva). Dá a sensação que o mundo se dividiu diametralmente, compartilhando as ideias ocas de um lado e do outro. Parece ganhar forma lógica a frase de Gomez Dávila: “Al que nace sin talento alguno se le debe aconsejar una carrera científica.”

Segue-se que a força da nova utopia, que se manifesta na forma de uma reformulada e repescada religião política ainda difusa mas em construção acelerada, permeabiliza a ciência e manipula a técnica através do cientismo, que é a crença segundo a qual o conhecimento científico — e particularmente as ciências da natureza — é não só a mais alta como mesmo a única forma de conhecimento. A ciência transformou-se em uma arma de arremesso político e ideológico, e perdeu muita da sua credibilidade. A descredibilização da ciência é um facto incontestável do nosso tempo, devido à forte promiscuidade com a política francamente comandada pela nova utopia.

A nova utopia já não é só da esquerda no sentido clássico do termo, mas atinge quase todos os quadrantes da política. Hoje, já não faz sentido falar em esquerda e em direita, mas de uma enorme esquerda que abrange quase todo o espectro político (incluindo, em Portugal, o próprio CDS). A diferença entre o Partido Social Democrata e o Bloco de Esquerda só diz respeito às funções e ao papel do Estado na sociedade; convenhamos que isso é muito pouco para que possamos fazer uma distinção clara entre direita e esquerda. O Partido Social Democrata (ou o Partido Socialista, que vai dar exactamente no mesmo) e o Bloco de Esquerda são apenas dois partidos (ou duas facções) dissidentes dentro de um mesmo movimento político.


Gulag


Foi a utopia marxista-leninista que transformou o nazismo em direita, quando na realidade a ideologia nazi se confundia com a esquerda. Foi a utopia marxista-leninista que transformou o socialista Mussolini em homem de direita. E foi a utopia marxista-leninista que escondeu, durante décadas, os seus Gulag ao mesmo tempo que denunciava os crimes concentracionários dos nacional-socialistas.

A verdade é que a direita praticamente não existe na Europa, pelo menos de forma organizada. Falar em direita na Europa é ridículo. Talvez o único país do mundo onde exista ainda uma direita seja nos Estados Unidos. A direita europeia é um espantalho que anima e reforça a tomada do poder europeu pela nova utopia; a direita é o inimigo imaginário e necessário para fazer avançar e propagar o mito da nova esquerda que abarca já quase todo o espectro político europeu. A verdadeira direita — como é o caso da direita americana — está fora do processo dialéctico marxista, ou seja, recusa esse processo e coloca-se à margem dele, ignorando-o. Para a verdadeira direita, as ideias de Karl Marx e sucedâneas, sejam estas entendidas global ou particularmente, não são sequer opção de discussão, e é neste sentido que se opera a recusa da dialéctica marxista por parte da verdadeira direita.

A dialéctica marxista pretende sempre operar em dois carrinhos, ou seja, numa lógica de win-win, através da qual e seja qual for a resposta do oponente, os intelectuais marxistas reivindicam sempre a vitória da sua verdade — de vitória em vitória até à derrota final que se consubstanciou na queda do Muro. Trata-se do mesmo tipo de lógica utilizada pelo integrismo islâmico na questão na nova mesquita do Ground Zero: ou se constrói a mesquita e os Estados Unidos perdem, ou não se constrói a mesquita e os Estados Unidos perdem.

A única forma de contrariar esta lógica dialéctica marxista é ignorá-la, recusando-a, e impondo no seu lugar o mesmo senso-comum que o adversário político utilizaria nas mesmas circunstâncias. É isto que a verdadeira direita faz, sejam quais forem as consequências. A estratégia da verdadeira direita deve ser a de recusar, ignorar e negar a Grande Recusa procedente da Utopia Negativa do marxismo cultural e da Escola de Frankfurt.


Depois da derrocada do muro, eis que a utopia se levanta de novo, travestida e disfarçada, tentando convencer-nos que os erros do passado são irrepetíveis, confundido propositadamente a irrepetibilidade do tempo histórico com a ideia de uma pretensa eliminação do erro humano que a nova utopia defende. Redefine a noção clássica de ciência transformando-a em um meio de acção política. Destrói o tecido cultural da sociedade, dividindo-a radicalmente em guetos multiculturais para poder reinar com conforto e facilidade. Tende a atomizar a sociedade (como aconteceu com o nazismo) através de uma subjectivização ideológica que coloca o cidadão isolado face a um Estado plenipotenciário, transformando toda a sociedade — e até os partidos políticos geminados e neo-revolucionários — em um apêndice da própria ideologia e da sua dialéctica infernal.

4 comentários »

  1. O mestre Mário Ferreira dos Santos no livro “A invasão vertical dos bárbaros”, afirma que os argumentos dos negativistas sempre volta aqui e acolá como uma gripe, e são sempre os mesmos no decorrer dos séculos. Assim que possível vou arrumar uma forma de publicar o trecho onde ele explica tais argumentos na forma de diálogo.

    (…)”A estratégia da verdadeira direita deve ser a de recusar, ignorar e negar a Grande Recusa procedente da Utopia Negativa do marxismo cultural e da Escola de Frankfurt.”(…)

    Era o que Mário Ferreira sempre dizia, embora na época dele, a escola de Frankfurt ainda não era moda no Brasil, ele chamava as Utopias Negativistas de “Filosofias de Negação”. A Filosofia Concreta de Mário Ferreira dos Santos em oposição aos negativistas(que dizem que nada existe), parte do principio de que “Alguma coisa há”.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 15 Setembro 2010 @ 2:02 pm | Responder

  2. Resenha do Invasão Vertical dos Bárbaros.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 15 Setembro 2010 @ 2:08 pm | Responder

  3. Olavo de Carvalho, sobre Mário Ferreira e o desconhecimento dos brasileiros com relação a ele:

    “Quando a obra de um único autor é mais rica e poderosa que a cultura inteira do seu país, das duas uma: ou o país consente em aprender com ele ou recusa o presente dos céus e inflige a si próprio o merecido castigo pelo pecado da soberba, condenando-se ao definhamento intelectual e a todo o cortejo de misérias morais que necessariamente o acompanham.”(Olavo de Carvalho)

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    Comentar por shâmtia ayômide — Quarta-feira, 15 Setembro 2010 @ 4:31 pm | Responder


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