perspectivas

Sexta-feira, 27 Agosto 2010

A liberdade, hoje

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 11:01 am
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Quando falamos, hoje, de liberdade, não podemos ater-nos a ideias do século XIX; não podemos, por exemplo, ignorar as descobertas da micro-física.

A liberdade foi, tradicionalmente, dividida pela filosofia entre a noção política de liberdade e a noção subjectiva (ou metafísica) de liberdade. Ao longo de séculos, a discussão acerca da liberdade anda à volta da diferença entre os dois conceitos de liberdade. Porém, esta dicotomia — entre a acção e o valor — já não faz sentido, tendo em conta a filosofia quântica e as descobertas da física quântica.

Pode parecer estranho que as descobertas operadas pela ciência possam influenciar os conceitos filosóficos sobre a liberdade, mas não existe outro caminho. A filosofia não pode divorciar-se da ciência — o que não significa que a filosofia se deva submeter à ciência; uma coisa é ignorar a ciência, e outra coisa é submeter-se à ciência.

Quando falamos hoje em liberdade, devemos ter em consideração prévia o seguinte:

  1. O universo macroscópico é finito
  2. A física clássica concebia a infinitude do universo. Hoje sabemos que o universo é finito porque teve um princípio (Big Bang). Entendemos aqui o universo na sua dimensão macroscópica; quando se diz: “o universo é finito”, quer-se dizer: “o universo macroscópico é finito”. Isto significa que a dimensão microscópica da realidade (realidade quântica ou mundo quântico) não obedece aos mesmos princípios do universo macroscópico.

  3. Existem evidências de que a finitude do universo não se aplica à realidade quântica
  4. Segundo os físicos John Wheeler e Roland Omnès, entre muitos outros, a realidade quântica não é propriamente finita porque parece existir (existem indícios científicos seguros) um fluxo bidireccional de ondas quânticas entre o mundo quântico e aquilo a que o primeiro chama de “Além-espaço-tempo”, e que o segundo chama de “Abyss”, e a totalidade os físicos — incluindo os mais cépticos, como o inglês Penrose — chama de “singularidade quântica”.

  5. O princípio da complementaridade quântica demonstra que nem tudo o que existe é matéria
  6. A onda quântica existe, não tem massa, viaja pelo universo a velocidades geometricamente superiores à velocidade da luz.

    Através do princípio da não-localidade, a física concluiu que a onda quântica, em determinadas circunstâncias, não faz parte do espaço-tempo, por um lado, e que pode transformar-se em partícula através da sua “observação” por uma consciência. Isto significa que existe uma relação intrínseca entre a onda quântica (que não é matéria) e a consciência, ou seja, parece que a não-materialidade da onda quântica é reconhecida e identificada pela consciência.

  7. O ser humano faz simultaneamente parte do universo, da realidade quântica e do Além-espaço-tempo
  8. O ser humano tem, por assim dizer, esta característica tridimensional que consiste em pertencer ao mundo do senso-comum ou ao universo, em pertencer ao “mundo quântico das possibilidades”, que é imanente à realidade do senso-comum ou à realidade do universo, e de, através da consciência e da autoconsciência, não só poder — até certo ponto — condicionar as possibilidades da realidade quântica, como está intrinsecamente relacionado com o Além-espaço-tempo ou, se quisermos, com a realidade que está para além do espaço-tempo (em que se movimenta a onda quântica na não-localidade).

    Isto significa que se o Homem do universo macroscópico é finito porque ele é parte de um universo finito, a sua consciência é parte de uma realidade diferente da realidade macroscópica.

  9. A “teoria do conhecimento finística”, de Gierer
  10. Em função dos itens anteriores, o físico Alfred Gierer gizou a teoria do conhecimento finística: do número máximo de operações realizáveis no cosmo (porque o cosmo ou universo, é finito), resulta como consequência para a teoria do conhecimento o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos de processamento de informações através computador. Sobretudo é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação.

    Gierer refere-se aqui estritamente ao Homem inserido no universo ou mundo do senso-comum, como é óbvio. Gierer estabelece o limite máximo do conhecimento possível no mundo macroscópico na constante cosmológica do universo: 10^120.

    Porém, em relação à realidade quântica e em relação à realidade do Além-espaço-tempo, Gierer escreve: “Podem existir afirmações verdadeiras sobre a realidade física que só seriam comprováveis em mais de 10^120 (1 seguido de 120 zeros) operações; nós não poderíamos decidir se são verdadeiras ou não, mas tal seria possível para uma máquina supracósmica imaginável.” Está implícito no raciocínio de Gierer, o teorema de Gödel.

O que é que tudo isto tem a ver com a liberdade humana ?

  • Se o Homem está sujeito ao determinismo da realidade do universo macroscópico — moldado pela entropia da força da gravidade —, essa sujeição não é absoluta. E não é absoluta porque a própria realidade determinística do universo macroscópico depende da acção da força quântica que não é, na sua essência, sujeita às mesmas leis determinísticas da realidade macroscópica.
  • Isto significa que a liberdade do Homem no mundo macroscópico é condicionada pelos Caminhos de Acção Mínima que a realidade macroscópica adopta, e que permitem a estabilidade do universo — permitem que o sol nasça todos os dias e que as leis da ciência se possam estabelecer como previsões do comportamento da realidade macroscópica, ou do universo.
  • Contudo, através da consciência e da autoconsciência — que não dependem exclusivamente da realidade macroscópica (como vimos no item 4) — os Caminhos de Acção Mínima estabelecidos pela entropia da força da gravidade, que determina o universo e as suas leis, podem ser colocados em causa ou mesmo revogados pela consciência — embora essa possibilidade seja muito remota, e dependendo do grau de consciência — na medida em que existe uma relação de cognoscibilidade entre a consciência e o mundo imanente da onda quântica, e com a realidade do Além-espaço-tempo.
  • Em termos práticos, o princípio da “facticidade” do existencialismo de Sartre fica, assim, colocado em causa e torna-se obsoleto. A facticidade, segundo Sartre, é a sujeição endógena e inultrapassável do Homem aos Caminhos de Acção Mínima determinados pela entropia da força da gravidade; mas, como vimos, essa sujeição não é absoluta, e portanto, a facticidade como conceito absoluto, tal qual apresentado por Sartre, torna-se obsoleto.

Em suma: não existe uma liberdade interior do Homem para a contemplação, e uma outra liberdade exterior do Homem para a acção. Essa dicotomia é apenas aparente. O Homem é uno em (pelo menos) três estruturas da realidade. A liberdade do Homem só pode ser cabalmente compreendida e experienciada (porque a liberdade não é passível de definição) nessas múltiplas dimensões da realidade que nele se unificam.

Esta é a única forma de se falar, hoje, de liberdade. O resto é História.

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