perspectivas

Quinta-feira, 19 Agosto 2010

A ética e a experiência da totalidade

O facto de existirem pessoas que por característica própria não se interroguem sobre a sua realidade, não é nada de novo, nem sequer algo de anormal. O que é novo na contemporaneidade é a recusa de olhar o óbvio — já não se trata de aceitar ou não um dogma, como em tempos passados; mas de recusar, na sua subjectividade, a própria lógica.

O ser humano moderno, entrosado nos meandros da técnica, tornou-se paradoxalmente ilógico quando tenta compensar, com um exacerbo de subjectividade que raia a irracionalidade, o excesso de objectividade redutora e chã a que está obrigado a seguir no mundo regido pela técnica. Funciona aqui um mecanismo de compensação psicológico que tende a suprir um excesso com outro. O Homem moderno vive desequilibrado.

No nosso dia-a-dia, normalmente funcionamos por hipóteses que determinam as nossas escolhas. Hoje, porém, são as escolhas fabricadas pelas ideologias políticas que determinam as hipóteses: é a irracionalidade completa. A partir do momento em que as escolhas são determinadas pela lobotomia político-ideológica mais ou menos abrangente e colectiva, as hipóteses passam a referir-se apenas a uma parte da realidade que é aquela para onde a ideologia política nos quer conduzir.

O conceito de “hipótese” só tem sentido se existe uma realidade que comprova a hipótese como correcta ou falsa. Perante as incertezas da existência, o ser humano interroga-se e coloca hipóteses. Se nada no mundo possui uma realidade fiável (ou, como se diz, “não sabemos o que é a verdade”), pelos menos a totalidade — da qual a minha vida e o meu mundo fazem parte — tem que ser real. Trata-se de pura lógica. A realidade da totalidade garante a realidade da parte e, por conseguinte, a minha realidade só pode ser deduzida da totalidade. O meu mundo de hipóteses não passa de uma realidade reduzida.

Um indivíduo que seja minimamente realista não pode pensar de outra maneira, por própria imposição da lógica: a realidade da totalidade é o pressuposto fundamental de uma visão realista do mundo. Por outras palavras: a vida e o mundo só têm uma razão de ser a partir de Deus (Deus = Englobante + Ser).

Quem não coloca em si e na sua vida, a questão da totalidade, reduz-se conscientemente ao seu ser parcial, mas não deixa por isso de se colocar indirectamente perante a totalidade — ou seja, não consegue fugir ao “problema da existência” —, na exacta medida em que o conceito de “ser parcial” implica a totalidade, tal como o conceito de “círculo” implica a noção de que este é redondo.

“O verdadeiro é a totalidade”, diz Hegel. Porém, se não nos é possível conhecer a totalidade, é naturalmente possível experimentá-la. A nossa experiência intui a totalidade, sabe que esta existe. Se o ser humano tiver dez minutos por dia para sair da trivialidade do quotidiano, experimenta a totalidade. Foi a partir desta experiência humana da totalidade, não só subjectiva mas também intersubjectiva (compartilhada com os outros seres humanos), que se afirmaram as religiões e, consequentemente, a religião cristã e a sua ética.

A ética cristã é produto lógico da própria experiência humana da totalidade, e não apenas um mero código de normas arbitrárias e sem um nexo. E perante a lógica implícita no conceito de totalidade, o Homem moderno prefere desviar o olhar, assumindo orgulhosamente a sua irracionalidade.

1 Comentário »

  1. […] A ética e a experiência da totalidade Posted on Agosto 25, 2010 by nunoanjospereira O facto de existirem pessoas que por característica própria não se interroguem sobre a sua realidade, não é nada de novo, nem sequer algo de anormal. O que é novo na contemporaneidade é a recusa de olhar o óbvio — já não se trata de aceitar ou não um dogma, como em tempos passados; mas de recusar, na sua subjectividade, a própria lógica. O ser humano moderno, entrosado nos meandros da técnica, tornou-se paradoxalmente ilógico quando tenta compens … Read More […]

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    Pingback por A ética e a experiência da totalidade « Nunoanjospereira’s Weblog — Quarta-feira, 25 Agosto 2010 @ 7:39 am | Responder


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