perspectivas

Domingo, 6 Junho 2010

Agostinho da Silva era de esquerda ?

Toda as virtudes são coragem; e a esquerda normalmente apropria-se cobardemente de todas elas.

Por exemplo, o Estado Social é a “identidade de esquerda”, quando sabemos que ele apareceu na Europa do pós-guerra, e em primeiro lugar, com Konrad Adenauer. Os intelectuais? “Têm o seu ADN à esquerda”; desde o tempo dos pré-socráticos que todos os pensadores são de esquerda (não se deram conta disso). A democracia? Naturalmente que é de esquerda — como “identidade da esquerda”, a democracia já existia no paleolítico, e os autores da Magna Carta eram de esquerda (só que ainda não tinham disso consciência). A esquerda é tão fantástica que pressupõe que alguém virtuoso seja sempre de esquerda, embora “não tenha saído do armário”. É , segundo a esquerda, o caso de Agostinho da Silva.

Para a nossa esquerda, Agostinho da Silva era canhoto. Vejamos o que escreveu o filósofo transmontano sobre a política:

“O melhor será que não pertençamos a partido algum, porque a política não é uma essência de ser, como a religião, a ciência ou a arte, nas quais todos devíamos estar: é uma pura fatalidade histórica, como a economia, ou administração. Como também a medicina ou a engenharia.”

Para Agostinho, a política é uma “fatalidade histórica”, uma espécie de “acidente” na concepção metafisica de Aristóteles; é algo que acontece acidentalmente mas que não tem substância própria. Já imaginaram alguém de esquerda pensar isto da política? Eu nunca vi. Um “independente de esquerda” é imediatamente classificado “de direita”.

Agostinho da Silva era, na política, um pragmático : “Eu não voto por rótulos (…) Eu não quero saber das campanhas eleitorais para nada. Eu quero saber das ideias que as pessoas têm e da maneira como depois as vão defender e praticar.” Vocês já viram alguém de esquerda não votar nos rótulos? “Partido é uma parte: sê inteiro”, escreveu o filósofo.

Vou transcrever aqui um trecho da autoria de um “filósofo” que ainda não tem cabelos brancos (via) mas que tem o alvará de inteligente:

“O novo intelectual é o «fast-thinker». O «Lucky Luke» do pensamento e da palavra. O velho «maître-à-penser» deu lugar ao novo «prêt-à-penser », que ocupa os interfaces da comunicação como seu ambiente natural. Está por todo o lado e ao mesmo tempo. É um clone de si próprio. Fala de tudo como se de tudo fosse especialista.

O citado filósofo de esquerda (e sem cãs) — que fala de tudo como se fosse um especialista, a julgar pelo seu longo texto sobre nada e tudo ao mesmo tempo — preza a especialização quando critica o “novo intelectual” por querer ser especialista sem (alegadamente) o ser. Repare-se o que diz, desta vez um filósofo de longa vida, sobre a especialização:

« Há hoje quem esteja plenamente convencido de que nasceu mais engenheiro do que homem; como se já estivéssemos naquele tempo de pesadelo em que se fabricariam homens-máquinas de servir máquinas de servir homens-máquinas.

(…)

Sou especialista da curiosidade não especializada.

(…)

Ser-se anti-especialista nada vale quando o que o for se deixa esmagar pelo que sabe e reparte a sua actividade pelos diversos campos, a cada passo um homem diferente. »

Para o filósofo de barba branca, ser-se anti-especialista não é um mal em si mesmo; o que é péssimo é que “o homem seja diferente a cada passo” e que perca a sua identidade e a sua coerência quando fala de tudo. E o problema não está em só falar de tudo, se se perde, por essa via, a coerência e a identidade: está em ser-se especialista “como se e já estivéssemos naquele tempo de pesadelo em que se fabricariam homens-máquinas de servir máquinas de servir homens-máquinas”.

E finalmente, sobre Deus, escreveu o filósofo septuagenário: “Deus não se afirma nem se nega: Deus É — mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua liberdade”. /// “Toda a prova da existência de Deus rebaixa-O ao nosso próprio nível.” /// “Acreditar num Deus provado seria tão relevante como acreditar na tabuada”.

Se alguém que tenha uma matriz cultural religiosa é, normalmente, considerado pela esquerda como sendo “de direita”, então Agostinho da Silva era de direita. Mas como sabemos do enviesamento gnóstico da esquerda, melhor seria que disséssemos apenas e só que Agostinho não era de esquerda. Mais vale uma certeza que duas probabilidades.

3 comentários »

  1. «E eles emprestavam um certo heroísmo de atitude à esquerda, uma certa nobreza, para não dizer uma certa superioridade moral
    Essa é boa!

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    Comentar por Henrique — Domingo, 6 Junho 2010 @ 11:21 pm | Responder

  2. “Para o filósofo de barba branca, ser-se anti-especialista não é um mal em si mesmo; o que é péssimo é que “o homem seja diferente a cada passo” e que perca a sua identidade e a sua coerência quando fala de tudo. E o problema não está em só falar de tudo, se se perde, por essa via, a coerência e a identidade”
    .
    Excelente, como diz Sertillanges, a frase dos homens pertubados de intelecto é: meu nome é Legião, são homens que tem o espirito diperso na multidão.

    Olavo de Carvalho explicando a nova era, também diz que essa frase sintetiza o espirito da nova era, um caldeirão de subjetividades pessoais, e onde não existe consciência individual.

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    Comentar por shâmtia ayômide — Segunda-feira, 7 Junho 2010 @ 5:14 pm | Responder

  3. [Opss. O comentário anterior pode ser apagado, se quiseres)

    Todas as virtudes tem que ser por definição de esquerda. O auto-conferido rótulo de autoridade moral da esquerda não poderia admitir o contrário.

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    Comentar por Mats — Quinta-feira, 10 Junho 2010 @ 4:26 pm | Responder


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