perspectivas

Terça-feira, 29 Junho 2010

Os monismos seculares (2)

A assunção de algumas posições éticas niilistas por parte de pessoas ligadas à Igreja católica, como são os casos do Bispo Januário Torgal Ferreira, do Padre Carreira das Neves ou do Frade Domingues (para mencionar apenas alguns), dão-nos a ideia de que como a ética cristã pode ceder perante as pressões de um mundo ocidental em grave crise de valores.

Eu passei alguns poucos anos a estudar as religiões, não como uma obrigação, mas como um passatempo. Antes da Era industrial, os monges cristãos inventaram o 3 X 8 : 8 horas de contemplação, meditação e oração, 8 horas de trabalho e 8 horas de sono. A Era industrial substituiu as primeiras 8 horas pelo entretenimento que consome a cultura e evacua-a. Eu não tenho nada contra o entretenimento, mas prefiro passar as 8 horas em que não trabalho nem durmo, a saber de coisas que não deito fora.

Não significa isto que o conhecimento traga consigo a Salvação; significa apenas que o conhecimento nos ajuda a compreender aquilo que não faz parte da Salvação — a relação entre o conhecimento e a Salvação é negativa, e não é positiva como defendem os gnósticos, antigos e/ou modernos. Uma coisa parece-me certa: se estudarmos as religiões, compreendemos melhor a política (e o contrário não é verdade).

De todas as religiões mundiais ou universais, a mais evoluída é o Cristianismo. Isto não significa que o Cristianismo seja perfeito; obviamente que não é. Porém, o processo de individuação e de universalidade, que caracterizou a evolução cultural desde o paleolítico médio até à modernidade, encontrou no Cristianismo o seu expoente máximo e interlocutor privilegiado. Exactamente porque o Cristianismo assumiu plenamente o processo de individuação cultural é que foi sujeito à “viragem crítica” que marcou o Iluminismo.

Perante a “viragem crítica” cultural contra o Cristianismo, que se materializou no Iluminismo, as religiões políticas surgiram como monismos seculares, o que significa de facto um enorme retrocesso cultural. Como todos os monismos, o monismo secular defende a diluição do indivíduo em um Todo, tendo como meio de acção em vida do indivíduo uma ética de supremacia da colectividade sobre o indivíduo, e tendo com fim a diluição do indivíduo em uma espécie de “Pleroma” — que no caso dos monismos seculares é materialista, ou seja, o Todo entendido como a matéria, ou a natureza entendida como o Todo.

Porém, rapidamente os monismos seculares se deram conta da dificuldade que existe em “voltar atrás” em matéria cultural. A experiência soviética constatou o facto de que um percurso evolutivo em matéria cultural só pode ser invertido ou anulado através da substituição de uma população por outra, em uma espécie de aplicação literal dos princípios da “República “ de Platão.

O mais próximo que estivemos da aplicação dos princípios políticos platónicos foi através do maoísmo, em que se aplicou o lema: “se o povo não se verga ao monismo secular, substitui-se esse povo por outro”. Contudo, a inculturação parcial de um monismo secular na China foi mais fácil do que a Ocidente, porque o Confucionismo era, ele mesmo, um monismo; bastou aos maoístas alterar a noção do Todo monista/confucionista.

O grande problema da inculturação monista secular é a herança monoteísta — e particularmente cristã — na cultura ocidental.

Perante a impotência e fracasso das religiões políticas em instaurar o monismo secular, no seguimento da viragem crítica do Iluminismo em relação ao Cristianismo, assistimos a Ocidente a uma explosão de religiões alternativas, como podemos constatar através do fenómeno New Wave. De facto, as religiões políticas não eliminaram a religiosidade transcendente no Homem, porque isso seria impossível. L. Feuerbach, se alguma razão teve, foi a de que a religião é um fenómeno antropológico, e retirar a religião ao ser humano seria aniquilá-lo ou negar-lhe a sua condição antropológica.

Portanto, aquilo que a “viragem crítica” monista secular iluminista conseguiu, em termos práticos, foi a substituição cultural e parcial do Cristianismo, como uma religião universal a Ocidente, por uma miríade de religiões pessoais e individuais — ou seja, os princípios essenciais do Cristianismo foram, por um lado, pulverizados até ao nível da interpretação subjectiva que tende a isolar o indivíduo do universal. A característica universalista do Cristianismo foi substituída por uma ética religiosa pessoalista e destituída de universalidade, o que significa que o processo cultural de individuação atingiu um ponto de desagregação cultural das sociedades ocidentais.

