perspectivas

Domingo, 18 Julho 2010

As origens da força da gravidade segundo o físico Erik P. Verlinde

Podem fazer aqui o download em ficheiro PDF de um ensaio do físico holandês Erik P. Verlinde. Antes de falar sobre o ensaio, gostaria de mencionar aqui a obra do filósofo francês de origem polaca, Émile Meyerson (1859 – 1933), nomeadamente o livro “Identity and Reality” que, à falta de edição em papel, pode ser lido aqui.


Do livro de Émile Meyerson interessa-me apenas aqui a noção de “identidade” como sendo perfeitamente homogénea com a razão humana — digo “razão humana” porque a filosofia quântica parte do princípio de que a razão que os humanos percepcionam ou intuem, no sentido de “explicação racional”, é apenas uma parte da razão inerente à realidade. A ideia segundo a qual a identidade é homogénea com a razão vem de Platão, e deste, de Parménides.

Segundo Émile Meyerson, a explicação racional de um fenómeno é um exercício de “identificação”, e quando uma explicação racional se aplica à diversidade dos fenómenos apenas consiste na redução da multiplicidade dos fenómenos. Este princípio aplica-se não só ao senso-comum, como à ciência e à filosofia . O mérito de Émile Meyerson foi o de (re) validar a filosofia como instrumento de conhecimento, não a reduzindo à ciência positivista como fizeram os positivistas e o neopositivistas (como o António Zilhão).

Para isso, Émile Meyerson reconheceu a existência dos chamados “irracionais” que condicionam a ciência (positivista) — por exemplo, a sensação e a percepção como dados últimos e irredutíveis, ou a acção recíproca entre os corpos, ou ainda os estados iniciais dos sistemas de energia. Os “irracionais” são o conjunto de realidades que a ciência não pode explicar — são os axiomas da natureza que colocam limites à ciência. Em função da existência dos “irracionais”, a ciência não pode explicar a realidade, mas apenas descrevê-la.

Por outro lado, Émile Meyerson não só distingue a filosofia da ciência, como atribui um valor essencial àquela — ou seja, ele nega a absorção da filosofia pela ciência positivista. Segundo Émile Meyerson, a filosofia não reconhece os “irracionais” e este não-reconhecimento é essencial para o progresso da própria ciência — isto é, se a ciência se adapta aos “irracionais” e sobre estes constrói a descrição da realidade, a filosofia não os reconhece como “irracionais” porque ela não se reduz aos resultados da ciência, mas tem antes em consideração os métodos da ciência e a sua atitude face ao mundo. Em suma, os resultados da ciência têm para a filosofia uma importância secundária; o mais importante são os métodos da ciência e a forma como a ciência encara as diversas estruturas da realidade.


Ligando Émile Meyerson a Erik P. Verlinde: do rol dos “irracionais” da ciência constam as leis da termodinâmica. A filosofia quântica coloca claramente em questão a validade absoluta das leis da termodinâmica, enquanto que para a ciência (positivista) trata-se de um “irracional” sobre o qual a ciência construiu todo um sistema — tanto mais que, por exemplo, a validade científica da segunda lei da termodinâmica foi “comprovada” empiricamente.

O que Verlinde vem dizer é que a lei da gravidade não é uma lei (ele não aceita um “irracional” como pressuposto científico clássico), mas um efeito da acção da realidade quântica. De facto, a gravidade parece-nos uma lei na realidade macroscópica, quando na realidade é um efeito do microcosmos. Descrever (e não, “explicar”) as causas da gravidade significa demonstrar que, de certa forma e segundo a tese de Émile Meyerson, a gravidade pré-existe na sua causa, ou seja, que existe uma identidade substancial entre causa e efeito.

Verlinde fala na teoria do holograma, que não nos interessa particularmente aqui senão numa descrição sumária: segundo a teoria de cordas, é possível que o universo seja um gigantesco holograma espaço-temporal formado pelas interferências entre ondas quânticas — exactamente como acontece com as ondas luminosas de um laser em um holograma que se baseia no facto de as ondas luminosas terem amplitudes e fases (“cada grão de areia contém a imagem da totalidade do universo”).

O que interessa é fazer sobressair a ideia — que Verlinde não refere explicitamente — de que a nossa concepção macroscópica e newtoniana de “objecto” ou “fenómeno” se deve à evolução da “função ondulatória quântica” (quantum wave function) por “caminhos de acção mínima” (least action principle) que constroem a realidade do mundo dos sentidos. E quando todos os “caminhos” possíveis e disponíveis são somente de “acção mínima”, o objecto deixa de se deslocar como partícula e passa a fazê-lo em forma de onda (complementaridade onda/partícula) — neste caso, o objecto vai-se disseminando, em forma de onda, no espaço até ao momento em que é observado por uma consciência; no momento da observação, a disseminação cessa e a onda quântica “vira” partícula.

