perspectivas

Quarta-feira, 7 Julho 2010

O Neopuritanismo ou o Purificacionismo (1)

Ernest Sternberg, professor da universidade de Bufallo, Estados Unidos, escreveu um ensaio sobre as novas tendências da esquerda a nível global que crescem actualmente sobre os escombros do marxismo-leninismo. O ensaio tem o título genérico de “Purifying the World: What the New Radical Ideology Stands For”“Purificando o Mundo: O que pretende a nova ideologia radical”.

Os três mestres da suspeita

Para que seja possível entender cabalmente não só esta Nova Esquerda que desponta — conforme retratada por Ernest Sternberg —, como o movimento revolucionário em geral, é necessária a leitura do livro “As Religiões Políticas” de Eric Voegelin e, se possível, “A Nova Ciência da Política” do mesmo autor, sendo que esta segunda obra de Eric Voegelin reveste-se já de alguma complexidade de linguagem que talvez não seja acessível a muita gente.

Para além das ditas obras de Eric Voegelin, seria também aconselhável a leitura da obra de Hans Jonas “The Gnostic Religion” ( “A Religião Gnóstica”) que serve de suporte científico à própria obra de Eric Voegelin. Outras obras de outros autores contemporâneos, como Kurt Rudolph, Giovanni Filoramo, Yuri Stoyanov e Michel Tardieu, concedem à obra de Eric Voegelin a autoridade científica irrefutável que o movimento gnóstico moderno (através dos seus ideólogos) recusa, por razões que toda a gente pode compreender.

Antes de entrar na análise do ensaio de Ernest Sternberg, convém dizer aquilo com que eu não concordo com o autor. Desde logo, Ernest Sternberg confunde “liberalismo” com “conservadorismo”. Remeto para este postal a definição das diferenças entre uma coisa e outra. Depois, Ernest Sternberg não se refere, em nenhuma parte do seu ensaio, ao financiamento dos movimentos da Nova Esquerda por parte de uma certa plutocracia americana; é conhecido o financiamento de ONG’s e de movimentos políticos da Nova Esquerda por parte de gente como Rockefeller (que pertence a uma família tradicionalmente milionária, fundou a Exxon Mobil e está fortemente ligado à Banca, ao grupo de Bilderberg e à Trilateral), de Ted Turner (que é dono de metade dos me®dia americanos), Charles Stewart Mott (patrão da General Motors), e alguns outros plutocratas que financiam ONG’s e movimentos políticos da Nova Esquerda como a Greenpeace ou o movimento político gayzista ILGA. Ernest Sternberg esconde esta colaboração aparentemente irracional e ilógica.


Em termos normais, o capitalismo funciona de forma a impôr uma disciplina que pune os investidores empresários temerários e inconscientes, e beneficia e premeia os empresários cautelosos e os que se pautam um por um mínimo de padrões éticos nos negócios. Porém, quando os empresários temerários, inconscientes e desprovidos de ética, aparecem aos olhos do público como sendo os beneficiários de uma crise económica e financeira — como a que vivemos actualmente —, crise essa em que eles próprios terão grande responsabilidade na sua origem, então surgem as crises políticas, porque o resto da sociedade acaba por pagar o preço da falta de ética desses investidores ou empresários. Portanto, como diz Olavo de Carvalho, é certo que a liberdade serve para promover o Estado de Direito (como defendem os conservadores), e não é o Estado de Direito que deve servir para promover a liberdade (como defendem os liberais), porque no último caso, a noção de liberdade dos neoliberais não só alimenta as causas do movimento revolucionário internacional, como acaba por fazer parte integrante da dinâmica de esquerda. Podemos dizer que o neoliberal é um aliado privilegiado e inconsciente da Nova Esquerda globalista.


Ernest Sternberg

Ernest Sternberg chama ao novo esquerdismo que desponta e se organiza a nível internacional, de “Purificacionismo”. O nome dado por Ernest Sternberg está intimamente ligado ao movimento puritano inglês dos princípios da idade moderna, que Eric Voegelin descreve com uma minúcia surpreendente na sua obra “A Nova Ciência da Política”. Na minha opinião, o nome de “Neopuritanismo” também se poderia aplicar, com a vantagem de fazer uma referência explícita ao movimento gnóstico dos puritanos ingleses, mantendo-se o fio ideológico que caracteriza o gnosticismo intemporal.

Em Portugal, a Nova Esquerda é protagonizada essencialmente pelo Bloco de Esquerda e por intelectuais como Boaventura Sousa Santos ou Manuel Alegre. O novo movimento político esquerdista à escala global tende a um sincretismo — uma “síntese dos extremos”, ou uma síntese dos radicalismos — entre várias correntes políticas e sociais que tenham como objectivo único e comum a guerra ao Império — sendo que o Império é conotado com os Estados Unidos, em primeiro lugar, e com Israel, em segundo lugar.

O imaginário dualista e maniqueísta gnóstico da Nova Esquerda traduz a ideia de Império como uma espécie do império regido pelo Dart Vader — a origem do Mal — da série cinematográfica da Guerra das Estrelas. Contra o império de Dart Vader estão os cavaleiros do Bem (a Nova Esquerda) que utilizam o conhecimento da Força — “a Força esteja contigo, Skywalker!”. A Força é conseguida através do conhecimento, isto é, da Gnose.

Platão (”Simpósio”) insistia que a filosofia, na medida em que é o “amor pela verdade” — no sentido de desejo de sabedoria — não possui a verdade absoluta, porque segundo o filósofo grego, não pode subsistir um desejo pela sabedoria se o sujeito já a possui; ninguém procura aquilo que já tem. Por isso, a Gnose difere da filosofia porque aquela parte do princípio que detém já a verdade absoluta, em vez de procurar a verdade em um processo contínuo e sempre inacabado, como faz a filosofia.

