perspectivas

Sábado, 26 Junho 2010

Os monismos seculares

Quando lemos ou ouvimos gente como Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa ou Manuel Alegre, não podemos nunca esquecer de que se trata de gente religiosa — mas de uma religião diferente (ou mesmo, em alguns casos, de uma corruptela gnóstica) do Cristianismo.

1. À medida em que o Cristianismo se foi afirmando como nova religião, verificam-se nele duas características essenciais: o universalismo abrangente (que não existe tanto no Judaísmo mas existe mais no Islão) e o carácter individual da fé (que existe mais no Judaísmo mas que é limitado no Islão).

No Judaísmo, o carácter formal dos ritos (limitações na alimentação, circuncisão, etc) limita a sua universalidade. O Islão, com excepção talvez do Islão espanhol tardio, não trouxe impulsos de individualização comparáveis aos do Cristianismo europeu e ocidental — que é diferente do Cristianismo oriental ou ortodoxo. O papel determinante da comunidade dos fiéis no Islão (a Umma) e o sistema legal islâmico (a Sharia) fizeram recuar, a partir do século IX da Era cristã, o processo de individualização que é uma das características marcantes das religiões universais.

2. Podemos, então, dizer que o Cristianismo é, de entre os monoteísmos, a única religião que congrega, de forma abrangente, um universalismo alargado, e uma individualização levada até ao limite do possível enquanto se mantém a coesão universal.

3. Foi esta característica de individualização do Cristianismo — a religião de Deus como sendo o Pai de cada indivíduo — que levou, a partir do Renascimento, à “viragem subjectivista” que encontra em Descartes um exemplo eloquente (“Eu penso, logo existo”). Um processo semelhante aconteceu, mais tarde, com o Judaísmo europeu em finais do século XVIII e século XIX.

Sendo que o Cristianismo é a religião do indivíduo por excelência, em que ele se sente apoiado por Deus na sua subjectividade e no conceito eminentemente cristão de personna que abrange toda a humanidade, a viragem subjectivista filosófica cristã do início da idade moderna é perfeitamente compreensível e enquadrável na estrutura essencial do Cristianismo.

4. Porém, no seguimento da “viragem subjectivista” do Cristianismo surge a “viragem crítica” na eminência e sequência do Iluminismo. E esta viragem crítica tem o dedo dos herdeiros do gnosticismo medieval — e podemos dizer, “gnosticismo intemporal”.

Nenhum dos críticos do Cristianismo que se afirmaram a partir do Iluminismo (à excepção de Freud) deixou de ter em consideração a questão do sentido da vida, e propuseram, todos eles — desde Comte a Karl Marx, passando por Nietzsche — estruturas religiosas que desembocam em sistemas monistas na sua forma, e com um exacerbado dualismo ético unanimista que caracteriza o gnosticismo (“quem não é unânime e totalmente por nós, é total e unanimemente contra nós”).

A estas estruturas religiosas surgidas na sequência do Iluminismo, podemos chamar de “monismos seculares”.

5. Uma das características do monismo (religioso) é a dissolução escatológica da individualidade, que no caso dos gnósticos da antiguidade tardia, era corporizado através do conceito de “Pleroma”. Esta característica do monismo diferencia-o radicalmente do monoteísmo. No monismo, não cabe o conceito cristão de personna.

6. As formas de materialismo moderno (as religiões políticas) constituem formas radicais de “monismo secular” que já se haviam manifestado nos séculos XVII e XVIII, no ressurgimento de motivos materialistas da antiguidade que se escoram no culto das forças impessoais da natureza e no culto feminino da fertilidade do paleolítico e neolítico.

7. O materialismo dialéctico oferece uma resposta (embora negativa) ao problema do sentido da vida (a questão dos “meios”), mas não satisfaz em termos soteriológicos (na questão dos “fins”).

Por isso, o materialismo é defendido em versões enriquecidas com associações religiosas provenientes do monismo tradicional (por exemplo, com o movimento religioso-político “Os Verdes”), ou combinado com perspectivas históricas de natureza necessariamente transitória, já que a única previsão que fazem para “o fim” é a de uma “diluição na matéria” (comparável à diluição do indivíduo no Pleroma dos monistas gnósticos, ou à diluição do indivíduo no Nirvana, entre os monistas budistas).

8. Os monismos seculares surgidos no processo iluminista, demonstram uma espécie de perspectiva de futuro transcendente que supera e anula as perspectivas do indivíduo, devido à sua orientação para o colectivo — tal como acontece na combinação do materialismo dialéctico com a utopia histórica de uma sociedade sem classes. Neste sentido, podemos dizer que os monismos seculares constituem um retrocesso cultural de milénios, quando anulam as perspectivas do indivíduo e a sua afirmação, fazendo retornar a humanidade a um estágio cultural anterior ao florescimento das religiões superiores que aconteceu a partir de 2000 a.C.

Quando lemos ou ouvimos gente como Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa ou Manuel Alegre, não podemos nunca esquecer de que se trata de gente religiosa — mas de uma religião diferente (ou mesmo, em alguns casos, de uma corruptela gnóstica) do Cristianismo.

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1 Comentário »

  1. […] validade absolutista da religião de Estado que o Bloco de Esquerda defende — que consiste em um monismo secular colectivizante e gnóstico, que tende a impôr à sociedade um retrocesso cultural de mais de 3.000 […]

    Gostar

    Pingback por As contradições aparentes do Bloco de Esquerda « perspectivas — Domingo, 27 Junho 2010 @ 3:05 am | Responder


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