perspectivas

Sábado, 12 Junho 2010

Os bloquistas de direita

Como foi possível que os antigos gregos considerassem bárbaros os povos germânicos, e hoje os alemães, descendentes desses bárbaros tratem — na presente crise económica e financeira — os gregos como bárbaros? A resposta não pode estar na diferença racial, porque teríamos então de admitir que aconteceu uma mutação genética degenerescente entre os gregos. A verdadeira razão para as diferenças entre considerados “bárbaros” do século V a.C., e os “bárbaros” actuais, está na cultura.

Esta crise económica e financeira está a ser aproveitada por movimentos políticos encapotados em um libertarismo para propalar uma espécie de “racismo científico” — como acontece no blogue Gates of Viena, nos escritos do blogger Fjordman, e em partidos políticos europeus como o de Geert Wilders. Em vez de se concentrar na cultura, e sob uma capa libertária e em nome da liberdade individual, os novos movimentos políticos reinventaram o “racismo científico” dos nazis, assentando as diferenças entre os seres humanos nos genes e na raça em vez de integrarem as raças de um mesmo país em uma homogeneidade cultural.

Assim como os bloquistas da esquerda se servem dos conceitos de justiça e de igualdade para impor uma lógica progressiva em direcção a um totalitarismo, assim os bloquistas de direita se servem das diferenças culturais para convencerem os povos de que as diferenças estão nas raças, e que o coeficiente de inteligência — como se só existisse um só tipo de inteligência — depende da raça. Tal como os de esquerda, os bloquistas de direita apelam à atomização da sociedade em nome da defesa de um individualismo exacerbado e Randiano (de Ayn Rand). Depois de uma sociedade atomizada, em que o indivíduo se encontra só e isolado face ao Estado, as tentações e intentonas totalitárias aparecem com maior probabilidade de sucesso.

É perfeitamente compreensível que em um país haja necessidade de uma certa homogeneidade cultural, caso contrário não seria um país. Uma nação sem uma homogeneidade cultural é uma ficção, como estamos a ver no caso da Bélgica — na verdade, na Bélgica existem dois países, porque existem duas culturas diferentes sob o mesmo Estado.

Mas ainda não vai muito tempo os flamengos eram os “atrasados” dos Países Baixos; no tempo do rei-sol Luís XIV, o motor do desenvolvimento dos Países Baixos falava francês, e assim continuou por muito tempo até Bismarck. O que mudou a partir de Bismarck (e no seguimento da revolução francesa) foi a cultura, porque as raças europeias mantiveram-se as mesmas.

Isto não significa que a cultura prevalecente em uma determinada época seja intrínseca, essencial e absolutamente superior às outras, mas apenas que é a mais adequada e adaptada a uma determinada época — e neste sentido, essa cultura será superior enquanto a realidade for concebida e valorizada de uma determinada maneira.

Não quero dizer com isto que eu não aprove as medidas de limitação da imigração. Quero apenas dizer que o fundamento da limitação da imigração é cultural, e não rácico. A imigração deve ser acompanhada por um processo de integração cultural, para que se evite o fenómeno do multiculturalismo que está a destruir a Europa. Devemo-nos concentrar na cultura, e não na raça.

Também não quero dizer com isto que a cultura alemã seja superior à francesa, esta superior à espanhola que, por sua vez, seja superior à portuguesa. Quero dizer que o fenómeno da supremacia da cultura alemã, que se estendeu aos países limítrofes com afinidades culturais, teve a ver com a escala. Tal como na economia, a escala é importante na cultura — e esta é uma das razões porque é a cultura está a montante da economia, e não o contrário.

A partir de Bismarck começou o processo de unificação alemã que culminou nos actuais 80 milhões de alemães. Assim como as cidades-estado da antiga Grécia entraram em colapso com a expansão helénica de Alexandre que criou uma escala imperial multicultural, assim as nações estão sujeitas às variações de escala cultural consoante os valores preponderantes em cada época histórica.

Sobre Nietzsche e a Alemanha do século XIX, escreveu Fernando Pessoa (“Fragmentos Sobre a Literatura Europeia”):

« O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento.

Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Uma outra coisa não poderia suceder (ser).

Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de um louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde o ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assunção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui — mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor — a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante). »

Quando falamos hoje de “cultura nórdica” na Europa, falamos de cultura alemã e mais uns trocos — a holandesa, a dinamarquesa, a sueca, a norueguesa, etc — que se submeteram historicamente ao padrão alemão através de afinidades culturais e linguísticas. Porém, esses nórdicos culturais foram (com excepção de Inglaterra), não vai muito tempo, os analfabetos do império romano e da História da Europa até ao século XVIII.

Seria, por isso, estúpido dizer-se que os antigos analfabetos da História eram rácica ou geneticamente inferiores, porque conforme verificamos através da História, aquilo que é hoje superior pode ser inferior amanhã. E é isto que os novos defensores nórdicos e “libertários” do “racismo darwinista cientificamente provado” não conseguem compreender, porque vivem absortos no presente de tal forma que não conseguem enxergar o passado, nem imaginar o futuro.

2 comentários »

  1. Não creio que o propósito do Geert Wilders seja uma de teor rácico mas sim cultural.

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    Comentar por Mats — Domingo, 13 Junho 2010 @ 12:30 am | Responder


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