perspectivas

Sexta-feira, 16 Julho 2010

O arcaísmo do ensino universitário português

« Toda ciência, mesmo a ciência do divino, é uma sublime história de detectives. Só que ela não está construída para detectar por que o Homem morre, mas antes para tentar descobrir por que o Homem vive. » — G K Chesterton

Vou falar sobre um livro de António Zilhão com o título “Do Círculo de Viena À Filosofia Analítica Contemporânea”, com edição em 2007. Confesso que não li o livro todo porque a sua leitura é um desafio à salubridade mental de qualquer ser humano normal e saudável. Em contraponto, aconselho a leitura deste postal que, em menos de mil palavras, reduz os pressupostos do livro de 350 páginas de António Zilhão ao absurdo. E os pressupostos de António Zilhão aparecem logo no início do livro, nomeadamente no capítulo II, em que o autor assume (sem o assumir explicitamente, mas as ideias não enganam) a validade do cientismo, em contraponto à ciência.

O cientismo confere à ciência positivista o monopólio do conhecimento, e atribui ao método positivista aplicado à ciência a capacidade de resolver todos os problemas da humanidade. Quando falamos no livro de António Zilhão, estamos em presença de um cientismo sofisticado — não já o cientismo ingénuo de Augusto Comte e sucessores.

Seria uma estupidez negar o mérito à ciência positivista, como faz uma determinada fileira ideológica do gnosticismo moderno ligada a um certo niilismo cultural. Por isso também não aceito o cepticismo de Hume como um argumento contra o positivismo, porque isso seria adoptar uma posição niilista (a de Hume) contra outra posição niilista embora de carácter diferente (o neopositivismo; reduzir todo o conhecimento a um determinado método é uma forma de niilismo). Porém, uma coisa é reconhecer o mérito do método científico empírico, e outra coisa diferente é sujeitar todo conhecimento humano a um determinado método.

A defesa do cientismo por parte de gente ligada ao ensino universitário é um dos maiores perigos e ameaças da modernidade. O que me surpreende é que gente ligada ao meio universitário, como é o caso de António Zilhão, publique um livro destes no século XXI.

António Zilhão confunde propositadamente ciência, teologia e filosofia, mistura tudo, e depois conclui que o método positivista é a única forma de conhecer. É exactamente isto que foi denunciado neste postal. O que é grave é que essa “confusão” é feita por um docente universitário. Para criticar a filosofia metafísica — num livro que seria suposto falar de ciência positivista — António Zilhão parte de dois pressupostos epicuristas clássicos: o enviesamento da linguagem e a incapacidade da dedução.

O enviesamento da linguagem invocado por António Zilhão serve para a sua crítica à filosofia tradicional, mas é essa mesma linguagem que serve a António Zilhão para fazer a sua crítica à linguagem. António Zilhão entra em um raciocínio circular.

A crítica à dedução como fonte de conhecimento é concebida assim : “toda a dedução em nada mais consiste senão numa transição de frases para outras frases que nada contêm que não se encontrasse nas frases iniciais”. O que é estranho é que esta mesma definição não abranja também a indução; na opinião de Zilhão, o mesmo princípio não se aplica nas duas situações, não já em frases mas em situações de experiência intersubjectiva. Onde está aqui o erro de Zilhão ? Está em sujeitar a realidade à análise, e tudo o que não é sujeito à análise através do método positivista simplesmente não existe ou não faz parte da realidade. Isto significa que, para António Zilhão, a ciência pode provar que uma coisa existe e que uma outra coisa não existe. Ou seja: António Zilhão é Deus.

Essa sujeição da realidade à análise segundo um determinado método, reduz a realidade àquilo que a priori se pretende. Isto não é ciência: é cientismo. Nitidamente, António Zilhão transforma a ciência em uma espécie de religião política. Zilhão parte de um pressuposto segundo o qual a possibilidade do conhecimento humano é infinita, o que significa que o professor universitário vive ainda no tempo de Newton e de Einstein. A astrofísica moderna demonstrou que o universo é finito — porque teve um início e está em expansão; ou seja, para António Zilhão, a possibilidade do conhecimento humano ultrapassa a própria realidade do universo (material), o que revela uma espécie de metafísica que transforma o Homem em deus.

Mesmo que a ciência (positivista) pudesse descobrir ou revelar e demonstrar todos os passos e processos que conceberam a realidade material objectiva, e a vida, e mesmo que essas descobertas revelassem a realidade objectiva como sendo resultado de um puro processo natural — tudo isso seria uma descrição e não uma explicação. Mesmo que concebamos uma ciência infinita em um universo finito (como o Zilhão parece concebê-la), seriam ainda assim necessárias explicações para os sistemas em que se baseiam os processos naturais que conduzem a coisas como a consciência, a vontade, a ética e o senso moral, valores, etc. António Zilhão confunde propositadamente — talvez por motivações ideológicas ligadas a uma qualquer religião política — “descrição” com “explicação”.


O cientismo que, em algumas áreas e sectores, manipula o nosso ensino universitário é extremamente perigoso, porque transforma o ensino em lobotomia ideológica e metanóia política. O que António Zilhão defende é a subversão da cultura ao mais alto nível da sociedade, tendo em vista fins políticos.

A estratégia de António Zilhão e de outros como ele, é a de negar a realidade e a autoridade da cultura, e para isso servem-se da absolutização da validade do método positivista. Trata-se de uma anti-cultura, ou de uma manifestação anti-cultural; não é ciência, mas cientismo, na medida em que é uma confiança básica (a “fé do cientista”, segundo Roland Omnès, que “é a maior de todas porque inconfessável”) em uma ciência redutora que impõe uma mudança nas categorias culturais.

Por exemplo, se o ser humano normal e saudável obteve, por herança cultural, a ideia de que deve educar os seus filhos por obrigação ética e moral, a anti-cultura modernista do Zilhão pretende afirmar que o ser humano sente obrigação em educar os seus filhos na medida em que o ADN evoluiu no sentido da sobrevivência da espécie. Esta visão da realidade liberta o Homem de quaisquer responsabilidades éticas e morais, e prepara a sociedade para a aceitação de uma nova versão de totalitarismos de triste memória de um passado recente.

1 Comentário »

  1. […] Segundo Émile Meyerson, a explicação racional de um fenómeno é um exercício de “identificação”, e quando uma explicação racional se aplica à diversidade dos fenómenos apenas consiste na redução da multiplicidade dos fenómenos. Este princípio aplica-se não só ao senso-comum, como à ciência e à filosofia . O mérito de Émile Meyerson foi o de (re) validar a filosofia como instrumento de conhecimento, não a reduzindo à ciência positivista como fizeram os positivistas e o neopositivistas (como o António Zilhão). […]

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    Pingback por As origens da força da gravidade segundo o físico Erik P. Verlinde « perspectivas — Domingo, 18 Julho 2010 @ 7:29 pm | Responder


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