Por outro lado, assistiu-se a Ocidente a um fenómeno cultural massivo de sincretismo, através da importação de filosofias e teorias de outras religiões monistas (incluindo os monismos seculares). Algumas dessas importações teóricas têm alguma razão de ser, porque, como disse antes, o Cristianismo não é perfeito. Porém, a maior parte delas constitui um franco retrocesso cultural ao culto das forças impessoais da natureza do paleolítico, ao culto feminino da fertilidade do neolítico, e à religiosidade mana-tabu da pré-história, embora revestidos com novas roupagens culturais.


Há anos fiz um teste que pretendia determinar qual a minha “religião natural”. O resultado do teste revelou que a minha “religião natural”, de entre todas as existentes, era o Siquismo. Fiquei tão intrigado com o resultado do teste que me decidi a estudar as religiões e a sua História.

O Siquismo é uma religião sincrética, na medida em que aglutina — ou pretende aglutinar — o monismo hinduísta e o monoteísmo islâmico. Porém, o problema é que o monismo e o monoteísmo são inconciliáveis, ou seja, se tentarmos um sincretismo entre os dois tipos de religião, um deles acaba por prevalecer sobre o outro. Não é possível que resulte, da fusão sincrética de um monismo e um monoteísmo, um novo tipo de religião senão a prevalência de um ou outro tipo.

Para o Siquismo, Deus é o único Deus quase pessoal e capaz de agir (monoteísmo islâmico) mas, por outro lado, é o princípio interior ao mundo (monismo hinduísta). Este princípio interior ao mundo até é idêntico a Deus, sendo apenas uma realidade aparente, e “quando Deus eliminar essa ilusão aparente e enganadora, só existirá Ele”. Este tipo de concepção religiosa é também designado de panenteísmo: o Deus pessoal é também a realidade interior a tudo. Porém, no Siquismo os elementos monoteístas são de natureza transitória e o monismo acaba por triunfar.

Existiram outros casos de panenteísmos, mesmo na História do Cristianismo em que o monoteísmo triunfava sobre o monismo. Contudo, constata-se que uma verdadeira convergência entre as diversas noções de Deus ou Salvação, nos dois tipos de religião, não é possível. Ou domina o monismo ou o monoteísmo. A História das Religiões ainda não ofereceu, até agora, nenhum exemplo de uma conciliação objectiva das duas opções.

Esta diástase entre o monismo e o monoteísmo leva-nos à consideração da noção de complementaridade quântica, relativa à função ondulatória quântica : esta só se revela no macrocosmos (e ao ser humano) como onda ou como partícula, e não simultaneamente, sendo que a sua essência é a mesma e única; isto é, a função ondulatória quântica transporta consigo uma essência que não se revela, de forma empírica, ao ser humano, senão em uma de duas manifestações: ou como onda, ou como partícula, e nunca em simultâneo. Essa não-simultaneidade é a sua própria essência.

De modo idêntico, talvez a essência da “verdadeira religião” não se revele ao ser humano senão em uma de duas manifestações entendíveis pelo Homem, e que são complementares. Porém, há sempre que ter a preocupação em saber o que é aceitável do ponto de vista da ética, e aquilo que não é aceitável porque pertence a uma ética primitiva — e é aqui que está o grande problema da modernidade.


Os três clérigos referidos acima cederam claramente a um novo tipo de sincretismo em que prevalece o monismo — o monismo secular. A sua concepção do Deus pessoal, monoteísta e cristão foi claramente submetido por uma concepção monista moderna, materialista na sua essência, em que o Todo — em que se dilui o indivíduo — é a própria matéria entendida como a Totalidade. E é este tipo de monismo secular que caracteriza o gnosticismo moderno, assumindo plenamente a sua herança anticósmica da antiguidade tardia. Quando o bispo Torgal Ferreira diz que aceita os relacionamentos e comportamentos homossexuais como sendo naturais, renega a ordem do Cosmos; estamos em presença de um típico gnóstico moderno.

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