perspectivas

Quarta-feira, 23 Junho 2010

A estupidez do seguidismo intelectualóide

Este senhor é o protótipo do intelectualóide estúpido, por duas razões: em primeiro lugar porque generaliza ao [implicitamente] comparar José Saramago, por exemplo, com escritores de esquerda como Gabriel Garcia Marquez, Urbano Tavares Rodrigues, Harold Bloom ou Pablo Neruda; e em segundo lugar porque separa o homem da sua obra, destituindo a obra-de-arte de um qualquer nexo causal.

1. Dos quatro escritores de esquerda referidos, nenhum teria a vontade de escrever alguma coisa parecida com “Caim”, porque a aberração do livro não está só no conteúdo, mas essencialmente na forma. Aquela “literatura” não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas o rei vai nu, e o intelectualóide estúpido não vê a diferença entre a esmagadora maioria dos escritores de esquerda e José Saramago. De vez em quando, a Academia Nobel cede a pressões políticas e cria monstros; não seria a primeira vez.

2. E depois separa o homem da sua criação, ou seja, ele imagina para a obra-de-arte um mundo à parte em que o criador, a sua história pessoal, as suas ideias gerais, a sua mundividência e as suas idiossincrasias não são tidas nem achadas. E, a esta separação estanque e total entre a obra e o obreiro, o estúpido chama de “inteligência” por oposição àquilo que ele considera “estupidez” — que é a preocupação em ligar a obra ao obreiro. Seria como se apreciássemos, à boa maneira romântica, a beleza estética de uma explosão atómica sem nos preocuparmos com a autoria da “obra”. Já aqui falei das consequências do romantismo levado até às consequências a que o estúpido as leva.


Fernando Pessoa escreveu [referindo-se a Nietzsche] que “a arte e a filosofia são resultantes dos temperamentos dos autores e da época em que vivem” (Fernando Pessoa, “Fragmentos Sobre a Literatura Europeia”). Naturalmente que o estúpido irá dizer que Pessoa era estúpido… é o que se chama de “estupidez natural”.

Esta máxima aplica-se mesmo às grandes influências particulares ou pessoais sobre determinada corrente artística : por exemplo, seria impensável falar no Surrealismo sem falar em André Breton e naquilo que ele foi como homem (como ser humano).

Quando se lê Mircea Eliade — a que o estúpido fez referência — não estamos em presença de arte literária, mas de literatura técnica e/ou científica — que é coisa diferente. Era o que faltava que a estupidez decretasse que um calhamaço sobre uma cadeira universitária de bioquímica passasse a ser uma obra-de-arte literária.

Uma obra-de-arte tem um autor que, por sua vez, se integra em uma corrente cultural e histórica. Só podemos apreciar verdadeiramente uma obra-de-arte se a colocarmos no seu contexto cultural e histórico, e para isso, teremos que [também] saber alguma coisa sobre o autor — e mesmo que o autor seja desconhecido ou anónimo, teremos que saber pelo menos algo sobre a época histórica em que a peça de arte foi produzida e das influências culturais coevas. E sabendo quem escreve o quê, teremos sempre um noção mais completa da obra.

Se a estupidez fosse música, o referido escriba seria um piano de cauda e a orquestra sinfónica completa.

3 comentários »

  1. precisamente

    nota:já tentei deixar lá a munha opinião, mas os comments estão avariados. que curioso

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    Comentar por pedronunesnomundo — Quarta-feira, 23 Junho 2010 @ 11:46 am | Responder

  2. «Seria como se apreciássemos, à boa maneira romântica, a beleza estética de uma explosão atómica sem nos preocuparmos com a autoria da “obra”.»

    GARGALHADA!

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    Comentar por Henrique — Quarta-feira, 23 Junho 2010 @ 2:46 pm | Responder

  3. Ah, quando os meus netos tiverem discernimento, vou-lhes explicar Saramago assim:

    – Foi um tipo que nunca soube fazer pontuação, mas queria ser escritor. Inventou então umas regras próprias para não ter que aprender as normais. A moda no tempo dele era ser-se ateu, contra os costumes cristãos e contra a religião católica e assim escreveu. De modo que os intelectualóides aderiram aos seus escritos e guindaram-no ao expoente máximo. Envaidecido, desata a escrever mais e sempre mais e, de cada vez que publicava um livro, a elite tinha que ler para não ser considerada inculta. Ai de quem não soubesse de cor os nomes dos livros dele numa conversa académica, era logo rotulado de ignorante. E foi assim que chegou a prémio Nobel. Ehehehehe!

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    Comentar por Henrique — Quarta-feira, 23 Junho 2010 @ 3:03 pm | Responder


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