Como é característica do gnosticismo de todos os tempos, o dualismo religioso é essencial para a sua afirmação na cultura política. Esse dualismo exige a identificação do Mal (o bode-expiatório) que deve ser combatido para se construir um mundo perfeito e o paraíso na terra; e aos eleitos (os “pneumáticos” modernos, ou os novos puritanos) que combatem o Mal, é-lhes concedida a salvação futura nesse mundo perfeito. Essa salvação futura é escatológica e decorre da imanência e eminência de uma realidade apocalíptica — aquilo a que Eric Voegelin chama de “imanentização do éschatos”.

A imanentização escatológica dos gnósticos modernos — à semelhança dos antigos — pode ser palingénica (na terminologia de Roger Griffin: palin + genesis = retorno à origem, a uma grandiosidade do passado, como por exemplo a reconstrução fascista da Grande Roma, ou o retorno às origens do “bom selvagem” segundo Rousseau) e/ou metastática (segundo Eric Voegelin, a criação do Homem Novo e inédito, através da delirante alteração da estrutura fundamental da realidade que está na base das engenharias sociais do progressismo actual). Segundo Eric Voegelin e muitos outros autores e filósofos, o gnosticismo é uma constante da História e deve ser analisado e compreendido na medida em que faz parte da estrutura da realidade.

Eric Voegelin atribui o delírio gnóstico a uma patologia social; porém, tenho defendido aqui (e para além da tese da patologia social que é evidente e notória) numa série de postais com o título genérico ”A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna”, que aquilo a que se convencionou chamar de “gnosticismo” é (também) produto de um gene cultural recessivo que “prende” Homem ao paleolítico superior e ao neolítico — a alma neolítica do ser humano, presa ainda ao culto das forças impessoais da natureza e aos cultos femininos de fertilidade. Se juntarmos a sociopatia latente e patente no gnóstico de todos os tempos, o gene cultural recessivo, e um delírio interpretativo segundo Paul Sérieux, obtemos um panorama muito aproximado da Nova Esquerda globalista neopuritana.


Normalmente, as pessoas ficam confusas quando nos referimos ao movimento revolucionário em geral como uma manifestação de “gnosticismo moderno”, porque seria suposto que a mente revolucionária fosse anti-religiosa e o gnosticismo da antiguidade tardia tem uma conotação religiosa. De facto, o gnóstico moderno é anti-religioso no sentido de ser contra a transcendência ou contra a religião transcendente — excepto no que diz respeito às religiões transcendentes que combatem o Império, como é o caso do Islamismo. A aliança Marx-Maomé é um exemplo, entre muitos outros, da tentativa da síntese dos extremos de se falou acima; todas as religiões e movimentos que não declarem guerra ao Império do Mal, como é o caso do Cristianismo, em termos gerais, são religiões a combater pelo gnosticismo moderno da Nova Esquerda.

Por outro lado, é sabido que “a religião é uma característica antropológica” — como defendia Feuerbach — e portanto, indissociável do ser humano. O que pode variar no Homem é o tipo de religião, e no gnosticismo moderno da Nova Esquerda predomina o gene cultural recessivo que impõe a imanência do paleolítico e do neolítico, e mesmo de algumas religiões superiores, mas recusa a transcendência. Porém, a imanência gnóstica moderna é eminentemente materialista (epicurista) na sua génese, sendo que o Todo imanente em que se dilui o indivíduo (o novo Pleroma), é a própria natureza entendida exclusivamente como matéria, entendida no sentido clássico do termo. É neste sentido que se manifesta a característica tradicional anticósmica do gnosticismo, embora agora adaptado ao modernismo, tal como as culturas e religiões do paleolítico e do neolítico eram, na sua essência, anticósmicas.


Existem algumas diferenças entre a velha esquerda gnóstica marxista, que se ramificou em várias fileiras ideológicas como o marxismo-leninismo, estalinismo, trotskismo, maoísmo, etc., e a Nova Esquerda neopuritana ou “purificadora” — segundo a terminologia de Ernest Sternberg — que se organiza actualmente a nível global. A primeira diferença a assinalar é que a Nova Esquerda tem mais em atenção a teoria de Engels do que propriamente a de Karl Marx; o primeiro é mais preponderante na cartilha política da Nova Esquerda do que o segundo. O retorno a Engels é evidente na nova ideologia em processo de construção.

A segunda diferença é que a Nova Esquerda distingue-se da velha esquerda, do Partido Comunista ortodoxo, pela adopção clara da Utopia Negativa da Escola de Frankfurt (Georg Lukacs, Herbert Marcuse, Adorno, Horkheimer, etc., e mais lateralmente, Walter Benjamin e António Gramsci) em detrimento do marxismo clássico da luta de classes e da ditadura do proletariado. O objectivo final da Nova Esquerda é o mesmo do comunismo clássico; apenas diferem os meios e instrumentos de acção política, e o tempo de realização da utopia. A Utopia Negativa e a sua Teoria Crítica estão na origem daquilo a que se convencionou chamar de marxismo cultural ou politicamente correcto, e têm como suporte ideológico os três “mestres da suspeita”: Karl Marx (parcialmente substituído agora pela componente ideológica de Engels) , Nietzsche e Freud.

(continua)

1 Comentário »

  1. […] mencionado no ensaio de Ernest Sternberg, o filósofo francês Bernard-Henri Lévy — que desde Maio de 1968 se assumiu como um homem de […]

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    Pingback por O Neopuritanismo ou o Purificacionismo (2) « perspectivas — Quarta-feira, 7 Julho 2010 @ 9:22 am | Responder


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