perspectivas

Terça-feira, 8 Junho 2010

A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (2)

Filed under: gnosticismo,religiões políticas — O. Braga @ 5:24 pm
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A religião é uma criação ou um elemento constitutivo da cultura, podendo mesmo ser vista como um pressuposto da cultura.

Uma ressalva em relação ao postal anterior: quando me referi a “divindade” da Mãe-Terra, trata-se de uma figura de estilo, porque o culto da Mãe-Terra não era personalizado — não existiam, então, deuses pessoais. O culto da Mãe-Terra era impessoal e dedicado às forças terrestres sem sentido lato, que asseguravam a fertilidade da natureza (daí a associação simbólica entre o feminino e a natureza terrena da fertilidade, do nascimento, dos ciclos das estações por analogia aos ciclos de fertilidade feminina, etc.) e, por esta via, garantiam o ser e o devir do humano entre o nascimento e a morte. Durante o paleolítico superior e grande parte do neolítico, subsistiu um simples e incipiente culto dos mortos (manifestações fúnebres, exorcismos, etc.) em simultaneidade com o culto de forças naturais impessoais. Porém, este culto dos mortos não era espiritual no sentido que as religiões superiores, já na História, lhe veio a atribuir; antes era um culto dos mortos que se confundia com a própria realidade natural e material — não existia ainda uma diferenciação cultural clara entre o espiritual e o natural.

A “diferenciação cultural”

Faço um parêntesis em relação ao tema principal da série de postais, para falar do conceito de “diferenciação cultural”.

Da antiga Babilónia chegou-nos o conjunto de mitos de Gilgamesh que têm uma origem suméria. Um dos mitos conta a história de Enkidu, o homem selvagem que vivia entre os animais. O mito dizia que Enkidu não conhecia nem “terra nem gente”, e que “ele comia erva com as gazelas e bebia água com o gado”. Enkidu era um homem da natureza que vivia em total harmonia com os animais. Ouvindo falar dele, Gilgamesh, o rei de Uruk, enviou um caçador para o apanhar, mas Enkidu conseguiu escapar devido à sua força natural. Então, Gilgamesh enviou uma prostituta para seduzir Enkidu. E reza o mito: “Quando Enkidu se saciou da sua abundância da prostituta, olhou para o seu gado. Quando viram Enkidu, as gazelas fugiram. O gado do campo afastou-se do seu corpo.” Entretanto, disse-lhe a prostituta: “Porque é que corres com a multidão pelo campo? Vem, quero-te levar a Uruk, a cidade cercada”. Conclui o mito que o contacto com a cultura urbana, mediada pela prostituta, destruiu a harmonia existente até àquele momento entre Enkidu e a natureza; ele perdeu a sua inocência natural em consequência do encontro com a cultura. Agora, já é tarde para Enkidu : o seu destino leva-o a Uruk, o símbolo da cidade.

Para Enkidu, houve um processo de diferenciação cultural. O mito diz que Enkidu vivia entre os animais e não em uma comunidade de seres humanos. Mas se Enkidu vivesse em um pequeno clã com um máximo de 30 pessoas — que era o número típico de humanos vivendo em clãs no paleolítico superior —, o efeito de diferenciação cultural seria o mesmo se Enkidu se deparasse com um núcleo urbano com muralhas do neolítico, como o de Jericó, em Israel, ou Çatal Hüyük, na actual Turquia.

O processo de diferenciação cultural, pelo menos desde o paleolítico superior ao fim do neolítico, foi lento, e as mulheres desempenharam nele um papel primordial quando se assumiram como guardiãs das técnicas da agricultura, enquanto os homens se dedicavam à caça. A agricultura foi-se desenvolvendo com a acumulação da experiência e, já no fim do neolítico, apareceu o arado e outros instrumentos de metal, para além da roda que foi inventada nessa altura. A cultura dos índios americanos (Incas, Aztecas, etc.) não conhecia a roda quando os europeus chegaram ao continente americano no século XVI, e por isso as culturas ameríndias constituem uma excepção em todo o processo de diferenciação cultural e em relação à esmagadora maioria das culturas neolíticas a nível global.


Parece óbvio que o processo de diferenciação cultural seguiu a par e passo com a evolução da técnica. Mas será sempre assim ?

É difícil imaginar o tipo de religiosidade de um ser humano de há 25 mil anos. Certamente seria algo de rudimentar, quase indistinto ou indistinguível dos outros comportamentos, exprimindo-se talvez e apenas em receios indistintos que englobavam a percepção inconsciente do tabu, ou em sentimentos totais de felicidade comparáveis entre si. Esse homem seria o de há 25 mil anos e é, na minha opinião, o “homem moderno” embotado espiritualmente. Portanto, não podemos dizer que “é sempre assim”.

Estes receios e sentimentos, através do processo de diferenciação cultural, “objectivaram-se”, através das experiências e vivências quotidianas associadas com determinadas ocasiões, rupturas de vida e situações-limite, em lugares e tempos “sagrados” que serviram de fundamento a uma orientação positiva em relação ao medo e ao receio, e deram origem a reacções rituais. Em consequência, a linguagem e o discurso foram-se tornando mais elaborados, o que resultou no início das verbalizações rituais que levaram ao respeito absoluto pelos tabus.

A partir do aparecimento dos tabus, constatamos mais uma diferenciação cultural, porque as regras do tabu são feitas pelos seres humanos e ultrapassam as leis do instinto. Com estas regras apareceram os contextos cultuais e rituais, e os fenómenos de relevância social (nascimento, gravidez, maternidade, paternidade, morte, caça, etc.). O tabu é o princípio das alternativas éticas, ou seja, de normas que não são dadas pela natureza. Uma sociedade — seja primitiva seja actual — sem tabus não pode existir.

É neste sentido que podemos dizer com toda a certeza possível, que a religião é uma criação ou um elemento constitutivo da cultura, podendo mesmo ser vista como um pressuposto da cultura. Isto significa que quem tem uma postura anti-religiosa, ou é ignorante, ou tem a ilusão de poder reprimir a natureza humana erradicando as expressões culturais do Homem.

1 Comentário »

  1. […] Parte I falamos do culto da Mãe-Terra e na Parte II da noção de “diferenciação cultural”. Vimos que o culto da Mãe-Terra, característico da […]

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    Pingback por A evolução do gnosticismo até à sua expressão moderna (3) « perspectivas — Quinta-feira, 10 Junho 2010 @ 7:02 am | Responder


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