perspectivas

Quinta-feira, 10 Junho 2010

Separando as águas

Na Holanda, o partido de Geert Wilders — o “partido da liberdade” — subiu nas ultimas eleições e duplicou o seu número de deputados. Que fique claro que, na minha opinião, esse partido não é um partido conservador na verdadeira acepção do conceito: é muito mais liberal (no sentido europeu) do que conservador. A defesa de uma determinada cultura, só por si, não define um partido conservador. Por detrás da defesa de uma determinada cultura tem que estar sempre uma ética, e é essa ética que define uma instituição ou uma comunidade.

Geert Wilders

A ética que está por detrás do partido de Geert Wilders é uma ética libertária nos costumes — e essa é uma das razões porque esse partido se opõe ao Islão. Sendo ultra-liberal nos costumes, Geert Wilders defende a corrupção moral da sociedade tanto quanto um partido radical de esquerda marxista cultural. Em contraponto, um partido conservador na Europa tem que adoptar a ética cristã, o União Europeia significa o respeito pela tradição dentro dos paradigmas dessa ética.

Entre a postura de Geert Wilders e o Islão, está o conservador cristão, ou seja, “nem oito nem oitenta”. Um conservador cristão opõe-se ao Islão por razões diferentes de Geert Wilders. A ética islâmica, exarada no Alcorão, é em muitos aspectos atentatória da dignidade humana, principalmente no que respeita às mulheres e aos homossexuais. Sob o ponto de vista da religião e da teologia, o Alá islâmico é o responsável pelo bem e pelo mal — enquanto que os cristãos dizem que o mal é a ausência do bem e que não é, por isso, proveniente de Deus. Só por isto seria falso dizer-se que o Deus cristão é igual, ou é o mesmo Deus do Islão.

Do ponto de vista político, o conservador assume a enorme importância de todas as comunidades da sociedade civil, não concedendo ao Estado um outro estatuto que não seja o de uma comunidade especial e com algumas atribuições específicas. Isto significa que se o conservador aceita a separação entre as igrejas cristãs e os estados — como aliás sempre fez parte da própria filosofia de Jesus Cristo, quando disse “dai a César o que é de César” —, enquanto que a essência do Islão é teocrática e não pode ser de outra maneira sem desvirtuar a própria religião.

A oposição de Geert Wilders ao Islão tem a ver com outros aspectos, como a iliberalidade islâmica em relação à conhecida depravação holandesa nos costumes. A oposição de Geert Wilders ao Islão é formal, e não de conteúdo. A proposta cultural de Geert Wilders é decadente, porque sanciona a depravação moral através da própria crítica à intolerância islâmica; ou seja, seria como se alguém dissesse que “a libertinagem holandesa é sempre melhor do que a intolerância islâmica”, quando na realidade ambas as posições estão erradas. Além do mais, estamos em presença de um ateu assumido e confesso.


Um dos blogues que mais tem apoiado o Geert Wilders é o Gates of Viena. São postais como este que nos dão a ideia nas nuances ideológicas escondidas por detrás da pertinente reivindicação contra a islamização da Europa. No dito postal, insinua-se que o clima frio do norte da Europa torna as pessoas mais inteligentes. Naturalmente que a defesa desta ideia é feita como “quem não quer a coisa”, como se “afinal não fosse bem assim mas pode ser”. Essa ideia é compartilhada pelo conhecido blogger Fjordman.

Um conservador cristão nunca poderia defender a ideia segundo a qual as pessoas são mais inteligentes ou mais burras só porque vivem em determinada região ou país. O problema disto é que aquela gente é muitas vezes confundida com o conservadorismo genuíno.

2 comentários »

  1. Acho que a defesa de que o frio é o responsável do maior quociente de inteligência dos caucasianos e asiáticos em oposição aos habitantes dos trópicos foi feito com maior detalhe noutros ensaios.

    Alegadamente foi a escassez de alimentos nos invernos rigorosos das glaciações que pressionou os euro-asiáticos que habitavam o hemisfério norte para contornar a questão do armazenamento de alimentos, a elaboração de estragégias para escapar ao frio (roupa, habitações).

    O Fjordman fez um bom ensaio sobre isso, devia procurar isso, Orlando.

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    Comentar por Fenéco — Sexta-feira, 11 Junho 2010 @ 2:53 pm | Responder

  2. Que eu saiba, os judeus não são nórdicos. Apontem-me quantos prémios Nobel da física ou da química não são judeus. E já agora, da economia.

    Para além disso, existem vários tipos de inteligência. Se eu argumentasse com o Fjordman, ele sairia humilhado da conversa. Uma coisa é a cultura, que pode ou não favorecer o esforço humano individual; outra coisa é a inteligência, que é múltipla. Confundir as duas coisas foi o que os nazis fizeram (de propósito).

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 11 Junho 2010 @ 6:03 pm | Responder


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