perspectivas

Segunda-feira, 5 Julho 2010

A revolução tranquila e o condenado moderno

Quando em princípios dos anos 30 do século passado, Ortega Y Gasset deixou os Estados Unidos para regressar à Europa, foi-lhe perguntada a razão da sua mudança, ao que ele respondeu que “Europa es el único continente que tiene un contenido” — em castelhano, “continente” e “contenido” têm a mesma raiz — ou seja, a “Europa é o único continente que tem um conteúdo”. Muito sinceramente, hoje tenho muitas dúvidas sobre se Ortega Y Gasset teria tido a mesma opinião, depois de todo o processo cultural que a Europa sofreu a partir do início da II Guerra Mundial.

A Europa é cada vez mais um continente sem conteúdo, ou melhor, é um continente de que vai esvaziando, pelo ralo do niilismo, todo o seu conteúdo de dois milénios. A profecia de Nietzsche, sendo o arauto do pensamento preponderante no século XIX — o século da desgraça europeia —, parece cumprir-se inexoravelmente, encontrando pelos caminhos da história europeia dos últimos 100 anos os pontos de referência que a sustentam. A partir do anúncio profético de Nietzsche, a história da Europa resume-se à assunção de um fado, de um destino fatídico que determina, sem hipótese de reversão, a destruição de uma civilização. E, como defendeu Oswald Spengler, a própria reacção contra esse destino inevitável é infrutífera, e o mais que poderia resultar desse esforço de atalho na decadência civilizacional europeia, seria na instauração de um novo cesarismo gnóstico que dominasse a Europa.

Eu não tenho dúvidas de que as tendências ideológicas preponderantes e subjacentes à filosofia política determinam o destino político dos países e das nações. Se as profecias de Nietzsche ainda ecoam nas mentes dos hoje auto-denominados “politólogos”, é certo que as elites políticas europeias são hoje determinadas, na sua acção concreta, pelas ideias perniciosas e niilistas do alemão louco. As ideias de Nietzsche funcionam como um vírus que permanece na memória RAM de um computador, e que volta sempre, mesmo que o computador seja reiniciado: a única solução para o eliminar, parece ser a de formatar o disco duro.

O que é surpreendente, é que o pensamento de Nietzsche — assim como o pensamento de Karl Marx — é refutável com uma grande facilidade e com uma simplicidade de processos racionais e intelectuais. Ora, se é relativamente simples colocar em causa, não só os pressupostos do pensamento de Nietzsche (que resume as tendências filosóficas do século XIX), como o próprio fio condutor e a originalidade mais do que duvidosa da sua teoria, por que é que a filosofia política moderna persiste em não o fazer?

Um fenómeno semelhante aconteceu com as exéquias fúnebres de José Saramago, em que um comunista — um arquétipo do gnóstico moderno mais radical —, cristalizado e fossilizado em um sistema ortorrômbico ou triclínico, foi alcandorado ao estatuto de semideus por essa mesma classe política que nos governa, seguindo obedientemente as instruções ideológicas dos filósofos políticos que são os que detêm, na realidade, o poder.

O poder está, de facto, na filosofia política actual que é, muitas vezes, contratada à peça por uma certa plutocracia internacional, e essa filosofia política modernista escora-se quase exclusivamente na filosofia do século XIX . Não tenhamos ilusões sobre isto. Existe uma classe que “pensa as ideias” que não é, na maior parte das vezes, quem dá a cara aos povos. A classe que “pensa as ideias” são os marketeers da política que resumem o conteúdo da filosofia política aos últimos duzentos anos, erradicando da memória da humanidade, toda a história da filosofia política anterior. Este presentismo das ideias que vingam, é extremamente preocupante.

Porém, o mal da Europa, depois de ter contagiado o Canadá, parece entrar agora nos Estados Unidos pela mão de Obama. A doença alastra como a peste negra medieval. Encontramos agora, também no outro lado do Atlântico, o “condenado moderno”, potenciado pelo Vaticano II que cedeu ao antropocentrismo do super-homem de Nietzsche, pensando que assim teria alguma hipótese de parar a profecia de um louco que foi levado a sério por uma elite intelectual perturbada mentalmente.

O Vaticano II não tomou em consideração as palavras proverbiais de Winston Churchill: “Tentar manter boas relações com um comunista é como fazer festas a um crocodilo. Nunca sabemos se devemos afagá-lo debaixo do queixo ou bater-lhe por cima da cabeça. Quando abre a boca, nunca sabemos se está a sorrir ou a preparar-se para nos comer”.

A revolução tranquila, na Europa como no Canadá, levou ao engano sucessivas gerações de seres humanos, mantendo-os na ilusão de que o Homem poderia viver exclusivamente de pão e técnica, num mundo em que Deus teria sido assassinado por um demente. A revolução tranquila pretende conduzir a humanidade para o mesmo fim preconizado pela revolução violenta e ortodoxa, que é o domínio global por parte de uma elite gnóstica e sociopata, substituindo apenas os meios utilizados na revolução ortodoxa.

A Europa quis edificar uma civilização sem Deus que substituísse a civilização que lhe deu o ser, mas rapidamente constatamos que não foi uma nova civilização que surgiu, mas uma cultura sem culto, uma anticultura sem alma, vazia de conteúdo e que coloca em causa a própria existência do continente — uma anticultura fria e insensível tal como o dinheiro que venera. Desfragmentação da família, confusão de costumes, aumento do egoísmo, individualismo exacerbado e para além do racional e humanamente admissível, desordem existencial das nossas crianças e adolescentes, degradação das relações entre seres humanos. Eis o perfil do “condenado moderno”.

E no meio desta pretensa civilização sem Deus, espreitam os gnósticos modernos uma nova oportunidade que compense a que foi gorada pela realidade dos factos que ditaram o estertor do marxismo-leninismo como a expressão, por excelência, do regime providencial da elite gnóstica.

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