perspectivas

Sexta-feira, 9 Julho 2010

Fé, razão e ciência

Filed under: Religare — O. Braga @ 4:44 pm
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« Quem não acredita em Deus, acaba por acreditar em tudo o resto. »
Aura Miguel

A crença é constitutiva da existência — assim como o é a linguagem e a razão. O ser humano não pode viver sem crer; mesmo o pobre suicida, na sua descrença de tudo o resto, tem que crer que a morte é a solução para os seus problemas. Não há como fugir à crença em alguma coisa; o problema é saber em que devemos crer, e como devemos crer.

Na minha opinião, o Cristianismo não é só constituído por um sistema de crenças, mas também e essencialmente pelo exemplo de vida de Jesus Cristo. E contra aqueles que dizem que os documentos históricos sobre a vida de Jesus Cristo podem ser apócrifos, diremos que apócrifos ou não, eles existem — e isto é que é importante. A mim interessa-me menos saber se um documento é apócrifo do que saber o conteúdo ideológico desse documento e, sobretudo, interessa-me ter o discernimento necessário para poder avaliá-lo à luz da razão.

O Cristianismo não vive só da fé: vive também da ética; e é esta complementaridade da fé e da ética no Cristianismo que me apaixona. A fé em Deus, em si mesma, é importante na medida em que a simpatia, a solidariedade, a amizade, o amor, etc., conquistam-se com a possibilidade da fé. A fé em Deus é uma “fé-em-tudo”, ou seja, uma fé holística e não somente uma crença em coisas pequenas e particularizadas. Se a fé contribui para a construção da ética, no Cristianismo — e através do exemplo de vida de Jesus Cristo —, a ética cristã solidifica a fé através da razão. É por isso que, por maioria de razão, considero o Cristianismo não só uma religião sempre actual, como uma religião de futuro.

É a componente racional do Cristianismo que o torna uma religião superior e universal. Através do exemplo ético de Jesus Cristo, a religião e a fé adquirem uma inteligibilidade inédita, isto é, conseguimos compreender a fé — o que é uma coisa extraordinária!.

Ao contrário do que é defendido por Miguel Unamuno e pelos pragmatistas em geral (como John Rawls) que dizem que a “vida não é racional”, o Cristianismo demonstra que a vida é racional. Jesus Cristo é o mediador entre o Homem e o Mundo, é Aquele que nos explica — pelo seu exemplo de vida — porque a fé exige a razão de crer. Jesus Cristo não “brincou em serviço”: ele demonstrou pessoalmente, através da sua filosofia de vida e da sua coerência com os seus princípios, a evidência da racionalidade da vida — Ele mostrou-nos como a racionalidade da vida é um axioma, um princípio primeiro.

Assim como na nossa sociedade existe o crime organizado, o Mal organiza-se. O Mal não existe no sentido de oposição a Deus — como defendiam os maniqueístas que Santo Agostinho combateu — mas como ausência de Deus, porque assim como é impossível Não-ser, também é impossível afastar completamente a razão de Ser do mundo, e essa razão de Ser é Deus. O Mal organizado sobrevive na penumbra que é a ausência de luz.

Embora o Cristianismo respeite e considere a ciência positiva quando esta age em benefício do ser humano, a ideia de que as leis científicas sobre a natureza são explicações absolutas para os fenómenos naturais, é uma ilusão, porque não é possível à ciência positivista saber como o objecto (a matéria) a que se aplicam as leis, surgiu na existência — isto é, é impossível saber como a matéria passou a Ser —, e nem é possível saber o que mantém a existência e o mundo tal qual os constatamos.

Neste sentido, as leis da natureza descritas pela ciência são apenas esboços de padrões de comportamento da matéria concreta inserida em uma ordem cósmica e natural. Como dizia Wittgenstein, a crença em Deus é mais lógica e racional do que a crença da ciência, porque a fé em Deus reconhece os limites do Homem, enquanto que a crença na ciência e nas leis da natureza dão-nos a ilusão de que tudo fica explicado.

(Votos de boas férias, que também vou fazer por isso.)

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