perspectivas

Domingo, 4 Julho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (12)

Todos os internautas conhecem, pelo menos de ouvir falar, o mundo virtual do “Second Life”, em que uma pessoa inventa uma personagem, muitas vezes com características pessoais diferenciadas do seu autor, personagem essa que actua em um mundo diferente daquele em que o internauta vive na realidade concreta e objectiva. Essa realidade virtual do “Second Life” é, de facto, uma “segunda realidade”, embora o internauta normal tenha a plena consciência de que essa “segunda realidade” não é verdadeira.

A Segunda Realidade

Imaginemos, por absurdo, que alguém com uma patologia social se convence que a realidade do “Second Life” é uma realidade que, para além de ser absolutamente concreta e palpável, é até desejável e superior em qualidade à realidade da vida que leva fora do “Second Life”. O sociopata passa assim a negar a sua realidade primeira — aquela onde ele nasceu do ventre da sua mãe —, classificando-a como sendo irreal e falsa, ou mesmo má e negativa, e a considerar a segunda realidade do “Second Life” como sendo a verdadeira realidade, desejável e perfeita. É mais ou menos isto que define o gnóstico, antigo e moderno.

Porém, a rejeição do gnóstico em relação à realidade concreta ou primeira, não é exercida de forma idêntica em todas as estirpes de gnosticismo, na medida em que o Iluminismo fez explodir uma miríade de tendências gnósticas e de religiões políticas. Vivemos hoje uma cultura em que predomina o gnosticismo. Enquanto que o gnosticismo da Antiguidade Tardia e o da Idade Média Baixa era sensivelmente uniforme, sendo uma corruptela parasita das religiões universais, no gnosticismo moderno a rejeição da estrutura fundamental da realidade concreta passa pelas diferentes ideologias (que são os substitutivos gnósticos modernos das religiões cósmicas) das diversas religiões políticas.

O escape gnóstico

Um ser humano normal e saudável tem a intuição da sua inserção em uma ordem cósmica. Pode até não ser um religioso praticante, mas ele sabe por intuição que a sua individualidade se harmoniza com uma ordem cósmica à qual pertence e com a qual interage. A esta consciência intuitiva, Eric Voegelin chamou de “consciência normativa” porque ela define o que é normal em um ser humano saudável.

Esta “consciência normativa” nem sempre existiu no ser humano de uma forma evidente e clara, e foi fruto de uma evolução de dois milhões de anos da espécie. Só no Neolítico o ser humano começou a tomar consciência — em termos colectivos e culturais — da sua inserção cósmica, e só a partir do Calcolítico ele começou a abandonar paulatinamente o culto das forças impessoais da natureza terrena e os cultos femininos de fertilidade, para os substituir pelas religiões superiores que encontravam na ordem cósmica não só a origem como o sentido da vida.

As características intemporais — ou comuns em todos os tempos — do gnosticismo, são produto de um “gene cultural recessivo”, que tende a encontrar em uma “segunda realidade” a recusa da “consciência normativa” que é apanágio do Homem que pertence à História. Essa “segunda realidade” tem como característica essencial o facto de ser anticósmica, isto é, de recusar ao Homem a sua inserção no cosmos nos termos decorrentes da “consciência normativa”. E a razão porque o gnóstico intemporal recusa a sua inserção cósmica, tem a ver com esse gene cultural recessivo herdado do tempo do culto das forças impessoais da natureza, em que a interpretação da realidade — da sua origem e sentido — era arbitrária e não escorada em princípios racionais.

As culturas superiores da História com as suas religiões superiores em geral, e principalmente a cultura cristã, deu um cunho racional à religião. No mundo cristão, dizer que a fé não é racional não significa que essa fé não se guie pela razão.

S. Tomás de Aquino dizia que “eu não acreditaria se não tivesse razões sólidas para acreditar”; e Pascal escreveu que “existem dois excessos: excluir a razão, só admitir a razão”. A fé não destrói a razão: aperfeiçoa-a. Santo Anselmo de Aosta dizia: “acredito para compreender” (Credo ut intelligam).

A propósito da razão na fé, convém dizer que o conceito de Credo quia absurdum, através do qual a fé é transformada em algo totalmente absurdo, e que é falsamente atribuído a Santo Agostinho, não é de autoria deste mas tem origem em Tertúlio, na sua obra De Carne Christi, e no seu capitulo V: Credo quia neptum. O conceito de Credo quia absurdum — falsamente atribuído a Agostinho de Hipona — foi recuperado por Lutero e introduzido no protestantismo. O conceito não faz parte do Cristianismo católico.

Portanto, a separação radical da fé e da razão, assim como a separação radical do cosmos e da realidade do Homem, são características gnósticas em todos os tempos.

Em resultado destas rupturas radicais em relação à realidade concreta ou primeira que é, assim, fragmentada, surge uma “segunda realidade” (uma espécie de “Second Life”), a qual o gnóstico antigo desejava que fosse a verdadeira realidade, “escapando-se” para essa “segunda realidade” através da abolição da realidade concreta e primeira, enquanto que o gnóstico moderno das religiões políticas faz o percurso inverso: pretende trazer essa “segunda realidade” para o mundo da realidade concreta e cósmica, substituindo radicalmente esta última.

(Votos de um bom e santo Domingo)

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