perspectivas

Quarta-feira, 16 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (6)

Já vimos duas características do gnosticismo antigo: a sua raiz anticósmica e o unanimismo como exigência de pertença. Também falámos das diferenças entre as religiões superiores e as religiões universais.

Símbolos das religiões universais


Assim como o tipo de religiosidade humana acompanhou o processo de diferenciação cultural desde o paleolítico à História, assim o gnosticismo antigo se diferenciou culturalmente das formas remotas de religiosidade relacionadas com o culto de forças impessoais da natureza, provenientes do paleolítico superior e neolítico. Portanto, a ideia de que o gnosticismo surgiu pela primeira vez e apenas em oposição às religiões universais monoteístas (como o Cristianismo), é simplista. O gnosticismo não existe só em função do Cristianismo; tem uma essência própria.

A religiões universais, na sua esmagadora maioria, surgiram de uma revelação através de um indivíduo ou de um grupo deles. Isto é óbvio nos casos do Cristianismo, do Islamismo e do Budismo, mas também no Confucionismo e no Taoísmo — embora não se saiba exactamente quem é a personagem por detrás de Lao Tsé. No entanto, a revelação da religião universal, sendo efectuada através de um indivíduo ou de um grupo, foi sempre construída sobre as bases de uma religião anterior, e muitas vezes sobre uma religião de uma cultura superior. Os fundadores dessas novas representações universais viveram todos em tempos de mudança radical, tendo, contudo, formulado algumas noções que já existiam no meio ambiente cultural em que viviam — nenhum indivíduo é completamente original. Vou passar a citar, por duas vezes, Agostinho da Silva, porque o filósofo português resume o que se irá dizer a seguir:

  1. « Não haverá movimento nenhum definitivo para a Humanidade enquanto esse movimento novo aparecer como inovador, enquanto o que pretende ser revolução final se apresentar como revolucionária. »
  2. « Nenhuma das grandes religiões se estabeleceu jamais por meio da intelectualidade. A ela acodem sempre mais tarde os intelectuais, não em busca de mais intelectualidade, mas na esperança de encontrar aquele caminho de vida e aquela ressurreição que os seus sistemas puramente filosóficos lhes não podem dar. »

Os indivíduos — ou grupos — que lançaram as religiões universais não foram entendidos pelos homens da sua época como protagonistas de um movimento inovador. Os novos e primeiros adeptos de uma determinada e nova representação religiosa universal, nem sempre se viram a si mesmos como membros de uma nova comunidade religiosa, mas sim como adeptos da tradição e das religiões das culturas superiores às quais pertenciam — limitando-se a interpretá-las e a vivê-las melhor e de uma forma mais profunda. Na maior parte das vezes, foram necessárias uma ou várias gerações para que passasse a existir uma consciência do surgimento de uma nova comunidade separada da sua religião de origem e anterior.

Porém, em alguns casos, como no Judaísmo e no Hinduísmo universais, esta ruptura entre o novo e o velho não chegou a ocorrer, dando origem a uma coexistência com as religiões superiores e a um sincretismo entre o antigo e o novo; nestes dois casos, e ao contrário, por exemplo, do Cristianismo em relação ao Judaísmo, não existiu uma antítese (pelo menos, parcial) em relação àquilo que existia anteriormente.

Os três tipos de religiões universais

A partir do século VI a.C. — ou durante a “Era de Ouro” de Karl Jaspers —, desenvolveram-se concepções religiosas de tipo universal, embora o Cristianismo e o Islamismo surgissem alguns séculos depois. Podemos categorizar as religiões universais em monistas, monoteístas e dualistas.

Nem todas as religiões que defendem a fé em um único Deus podem ser consideradas como monoteístas. Só podemos falar em monoteísmo quando Deus é compreendido em termos quase pessoais, e como o único, cujo poder é universal. O Judaísmo foi o primeiro monoteísmo, seguido do Cristianismo e do Islamismo, embora desenvolvendo especificidades em cada um deles. É necessário distinguir o monoteísmo do henoteísmo, sendo que este último é uma espécie de concentração teológica e cultural em uma divindade, na qual estão incluídas as outras divindades e os outros deuses de um panteão (por exemplo, a religião superior da Grécia Antiga: Zeus, a divindade principal, e os outros deus).

O monismo designa a fé em uma última força objectiva — ou em um princípio que está na base de tudo. O divino é o fundamento impessoal e interior de tudo aquilo que existe, e a pluralidade do mundo aparece como o desdobramento do único fundamento do ser, que pode ser o Cosmos, como corpo de Deus (panteísmo) ou uma aproximação a um panenteísmo (a relação budista lamaísta e tibetana entre as noções de Sam-sara e de Nirvana).

Como podemos facilmente constatar, não existe um monoteísmo puro nem um monismo puro. Existem antes religiões com maior ou menor preponderância de uma ou outra categoria.

A terceira variante das religiões universais são as religiões dualistas, e foi herdada das religiões superiores — é nesta categoria das religiões universais que constatamos a evolução do gnosticismo das suas formas mais primitivas para novas formas, mantendo-se contudo determinadas características que permitem identificar o gnosticismo desde a sua génese até aos nossos dias.

No dualismo, a compreensão das divisões constitutivas da existência transforma-se no fundamento para uma interpretação religiosa universal do ser humano e da realidade do mundo. A experiência dualista é transposta para os princípios divinos iniciais ou primordiais — com origem em religiões superiores como a sumério/babilónica de Marduk, e que por sua vez evoluíram das religiões do paleolítico superior e neolítico sem rupturas na sua essência —, em que um deus do Bem se confronta com um outro deus do Mal, ou com um princípio demiúrgico das trevas e da matéria, e portanto, do Mal. Para o dualismo, a matéria e o mundo material é, em si mesma, a manifestação do Mal, e absolutamente nada mais nem menos do que o Mal.

No dualismo, o Bem pode consistir no Deus monoteísta ou no Deus monista — existiram, portanto, duas espécies de dualismo. Exactamente por isto é que as religiões dualistas propriamente ditas desapareceram porque foram absorvidas ou superadas pelas religiões monoteístas e monistas.

O que ficou das religiões dualistas foi a expressão gnóstica que acompanhou, através do tempo, as duas categorias subsistentes de religiões universais (monoteísmo e monismo); essa expressão gnóstica é essencialmente sincrética porque tende a incorporar em uma só as duas mundividências religiosas do monoteísmo e do monismo.

O gnosticismo medieval toma agora forma, renascendo das cinzas das religiões superiores que, por sua vez, mantiveram a expressão da essência das forças impessoais da natureza provenientes do paleolítico e do neolítico.

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