perspectivas

Sábado, 26 Junho 2010

Temos que ser “especialistas da curiosidade não especializada”

Eu sigo a blogosfera porque me interessa saber de ideias. Naturalmente que se tiver a oportunidade de conhecer as pessoas que escrevem, melhor seria; mas não tendo o ensejo de as conhecer, bastam-me as ideias. Porém, não deixo de ficar aturdido com esta estória.

Em princípio, um ser humano tem o direito de mudar de ideias; só não aprende quem é burro. Mas uma coisa é mudar de ideias, e outra é dar uma volta de 180 graus aos neurónios. Uma coisa é corrigir um percurso ideológico (o que sempre acontece com gente inteligente), e outra é mudar radicalmente de opinião (que só pode ser uma excepção à regra).

Por exemplo, Agostinho de Hipona mudou de ideias quando deixou a religião de Mani e optou pela religião de Cristo. Mas a mudança de Agostinho não colocou em causa alguns princípios fundamentais do maniqueísmo — a ideia de pecado, a ideia de inferno, a transcendência, etc., eram comuns aos dois sistemas religiosos. O que Agostinho repudiou foi o dualismo exacerbado do maniqueísmo que concebia uma entidade do Mal comparável à entidade do Bem.

As mudanças de opinião súbitas e radicais podem ter três razões : 1) oportunismo político; 2) uma metanóia inesperada 3) ignorância. As três situações estão, muitas vezes, interligadas.

No primeiro caso, assistimos a situações vergonhosas na política portuguesa, e quando vemos o que aconteceu com o percurso político de Freitas do Amaral, está tudo dito. No segundo caso, uma metanóia ou uma conversão tão radical como a relatada, toca as raias de uma intervenção transcendente.

Hoje assistimos a um fenómeno interessante, que é o de termos gente especializada em determinadas matérias e ignorante em quase tudo o resto. Agostinho da Silva escreveu que “sou especialista da curiosidade não especializada”; hoje, a maioria dos “intelectuais” é composta por “especialistas da vulgaridade especializada”. E quando não nos especializamos na “curiosidade não especializada”, acabamos por estender a lógica da nossa “especialização vulgar” (técnica) a tudo aquilo que desconhecemos.

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