perspectivas

Quarta-feira, 11 Agosto 2010

Filosofia quântica para todos

Recebi o seguinte email:

Caro Braga,
Tenho seguido o seu blogue quase diariamente, com particular interesse nas questões da física quântica, relacionando com a existência de Deus.

Para um leigo na matéria como Eu, habituado à física clássica, é particularmente difícil assimilar os conceitos de incerteza, não-localidade e dualidade partícula-onda.

a) Com é que é possível concluir que na escala microscópica não é possível determinar a posição da partícula quando na escala macroscópica podemos determinar a posição de um objecto.

b) Como é possível concluir pela não localidade espaço-tempo das partículas, quando, no plano macroscópico, a matéria é matéria porque está individualizada no espaço-tempo.

Se toda a matéria é constituída por partículas, como é que se articula a física clássica com a física quântica. Parece que há um intervalo, um salto de lógica que não está explicado ou que para mim é de difícil assimilação.

Serve isto para lhe pedir que me recomende leitura acessível e de introdução sobre estes assuntos, deixando nota que sou de facto ignorante na matéria, mas cheiro de curiosidade em perceber a razão de ser das coisas.


Convém ler até ao fim antes de retirar conclusões.

    1. Eu não sou um físico; não tenho formação em física. Mas desde há 20 anos para cá que leio tudo quanto me aparece sobre quântica, e compro toda a literatura sobre estes assuntos que me apareça. Contudo, o meu interesse é essencialmente no sentido filosófico. Como todos sabemos, a filosofia é, de certa forma, a terra de ninguém que existe entre a teologia e a ciência neopositivista.

    2. A minha resposta a este email vai ter um cariz mais filosófico do que científico (entendido aqui no sentido neopositivista).

    3. No seu livro “Quantum Philosophy”, o físico francês Roland Omnès coloca o problema ao contrário: imaginemos um anjo que não faz a mínima ideia do que é o senso-comum humano. E imaginemos que um ser humano lhe serve de “guia turístico” no sentido de lhe explicar a lógica humana na interpretação do macrocosmos tal qual o ser humano o percepciona. Rapidamente o anjo se dá conta de que o nosso senso-comum faz todo o sentido e é a melhor forma de obtermos uma interpretação prática do mundo em que vivemos. Este livro está à venda nas melhores livrarias do país.

    4. No entanto, o facto de o senso-comum fazer todo o sentido para a nossa vida prática, ele esconde uma realidade muito diferente daquela que é objecto da nossa percepção. Quem teve a inteligência de descobrir a linguagem binária que anima os nossos computadores, e que é constituída pela alternância entre zeros e uns, nada mais fez do que traduzir para a linguagem matemática a noção da Função Ondulatória Quântica, que consiste basicamente em zeros (ondas e sem massa) e uns (partículas e com massa). Podemos dizer que a linguagem binária da nossa matemática traduz uma realidade escondida e imanente.

    Dualismo quântico (binário, 0 - 1)

    5. O princípio de Heisenberg resultou de experiências com instrumentos de laboratório, ao mesmo tempo que o princípio era fundamentado pela dedução que caracteriza a linguagem formal da matemática. Verificou-se empiricamente que ao pretender determinar exactamente a posição de uma Partícula Elementar Longeva, a velocidade da dita deixava de ser exactamente mensurável. Mais tarde, Niels Bohr incorporou o erro, que resulta da impossibilidade de medição simultânea do espaço e do tempo da acção da Partícula Elementar Longeva, na própria lógica dos cálculos necessários para trabalhar em mecânica quântica.

    6. A não-localidade resulta do carácter essencial não-material da onda quântica que faz parte da Função Ondulatória Quântica. A onda quântica não é matéria porque não tem massa. Portanto, quando alguém disser que tudo o que existe é apenas e só matéria, não está a dizer a verdade. As medições com instrumentos em laboratório podem provar a existência da onda quântica através da sua manifestação no mundo material (o efeito da acção da onda quântica pode ser verificado empiricamente). Provou-se empiricamente que existe algo (a onda quântica) que não é matéria, pelo menos no sentido clássico e neopositivista do termo — assim como a gente sabe que existe o ar mas não o vemos; apenas sentimos o seu efeito.

    7. O que transforma o mundo microscópico no mundo macroscópico, é, por assim dizer, a “interacção” das duas grandes forças do universo: a força quântica e a força da gravidade. São estas duas grandes forças universais (mais uma vez, um dualismo que é constante, um e zero) que, cada uma à sua maneira e muitas vezes em “conflito” uma com a outra, “constroem” os blocos da matéria (que têm massa), condicionam o espaço-tempo em função da gravidade (o tempo e espaço variam consoante o valor da gravidade; quanto mais gravidade, maior espaço-tempo, quanto menos gravidade, menor espaço-tempo. A onda quântica, por não ter gravidade nem massa, não depende do tempo nem do espaço, e daí a noção de não-localidade da onda quântica), definem os Caminhos de Acção Mínima que permitem que o mundo conforme o vemos se mantenha estável (que permite que o Sol nasça todos os dias), etc.

