perspectivas

Domingo, 25 Julho 2010

Memórias de adolescente (a todos os marxistas-leninistas)

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:53 pm
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Campo de reeducação política

O guerrilheiro apontou-me a Kalachnikov. “Senta-te! “, berrou. Sentei-me de imediato na areia húmida do cacimbo que impregnava os meus ossos naquela noite de Agosto. Centenas estavam já de cócoras ou sentados da mesma forma, no meio da noite escura que me confinava o espírito numa angústia que em vão tentava racionalizar.

Os grupos eram organizados metodicamente. No meu grupo, umas largas dezenas. Outro grupo, mais além. E outro, e outro e mais outro até onde a minha vista podia detectar os vultos e a percepção de sombras em movimento, ou a minha audição de silêncios mitigados poderia alcançar.

Não tinha a noção exacta onde estava. Poderia ser uma parada de um quartel qualquer, enorme concerteza, porque não lhe via os limites ou porque a noite cerrada lhe fazia aumentar as fronteiras. Mais ao longe, grita-se: “Diz Viva à Frelimo! “; segue-se um silêncio angustiador. Uma rajada de metralhadora ressoa com estrondo abafando gritos de morte que se prolongam com gemidos moribundos, exânimes. “São Testemunhas de Jeová, os gajos! Só dizem ‘Viva a Deus ‘, e a ninguém mais. Foderam-se!”, balbuciou-me o acocorado mais próximo. O absurdo tomou conta de mim, inspirei profundamente o ar da noite e deixei de sentir medo.

2 comentários »

  1. Sou visceralmente contra qualquer tipo de violência, seja ela física ou psicológica, venha ela donde vier, e muito menos quandro tras carimbos político-económicos …

    Dói-me, bem no âmago de mim, imaginar-te com 16 anos (a idade do meu filho), a atravessar um episódio tão violento ! Não consigo imaginar … e porque não consigo, que se lixem os que se utilizam do poder para exorcisar os seus maus fígados!

    Porque não consigo aceitar, uma bjoka por um tempo em que não te pude dar um abraço!

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    Comentar por São Knopfli — Domingo, 25 Julho 2010 @ 4:21 pm | Responder

  2. Todas as GUERRAS são feias e o ódio e a raiva invadem os campos entre jovens com armas apontadas e outros tremendo com elas na cabeça, tudo num ambiente de sobrevivência; porque o PODER/POLITICO/RELIGIOSO/ECONÓMICO ou SOCIAL empurra jovens em todos os sentidos para campos de luta e assiste como no tempo dos romanos a toda esta carnificina. O Homem é um soldado de GUERRA e PAZ, não se sabe onde está a fronteira. Mães vão parir jovens bébés machos sem saber um dia de que lado do campo de batalha eles estão, mas quem as consegue impedir de AMAR os seus filhos, estas são de certo as que mais sofrem com a guerra dos HOMENS. Tenho um filho Homem com 18 anos e não o quero na Guerra, mas ele tem 18 anos e já não é meu é do Ministério da Defesa. ib

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    Comentar por Ilda Bravo — Sexta-feira, 3 Junho 2011 @ 10:06 am | Responder


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