Verlinde diz que, para ele, “a gravidade não existe”. Na medida em que geralmente existem sempre “caminhos de acção mínima” em simultâneo com outros caminhos que não são de acção mínima, a natureza (entendida aqui no sentido quântico) opta pela diversidade de opções porque “gosta” da liberdade de optar. Assim, os “caminhos de acção mínima”, que definem e causam a gravidade, apenas contrariam, no mundo macroscópico dos nossos sentidos, a tendência intrínseca do mundo quântico (o mundo da função ondulatória quântica) para maximizar a desordem (desordem no sentido do não-determinismo).

A gravidade é força exclusivamente macroscópica, e é uma força entrópica que tende a contrariar a “desordem” quântica, e surge em função dos “caminhos de acção mínima” presentes na deslocação, no espaço-tempo, da onda/partícula (complementaridade onda/partícula).

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9 comentários »

  1. Guardado!

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    Comentar por Henrique — Segunda-feira, 19 Julho 2010 @ 8:00 pm | Responder

  2. Este não é um comentário ao tema abordado, mas o desenho escolhido (de Escher, Relatividade), e bem, penso eu, leva-me a partilhar uma dúvida. Pensava eu que os desenhos de Escher com escadas, representavam todos objectos impossíveis de serem construídos. Acontece que vi muito recentemente uma construção Lego desde mesmo desenho (esta figura). A minha dúvida é se o desenho que mostra é realizável no nosso mundo a 3D ou se o lego da figura foi fotografado de um ângulo tal que não corresponde ao desenho, ou se há qualquer outro pormenor que me esteja a escapar.
    A explicação breve que aparece no livro da Taschen só se refere aos «três planos de gravitação que agem verticalmente uns sobre os outros» para ´fazer uma interpretação das escadas e pessoas representadas.

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    Comentar por Américo Tavares — Segunda-feira, 19 Julho 2010 @ 11:59 pm | Responder

    • O foto do Lego é claramente uma foto normal de uma construção de Lego, porque é tridimensional. Naturalmente que nos dá uma noção de absurdo, porque o desenho (a foto) é normalmente bidimensional. Aliás, o seu comentário é esclarecedor quanto ao nosso senso-comum em considerar absurdo o espaço-tempo como uma quarta dimensão.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 20 Julho 2010 @ 12:10 am | Responder

  3. A minha dúvida, que se mantém apesar da sua resposta, expressa por outras palavras, é a de saber se um construtor civil consegue ou não contruir uma casa segundo o desenho de Escher. Se não, parece-me haver uma contradição com o Lego, que seria um modelo a uma escala reduzida daquilo que o desenho representa.

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    Comentar por Américo Tavares — Terça-feira, 20 Julho 2010 @ 12:57 am | Responder

  4. « é a de saber se um construtor civil consegue ou não contruir uma casa segundo o desenho de Escher. »

    Consegue. O problema será o de “colar” as pessoas ao tecto, desafiando a gravidade.

    Segundo a filosofia quântica, as pessoas normalmente não levitam porque seguem o “caminho de acção mínima” que é a norma da função onda/partícula. Os objectos que percorrem o “caminho de acção mínima” são aqueles objectos “bem comportados” que respeitam a entropia gerada pela gravidade.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 20 Julho 2010 @ 1:05 am | Responder

  5. Agora percebi a sua resposta, e a minha dúvida está esclarecida.

    Conclu-o que este desenho, ao contrário de Belvedere, não é uma construção impossível num mundo tridimensional.

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    Comentar por Américo Tavares — Terça-feira, 20 Julho 2010 @ 1:19 am | Responder

  6. Correcção: Concluo em vez de Conclu-o

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    Comentar por Américo Tavares — Terça-feira, 20 Julho 2010 @ 11:15 am | Responder

  7. Agradeço-lhe, já o devia ter feito antes, mas mais vale tarde do que nunca, ter esclarecido a minha dúvida.

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    Comentar por Américo Tavares — Quarta-feira, 21 Julho 2010 @ 9:16 pm | Responder

    • @ A. Tavares: pelo menos é o que me parece. Posso estar errado…

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 21 Julho 2010 @ 9:18 pm | Responder


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