    8. Uma função é, por definição, um termo matemático que designa a correspondência entre duas variáveis, e não implica a natureza quantitativa dos elementos considerados.

    9. Quando falamos em Função Ondulatória Quântica, falamos da correspondência entre duas variáveis qualitativa e quantitativamente diferenciadas: a onda quântica e a Partícula Elementar Longeva (0 e 1). O recurso à linguagem binária pode ajudar aqui. A Função Ondulatória Quântica designa a correspondência entre o Zero (a onda quântica, que não é matéria) e o Um (a Partícula Elementar Longeva, que é matéria).

    10. Partícula Elementar Longeva = electrões, neutrões, positrões, etc.

    11. Portanto, a resposta à pergunta a) é a seguinte: através da acção das duas grandes forças da natureza (a força quântica e a força da gravidade), a matéria macroscópica constrói-se quando “observada” por uma consciência (!). A própria gravidade — que é uma forma de entropia — condiciona os Caminhos de Acção Mínima no mundo macroscópico, que permitem que um objecto esteja aqui neste momento e não desapareça logo a seguir, e que permite a regularidade da natureza e a elaboração das leis da física.

    12. A resposta à pergunta b) decorre da qualidade da onda quântica, que por não ser matéria, não está sujeita às leis físicas que condicionam o espaço-tempo. Neste sentido, é certo que o limite máximo da velocidade no universo, estabelecido por Einstein para a velocidade da luz, já não é valido. As ondas quânticas podem deslocar-se no universo a velocidades tais que a sua presença pode ser quase instantânea em dois locais (logo que se “materializam” em partículas, se observadas por uma consciência) separados entre si por milhões de anos-luz.

    13. Não decorre disto que a filosofia quântica prove a existência de Deus. A filosofia não é teologia. O que a filosofia quântica demonstra é que a) nem tudo o que existe é matéria, b) a não-matéria transforma-se em matéria quando observada por uma consciência,o que significa que a consciência é anterior à matéria, c) que o universo teve um princípio e que, por isso, é finito, d) e finalmente, que para manter todo o universo em existência é necessária a existência prévia de uma consciência que ultrapasse e transcenda o próprio universo, sendo que este depende dessa consciência para poder existir.

    Em última análise, demonstra-se que o universo, tal qual existe enquanto o UM da função binária, pode ser reduzido ao ZERO da mesma função, dependendo da vontade dessa consciência transcendente. Esse processo de aniquilamento do universo pode demorar milhões de anos na nossa posição no espaço-tempo, ou segundos apenas em termos cósmicos (ver no Google, “tempo cósmico).

Espero ter ajudado.

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2 comentários »

  1. “(…) a resposta à pergunta a) é a seguinte: através da acção das duas grandes forças da natureza (a força quântica e a força da gravidade), a matéria macroscópica constrói-se quando “observada” por uma consciência (!)(…) a não-matéria transforma-se em matéria quando observada por uma consciência,o que significa que a consciência é anterior à matéria, (…) e finalmente, que para manter todo o universo em existência é necessária a existência prévia de uma consciência que ultrapasse e transcenda o próprio universo.”

    É a esta luz que se percebe o paradoxo do gato de Schrodinger, que está simultaneamente vivo e morto até à abertura da caixa expondo-o à consciência que o observa?

    Se sim, a própria consciência modulará a realidade tal como existe e a razão assiste em larga dose a Amit Goswami quando refere a influência da nossa consciência no futuro.

    Se sim, vivemos todos numa espécie de holograma que só se materializa em imagem quando observado por uma consciência e, neste caso, qual? A minha? A sua? A soma de todas? Ou a de Deus?

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    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Quinta-feira, 12 Agosto 2010 @ 5:39 pm | Responder

  2. O paradoxo do gato de Schrödinger não pode ser levado à letra porque ele não se aplica, em termos práticos, no macrocosmos. A possibilidade de acontecer uma coisa parecida com o paradoxo do gato de Schrödinger é equivalente a 1 em 10^30 (1 seguido de 30 zeros). A mesma possibilidade remota existe quando falamos em adormecer uma noite e acordarmos no dia seguinte com o planeta terra em órbita da estrela Sírio, ou coisa que o valha (salto quântico, ou “quantum jump”). A possibilidade existe, mas é extraordinariamente remota devido à interacção das duas grandes forças — da gravidade e da quântica.

    Amit Goswami tem razão, mas ele defende um idealismo quântico monista, enquanto que eu defendo um realismo quântico transcendental. O idealismo quântico de Amit Goswami coloca o Homem no centro do universo. O realismo quântico transcendental impõe a existência de graus de consciência diferentes e a existência de uma consciência que esteja na base da existência de todo o universo. Chame-lhe Deus, ou chame-lhe o que quiser.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 12 Agosto 2010 @ 6:50 pm | Responder


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